Apaixonados pela beleza
por Viviane Moreira * – Que beleza é fundamental, todos sabemos. Assim nos disse Vinicius de Moraes depois de pedir perdão às muito feias. Entretanto, o Humberto Werneck chamou nossa atenção para os mistérios do borogodó. Affonso Romano de Sant’Anna fez uma crônica para a mulher madura e os encantos do corpo “que já tem história”. Ao contrário do que muitos pensam ou acreditam, o corpo da mulher madura desperta fantasias. Já o Fabrício Carpinejar, falando da fealdade no Jô, disse que uma das vantagens em ser feio é que “o feio não tem nada a perder”. Os belos… Mais cedo, mais tarde deixarão de ser belos, pois a beleza como o amor também acaba.
Sábio foi o Paulo Mendes Campos quando não escolheu a beleza como tema da crônica “O amor acaba”. Paulinho, como dizia Vinicius, poetizou que o amor acaba em uma esquina qualquer, em um dia de semana qualquer, em uma cidade qualquer – até em Paris. “O amor acaba para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto”. Bem diferente da beleza que um dia acaba sem poder recomeçar. Então nos rendemos à sua efemeridade, por não ter outro jeito. Talvez por isso lutamos tanto pela beleza?
Violetta em La Traviata (Verdi) estranha o amor. Adorada nos salões parisienses por sua beleza, o acaso lhe reserva um encontro tardio com o amor. Ela, uma cortesã. Ele, um rapaz protegido pelo pai. Violetta se entrega ao amor de Alfredo, mas o preconceito e a hipocrisia interrompem a belíssima história de amor, separando os amantes. E quando eles se reencontram não há mais tempo. Beleza e vida marcadas pela dor, solidão, são vencidas pela doença. Violetta, que pedira a Alfredo para ele a amar o quanto ela o amava (“Amami, Alfredo“), morre nos braços do amado.
Não só as heroínas, mas também mulheres comuns, por vezes, conseguem enlaçar a beleza ao amor. Minha avó Heloísa foi uma dessas mulheres. Não era mãe de minha mãe nem mãe de meu pai, mas uma vizinha muito amada no interior de Minas. Uma baiana que tinha muita formosura. No final da tarde, todos os dias, ela se enfeitava, perfumava-se e mais bela ficava à espera do marido e pai de seus quatro filhos, que retornava do consultório por volta das sete. Quando ele chegava era um acontecimento. Às vezes, eu ficava pra assistir ao encontro. Sentávamos à mesa, e eu observava… O pão quentinho como ele gostava, a sopa, os olhares e carinhos, a conversa animada e as risadas das minhas lorotas de criança. Então, eu ia pra casa. Curiosa. No outro dia bem cedo, eu pulava da cama pra voltar àquela casa que tinha cheiro e dengo e encantamento. Chegava para o café da manhã. Olhava pra ela, ele, mesa posta… Eu queria estar entre eles novamente na primeira refeição do dia pra saborear a vida com a beleza e o amor.
Sempre que eu os revejo, penso no sentido dado à beleza hoje. Desde quando beleza precisa ter sentido? Sabe-se lá por que uns nascem tão belos e outros não? Ou por que razões o feio parece bonito para quem o ama? Por que nos ocupamos tanto com a beleza? Cometemos mais desatinos pela beleza que pelo amor. Ainda fazemos loucuras por amor. Algumas. Pela beleza, no entanto, não medimos esforços nem sacrifícios. Somos apaixonados pela beleza. Somos muito mais belos que amados. E mesmo não amados, somos belos.
Sobra beleza nos filmes, novelas, revistas, TV, teatro, internet, praia, shopping, academias, botecos, consultórios, escritórios, bancos, tribunais, escolas e empresas. Parece que o mundo deseja possuir a beleza, com tantas que há nele. Tem beleza demais e amor de menos. Beleza instruída de acordo com o senso estético do momento. Beleza idealizada. Conformista. Ousa pouco nas artes do amor e acredita que se basta.
O amor fica desconfiado com a beleza que não se revela. Ensimesmado, com a beleza que não o ilumina. E o que se guarda da beleza não é o arrebatamento do amor? A beleza que se dá pelo amor e se deseja amada? A beleza se refaz na narrativa do amor. Na memória encantada do amor. Na imaginação que recria a beleza do outro em um gesto, um olhar, um sorriso que nos encheram de amor. Beleza escandida nos recantos do amor. Beleza que ama. Faz sentido.
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![- No domingo, manifestantes tomaram a Paulista em protesto contra a ação da PM em Pinheirinho [foto: Pádua Fernandes] -](http://www.amalgama.blog.br/wp-content/uploads/2012/01/protesto-pinheirinho.jpg)








“Cometemos mais desatinos pela beleza que pelo amor”. Essa é uma frase pra se guardar.
É Vivi, a beleza que toma conta das pessoas e as mesmas deixam o amor para “o depois”.
Bom dia!
Xeros
Não apenas as pessoas se esforçam mais pela beleza que pelo amor, como ultimamente estão inclusive esforçando-se para ser “belas” mesmo que isso contrarie a opinião da pessoa “amada”.
Vi:
Amei ler sua crônica tão bela e, o que é mais admirável, tecida de intuições sensatas, matéria tão estranha ao narcisismo infrene em que nos dissolvemos. Tanta beleza no mundo, como você observa, e todavia a beleza se esquece de amar, de dar e se dar, pois se perde no gosto narcisista de ser puro objeto de exposição e inveja.
Fernando.
Você nasceu sabendo escrever porque as suas redações sempre foram as melhores. Quando escreve você dé sentido ‘as coisas nos fazendo enxergar,sentir e viver a lógica , magia do mundo fantástico das palavras.Continue nos presenteando com as suas crônicas.Beijo da sua mãe.
Obrigada pelos comentários. Gostei muito dos pontos que vcs destacaram no texto. Muito interessante o que vc levantou, Amâncio. Uma observação importantíssima e que tem muito a ver com o texto que fala sobre o “sucesso” da beleza, por assim dizer. Xeros, “O depois”…Pode complicar esse “depois”, não é? Grata pela visita ao Balaio e pelo seu belo comentário., Xeros. Grata pelo carinho manifestado nos comentários, ao Fernando que tbm colabora aqui no Amálgama, com belas crônicas, ao Daniel por dar espaço a textos que tbm falam de afeto – do afeto que preservamos na nossa memória, algo que eu considero um luxo! Em relação ao comentário de minha mãe, deem descontos, por favor, são coisas da famosa “família mineira”. (rs) Não reparem! Qto ao leve toque autobiográfico do texto, me lembrei do filme “Entre os muros da escola” – o prof. desafia os alunos a narrar a própria história. Filme lindo, lindo. Como um prof. pode despertar a subjetividade na sala de aula…? Mas este é mesmo um outro papo.
Pingback: Andira Medeiros
Vi,
Estou aqui em prantos! Primeiro por causa de sua sensibilidade, mais uma vez demonstrada, e que tem me surpreendido a cada dia. Depois, por causa do comentário/depoimento que sua mãe lhe dá. Eu acredito nela! Você É uma escritora. Não duvide do que eu lhe digo – lógico que não se trata de opnião especializada, mas do “felling” de quem te lê e gosta do que vê. Continue!
Eu fico feliz por partilhar este caminho com você, aqui, e no Amor em Pedaço & Versos. Com carinho e admiração, Fernanda.
FÊ, grata pelo seu comentário afetuoso. Tem gente que ainda diz que os mineiros são muito contidos – pois sim! (rs) O que seria da gente nesse mundo sem os amigos? Melhor nem imaginar… A propósito, explico que o AMOR EM PEDAÇOS & VERSOS é um marcador do videbloguinho onde são postados poemas, às sextas-feiras, que falam de Amor – do amor que vivemos, imaginamos, perdemos e achamos no desencontro amoroso. É um projeto coletivo no videbloguinho em que cada uma – somos 4 – compartilha “seus” pedaços de amor, em versos. O amor de cada uma. O amor de todas. Está rolando desde março deste ano. Todos os amantes incansáveis e todos os outros não amantes incansáveis podem dar uma olhadinha, ou mais de uma… À vontade!
Vi,
amei, apaixonei e me emocionei pelo texto…
Um beijo!
MÔNICA, grata, querida, pelo comentário e pelo carinho. Doces lembranças que mexem com a gente, não é? Bjoca.
Grata, Andira, pelo link e comentário. Gostei muito da sua interpretação e síntese: “post sobre o amor”.
Lindo, profundo, vermelho. Você conhece do que fala.
Grata, Marina! Abraços a todos aí!
Beleza pode ser estado de espírito. De si e do outro. ah, tanta coisa….
Gostei do texto.
Beijos
Beleza pode ser estado de espírito. De si e do outro.
Ah, tanta coisa….
Gostei do texto, do que abordou.
Beijos
Grata, Marcela, pelo seu comentário! Vc disse bem, muito bem sobre a beleza. Bjoca.
Oi Viviane lindo o seu texto sobre a beleza. E concordo com o Daniel aquela é uma frase para se guardar.
Ao fazermos loucuras pela beleza fazemos só por nós mesmos e ao fazermos loucuras pelo amor fazemos pelo outro também…
E era verdade, ela se enfeitava todas as tardes sentada numa penteadeira anos 50. E tinha uma auto estima bastante saudável, tinha vida dentro de si. Amava a si mesma e espalhava amor, carisma e histórias.
Como fico agradecida por ouvir outro texto seu. Aquele daquele outro dia foi maravilhoso também e o tema foi a feminilidade e a beleza também.
Um beijo muito carinhoso. Lôlô
Lôlô, que FELICIDADE o seu comentário! Grata, querida, por suas belas palavras. Sim, é uma continuação, por assim dizer, daquele “outro texto” que tem a ver com a sua mãe, minha saudosa Vó Heloísa que sabia TUDO sobre a Beleza e o Amor! Beijos pra vc e o seus, pra seus irmãos e sobrinhos, com muito carinho.