Organizando discos

por Luiz BiajoniAlta fidelidade é um filme de ótimos momentos. Para mim, o melhor deles está na cena em que o empregado putz-putz de Cusak vai convida-lo para sair, mas o patrão não pode; está empenhado em uma tarefa mais atraente: organizar os discos. O empregado-amigo quer saber em qual ordem os discos serão colocados e Cusak informa: em ordem sentimental-cronológica. Os olhos do outro brilham.

Jorge Luis Borges dizia que organizar livros em uma estante é uma maneira de se exercitar a crítica. Com discos é mesma coisa. Cada pessoa que gosta de música deve ter sua coleção organizada de maneira própria e particular. Colocar em ordem alfabética demonstra uma falta de personalidade inadmissível. Não se pode colocar AC/DC próximo de Belle & Sebastian, por exemplo. Separar por gêneros parece muito programático e não dá espaço para artistas ou bandas que não se deixam rotular. A separação e a disposição devem, então, seguir características próprias e pessoais, com espaço para improvisos e com misturas inusitadas. Organizar discos tem que ser uma experiência pessoal como tocar bateria num trio de jazz.

Eu já tive mais discos, mas duas separações, posso afirmar, dilapidam qualquer patrimônio. Em uma ocasião tive uma única comprida prateleira de sete metros onde enfileirava, por pura ordem de gosto, meus mais de mil discos. Eu gostava daquela disposição e estava bem acostumado com ela quando tive que me mudar – de casa e de mulher.

Hoje, meus setecentos e tantos CDs ficam em três caixas de plástico, dessas de feira. Sou realmente fã de CDs originais, então tenho pouca música em meu micro e apenas dois ou três discos piratas. Chamo a primeira das três caixas de “Clássicos”. Ali estão minhas Billie Holiday, Dinah Washington e Ella Fitzgerald, seguidas de umas coletâneas de blues mais meus B. B. King, John Lee Hooker, Muddy Waters, Johnny Winter, Howlin Wolf, Chet Baker, Ray Charles, Stevie Wonder, Jimmi Hendrix, Ten Years After (SSSSH é um dos meus discos preferidos, grande clássico do blues) e Led Zeppelin. Só depois desses discos é que aparecem os Beatles, Rolling Stones e The Jam, com solos de McCartney, Jagger e Paul Weller.

Seguem, na mesma caixa, Dylan, Cash, Ry Cooder, Neil Young, Willie Nelson, Bob Seger, Bruce Springsteen, Randy Newman, Tom Petty, a coleção completa de Leonard Cohen e Nick Drake, os Van Morrison, Billy Bragg e vários Elvis Costello.

Aí temos um bloco das mulheres com Fleetwood Mac, Patti Smith, Joni Mitchell e Kate Bush, seguidas de The Smiths & Morrissey, Stone Roses, Suede e Prefab Sprout. Solitário e destoante, está o Greatest hits duplo do Elton John, porque ninguém é de ferro.


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