Shutter Island, de Scorsese

27–08–2009 – Enviar para e-mail

por Luiz BiajoniSobre meninos e lobos é o filme de Eastwood baseado no livro de Dennis Lehane. O filme projetou para o mundo o nome desse escritor de policiais. Ben Affleck dirigiu Gone baby gone, também baseado num livro de Lehane. Assim que vi o filme do Affleck, revi o filme do Clint e fiquei imediatamente com uma impressão: a de que Lehane não é um sujeito honesto, botando sempre crianças mortas em suas tramas, explorando um sentimentalismo muito natural nosso.

Não é difícil pensar em uma boa trama e colocar ali pelo meio uma criança morta para gerar compadecimento, raiva e outras emoções. Foi pensando muito em Lehane que meu livro, Buceta, começa com a morte de uma família. No princípio seria um casal apenas. Botei uma filha ali para desconcertar ainda mais o leitor. Acho que funcionou, mas é o tipo de desonestidade que não gosto. Geralmente, não tem razão de ser.

Queria ver se o Lehane dos livros era igual o dos filmes – e é. Um bom escritor, com estilo certo para tramas complicadas. Tem ritmo, não perde tempo com grandes descrições de ambientes, opera com frases curtas e personagens críveis, palpáveis. Mas ele tem isso de querer provocar sensações desnecessárias dentro de tramas que podiam ser mesmo muito boas. Em Shutter Island, traduzido como Paciente 67 no Brasil, isso acontece. E mais de uma vez. E, infelizmente, no final. E não há nada pior em um livro de mistério que um final surpreendente demais sem necessidade alguma, ou chocante demais – ou redentor demais, não é o que acontece aqui.

Li o livro sabendo que estava sendo adaptado para o cinema por Scorsese, com DiCaprio no papel principal, do xerife Teddy. Tentava vislumbrar a mise-en-scène de Scorsese nas páginas do livro. Mas não conseguia. Só agora vi que o filme está concluído, tem até o trailer [abaixo]. E Scorsese fez um filme de terror, o primeiro de sua carreira (acho que Cabo do medo é mais um suspense, pois não?). Pelo trailer, ele deve ter gostado de dar uma de Hitchcock, temos até uma cena de água de chuveiro sobre a câmera, à la Psicose. A história: bem, dois xerifes vão até uma prisão para doentes mentais assassinos, onde uma interna simplesmente sumiu, evaporou, de dentro da cela. Estamos em 1954, uma tempestade se aproxima da ilha.

Certo: Scorsese sacou o que Eastwood e Affleck não sacaram: Lehane não é um escritor de tramas policias: ele se aproxima mais do terror; desse terror que explora elementos até de mau gosto, como a morte de crianças e desequilibrados mentais que matam amigos de infância também desequilibrados depois de torturá-los e obrigá-los a confessar o que não fizeram enquanto rangem os dentes de frio, às margens de Mistic River.

Sobre meninos e lobos era um filme para Cronenberg. Acho que Shutter Island também. Ou para George Romero. Ou Sam Raimi. Ou John Carpenter. (A presença de Max Von Sydow em Shutter Island evoca até um Dario Argento, vai dizer?)

Tanto Clint quanto Scorsese têm a mão do cinemão – e o cinemão parece não dar conta de uma boa trama de terror. Clint faz agora a cinebio de Mandela, Scorsese a de Sinatra. Os melhores diretores de filmes de terror não circulam entre os grandes – tirando Hitch e Kubrick, que confirmam a regra.

O filme de Scorsese vai estourar com seu final inusitado. Você ainda vai ouvir falar muito do Paciente 67. E o filme pode ser tão premiado e considerado quanto Sobre meninos e lobos. Mas, para mim, mesmo sem ter visto Shutter Island ainda, ambos podiam ser bem melhores.

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3 comentários:

  1. Charles (28–08–2009 10:57 am)

    GOod point of view.

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  2. alex castro (26–02–2010 5:15 am)

    acabei de ver, busquei no google, te achei. ;)

    é uma boa merda o filme.

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  3. claudia lyra (1–03–2010 3:49 pm)

    Bão… como eu sou mais pra “polenta” do que pra “bia”, provavelmente vou gostar do filme, hehehehe…

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