O Escritor Fantasma, de Polanski

por Luiz Biajoni – O último filme de Polanski está sendo vendido como um eletrizante thriller político. Não achei. Nem eletrizante, nem thriller. Tem um fundo político. Mas é lento, insosso, dava para ter meia hora a menos. E tem outros defeitos.

Incrível que todo mundo tá dizendo que o filme é ótimo. Luiz Zanin Orichio escreveu: “Polanski, que sabe também trabalhar o filme de gênero como poucos, produz inquietações. Suscita mais perguntas do que respostas. E, desta vez, desce não apenas aos porões sombrios das almas individuais, mas vasculha os interesses políticos e corporativos, essa caixa-preta da nossa história contemporânea”. Uau. Porões sombrios da alma humana, é?

Basicamente: um escritor fantasma é contratado para escrever a biografia de um importante líder político depois que o escritor anterior morreu – afogado, não se sabe se acidental ou suicídio. O político vive uma crise, o escritor descobre algumas coisas e nos quinze minutos finais o filme ganha agilidade até acabar de maneira polanskiana.

Alguém que assume papel de outro e tem que se ajustar à medida anterior é tema comum a Polanski. Lembra O Inquilino (1976), onde um jovem aluga o apartamento de uma velha que tentou o suicídio atirando-se da janela para, logo em seguida, adquirir os mesmos hábitos da velha, inclusive o de atirar-se. Em O Escritor Fantasma, Ewan McGregor vai pelo mesmo caminho. Mas, enquanto O Inquilino se desenvolve no ambiente do terror, O Escritor… vai por uma via de filme noir, com entrechos vagarosos demais, prolixos demais, com informações desnecessárias demais, no sentido de “criar um clima” – clima esse que vai sendo esvaziado à medida que chegamos próximos do final. O final quer ser surpreendente, mas não pega fãs de Polanski de calças curtas. Todos se lembram da Mia Farrow desconstruindo os nomes de seus algozes em O Bebê de Rosemary (1968), pois não?

Logo no início do filme o escritor é atacado por pessoas em uma moto que roubam o original de um livro que é levado por engano. O escritor encara de maneira muito normal essa agressão. Aparentemente não a menciona a ninguém, o que seria normal. Adiante, vira um fofoqueiro, alguém que fala sobre tudo com todos, mudando o traço da discrição – essencial a um escritor fantasma.

McGregor é um bom ator com um papel estranho. Parece bonito demais para escritor. Ainda mais fantasma. Em alguns momentos, parece querer ir a fundo na investigação sobre o que aconteceu ao seu antecessor e sobre coisas que não estão no livro. Em outros, solta frases como “sou um escritor, não um repórter investigativo, não me interessa o que aconteceu com ele”. Por outro lado, não é seu esforço intrínseco que o leva a conclusões: é sempre o acaso. Sem motivo aparente, ele vai esvaziar as gavetas do guarda-roupas do escritor morto e encontra um envelope que o morto havia colado ali. Uma cena ruim. Depois, pega o carro que o morto usava e o GPS tinha registrado sua última viagem – e isso o leva a casa de um personagem essencial.

Tem uma coisa que me incomoda muito em livros e filmes de suspense: o acaso. Uma coisa é o camarada investigar e chegar a conclusões. Outra é o detetive procurar uma pessoa e ela aparecer atravessando a rua, bem diante dele. Acasos matam o suspense. E está cheio deles em O Escritor Fantasma. Não bastasse, há envolvimentos amorosos escusos, hostilidade popular contra o político, perseguições que não serão esclarecidas. Um atentado que nos faz acordar na poltrona. E a conclusão que provoca novo bocejo.

Vejam: eu adoro Polanski. Adoro todos os seus filmes, gosto até mesmo daquele filmeco de terror com o Johnny Depp e o Frank Langella. Mas não vi o mesmo filme que a crítica viu, nesse O Escritor Fantasma. O filme surfa em clichês para não dizer a que veio. Só se salva mesmo o Pierce Brosnan, de Tony Blair.

[veja o trailer]

9 comentários | Dê sua opinião

  1. rayssa gon 06/08/2010 em 10:20 am

    Parece bonito demais para escritor ?

    McGregor é bonito de mais pra ser humano. serio.

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  2. Ricardo Cabral 06/08/2010 em 12:55 pm

    O roteiro é mesmo preguiçoso, Biajoni, concordo com o que você diz, embora o filme possa ser visto sem dor em casa, substituindo facilmente qualquer estreia do Telecine. Só não me surpreendo com isso, pois o grande Polanski vive errando a mão e fazendo filmes dispensáveis. Frantic, por exemplo, quem lembra? Em compensação, gosto quando ele adora se divertir fazendo filmes ruins. Exemplo? Lua de Fel. Foi adorado pela crítica, que teceu várias considerações sobre as relações sadomasoquistas dos personagens principais sem atentar para o fato de ser um filmeco propositalmente de quinta categoria, onde o diretor fez a festa na exploração de clichês, abusou do erotismo mais do que barato e ainda por cima lançou mão de atores canastrões como protagonistas… mas ninguém falou disso! Ele deve ter gargalhado quando leu o que disseram, tenho certeza.

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  5. valmir 10/08/2010 em 2:08 pm

    Mesmo num mundo onde George W. Bush, Fernando Collor, Silvio Berlusconi e assemelhados podem ser presidentes de um país, a prisão de Roman Polanski na Suíça, a pedido dos americanos, onde ainda se encontra, por ter supostamente, há quase 40 atrás, cedido aos encantos de uma Lolita, que hoje, casada e mãe de filhos, tudo que deseja, em suas próprias palavras, é que esqueçam do assunto, soava como um absurdo além dos generosos padrões de surrealismo do mundo atual e pedia explicação mais convincente. E a ninfeta nem era mais virgem ao tempo dos eventos libidinosos.
    Agora, pelo preço de um ingresso de cinema pode-se ter essa explicação de modo mais que satisfatório, bastando para isso que se vá assistir ao filme que diretor terminou já na prisão – O Escritor Fantasma – e que contém, em seu enredo, de modo explicito, a tese que o ex primeiro ministro britânico Tony Blair, também conhecido na imprensa inglesa como “o cachorrinho de Bush”, e senhora, não passavam de funcionários da “Companhia”, na folha de pagamento do governo americano como agentes “undercover”, infiltrados, no governo da reino unido para servir aos propósitos imperiais da única superpotência remanescente no mundo, fazendo o serviço sujo na guerra do Iraque principalmente. Como qualquer “gauleiter”, fantoche, nos governos de republiquetas sul americanas, africanas ou asiáticas.
    O Tony Blair do filme se chama Adam Lang, e é feito por um Pierce Brosnan sob medida, numa escolha de fina ironia, por ter sido um dos últimos 007 do cinema, o agente secreto de sua majestade que personificava o ultimo motivo de orgulho viril do desdentado Leão Britânico, em sua sanha de macho hiperativo, talvez para compensar, no imaginário universal, a crença no escasso interesse dos ingleses pelas atividades da alcova. Ao menos quando essas atividades envolvem membros do sexo oposto.
    Qualquer um que já viu o Pet de Bush, no papel de primeiro ministro, na TV, não tem dúvida que ele precisava de orientação externa para amarrar o sapato ou qualquer outra tarefa de igual complexidade. Enfim, isso – o filme – deve ter soado aos ouvidos – e olhos- dos súditos de sua majestade, como um insulto intolerável, e os americanos apesar, de certamente terem achado uma piada divertida, não podiam se omitir de ajudar o aliado de primeira hora, em todas suas estripulias bélicas, cobrando do governo Suíço o encarceramento do famigerado cineasta. Com quem, convenientemente, já tinham contas a acertar por sua independência, ousadia, pouca vergonha e safadeza.
    Isso só reforça a tese que o governo e mídia americanos nunca toleraram a trinca de realizadores, integrada por judeus, baixinhos e abusados, subversivos, provocadores, e muito talentosos, formado por Chaplin, Woody Allen e Roman Polanski. Além do gênio mais que evidente, e empatia com um certo publico letrado – em geral não americano – dividiam também a incontida preferência por mulheres muito jovens, o que na sociedade puritana e hipócrita, que construíram na América do Norte, onde quase sempre a violência exacerbada e nauseante nos filmes substituiu o sexo, e o único instrumento fálico que admitem na tela é uma arma fumegante.
    De modo que, sem metáforas, essa violência se reflete de modo simétrico no mundo real, e é imperdoável quem prefere o amor à morte, fornecendo o pretexto mais que suficiente para a retaliação que tarda mas não falha. Woody Allen quase teve a carreira arruinada quando se casou com a jovem enteada vietnamita de sua ex-mulher, Mia Farrow, há alguns anos, e Charles Chaplin, o grande e imortal Carlitos, foi impedido de desembarcar em solo americano – sob pretexto idêntico – depois de uma viagem a Europa, e acabou, findando seus dias no exílio…onde? Na Suíça, claro.
    Dos três, o único que ainda não sentiu o peso do braço vingativo de Tio Sam em toda sua fúria – até por ser o menos explicitamente político dos três – foi Woody Allen, mas já sentiu, sem duvida, a rarefação da atmosfera de trabalho, na dificuldade de financiar seus projetos em solo americano, na justa medida que aumenta seu prestigio no exterior, onde tem filmado intensamente, a convite de governos e produtores independentes. Mas tem de ficar esperto para não dar pretexto para uma ação mais enérgica, com a CIA, o FBI, os “county sheriffs”,e os Marines em seu encalço por qualquer infração de transito, ou atraso no pagamento da conta de luz.

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  6. Biajoni 10/08/2010 em 3:41 pm

    EXCELENTE E INTERESSANTÍSSIMO COMENTÁRIO, VALMIR.
    MAS O FILME É FRACO, BTW.
    :>)

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  8. valmir 11/08/2010 em 9:21 am

    muito obrigado pessoal, pelo feed back, mas sou macaca de auditorio do velho e (mais ou menos) bom RP…gosto de quase tudo que ele faz…

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  9. chico lopes 30/11/2010 em 6:17 pm

    A crítica do Biajoni me parece procedente. Esperava mais do filme, tendo até comprado o livro de Robert Harris antes de vê-lo, pois sou fã de Polanski. Mas talvez um problema seja o Ewan McGregor ter uma cara meio “leve”, para personagens mais frívolos, e nunca passar bem uma grande angústia. Pierce Brosnan também tem esse problema, parece Pierce Brosnan demais, muito charme, muito ar 007, para oferecer matizes dramáticos. Olivia Williams sim, como Ruth, parece densa, misteriosa e vagamente ameaçadora.
    É, aliás, o problema do filme – a música da trilha sonora é sugestiva, a fotografia é excelente, mas falta um elemento essencial a thriller de Polanski: a sensação de sufoco, de ameaça. Os personagens não nos assustam nem sugerem muita coisa. Parece um suspense polanskiano, mas já meio aguado. E o final é previsível. Engenhoso, até certo ponto. Mas, previsível demais.

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