Ciência de ponta e sem mitos
por Otávio Dias – Lançado em 2008 na França e publicado no Brasil por ocasião do Ano da França no Brasil, o livro Nanociências: A revolução do invisível trata com esmero um tema sensível. Demonstrando real preocupação com a ideia que o público leigo tem de como a ciência evolui (e com os resultados a que essa percepção leva), o engenheiro e físico Christian Joachim (especialista na área) e o jornalista científico Laurence Plévert discursam com bastante intimidade sobre os diferentes conceitos de nanociências existentes. É uma obra que discute temática atual, que ainda terá profundo impacto em nossa maneira de viver.
As nanociências, na definição preferida dos autores, surgiram como resultado da criação do microscópio de tunelamento, em 1981, que permitia aos cientistas a visualização de um único átomo ou molécula de cada vez. Este microscópio também “permite igualmente tocar, com sua pequena ponta, um único átomo de cada vez, e ao mesmo tempo deslocá-lo à vontade”. Pronto: nossa relação com a matéria estava ganhando possibilidades até então somente sonhadas: a manipulação de átomos, um a um, permitiria a construção de máquinas átomo a átomo, como uma casa é construída de tijolos.
Era pra tudo ter corrido bem. Estamos no início da aventura da nanotecnologia, nos anos 1980. Alguns pesquisadores, num grupo do qual faço parte, imaginam moléculas capazes de exercer funções eletrônicas, desbravando dessa forma o campo da eletrônica molecular, liderada por Ari Aviram. Outros exploram essa fantástica ferramenta que é o microscópio de tunelamento, inventado em 1981, capaz de “enxergar” átomos e moléculas, e, sobretudo, de manipulá-los um a um, como foi descoberto em 1989. Lançam os primeiros experimentos realizados diretamente em uma única molécula. Todavia, esses experimentos não são muito difundidos, e a comunidade científica mostra-se o mais das vezes cética com relação às potencialidades do microscópio de tunelamento, sobretudo na Europa. A nanotecnologia permaneceu confidencial. Em 1995, apenas cinco equipes dominam a manipulação em escala atômica três nos Estados Unidos, uma na Europa e outra no Japão. Tenho a sorte, depois de trabalhar vpm Ari Aviram, de fazer parte de uma dessas equipes pioneiras, a de Jim Gimzewski, do laboratório IBM em Zurique, que procura manipular moléculas cada vez maiores com um microscópio de tunelamento. Embora não sejamos muitos, progredimos e descobrimos, às vezes um pouco por acaso, curiosos fenômenos, que descreveremos nos Capítulos 3 e 4. A pesquisa deveria ter seguido seu curso, mas não foi o que aconteceu.
Em vez disso, outro processo estabeleceu-se em meados dos anos 1990. Não pertencia mais à esfera da pesquisa científica, mas da política. Tudo partiu dos Estados Unidos, onde grupos de pressão convenceram o Congresso e a administração Clinton a lançar um grandioso programa intitulado NNI (National Nanotechnology Initiative). Investiguemos a gênese desse programa para compreender quando e por que a nanotecnologia bifurcou-se, afastando-se de seu objeto inicial (a manipulação dos átomos) e de seu projeto original (a ecotecnologia), para tomar um caminho totalmente diferente na NNI, transformar-se em “nanotecnologias” e ser tragada pela tecnosfera norte-americana e depois pela mundial.
A partir da origem e de uma primeira definição de nanociências (em especial o prefixo nano-) os autores criam um mosaico com os diferentes usos que o termo veio a ter em áreas científicas diversas como física, engenharia, biologia e geologia. Tratam de computação quântica? Sim. De boatos sobre formas de vida encontradas em meteoros? Sim. De definições de vida? Sim. Novas teorias físicas? Sim. Pequenas máquinas que podem melhorar nossa qualidade de vida, como em tratamentos contra o câncer? Também. Discute motivos de alarme bem fundamentados? Sim, e aqueles sem fundamento também. O livro é bastante abrangente. O tema torna-se um passeio pela história da ciência aplicada e desenvolvimentos passados e futuros, pequenos motivos de revolução (de conceitos científicos) e evolução (melhoria na qualidade de vida).
Não é muito comum encontrar livros de divulgação científica sobre ciência aplicada de ponta. Muitos são aqueles que abordam teorias científicas e traduzem-nas, mas poucos são os que se aventuram pelo caminho das ciências experimentais; pouquíssimos são os que fazem isso seguindo um caminho que não é reto, em que há muita reviravolta causada por novas descobertas, diretrizes políticas e econômicas. E é exatamente essa terceira via a trilhada por Christian e Laurence nesta obra desmistificadora da pesquisa científica.
::: Nanociências: A revolução do invisível ::: Christian Joachim e Laurence Plévert :::
::: Jorge Zahar Editores, 2009, 164 páginas ::: encontre pelo melhor preço :::
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