12–08–2009

A função das dedicatórias


Estante de Vanessa Souzapor Vanessa Souza — Há alguns dias escrevi para um velho amigo – afinal, são seis anos de uma quase convivência, de algumas palavras mal ou bem colocadas, e uma boa dose de silêncios aqui e ali –, e ter contato com a mesma pessoa, por tanto tempo, já é algo raro nos dias atuais, em que as relações são tão descartáveis. Isso fez lembrar-me de um livro, que ganhei no aniversário de 2004, devidamente dedicado a mim. A obra é Ex-libris: Confissões de uma leitora comum, da Anne Fadiman (Jorge Zahar, 2002). Um dos capítulos trata das dedicatórias.

“Ao contrário do cartão que acompanha, digamos, um suéter, do qual é provável que se separe logo, um livro e sua dedicatória estão casados para sempre. Isso pode ser tanto uma benção quanto uma praga”, sentencia a autora.

Mais adiante ela conta que George Bernard Shaw encontrou, certa vez, um de seus livros num sebo. Estava escrito: “Para…. com afeto, George Bernard Shaw”. George, com o orgulho ferido, comprou-o e mandou para o ingrato que se desfez de sua obra. Abaixo do que havia escrito antes, acrescentou uma linha: “Com renovado afeto, George Bernard Shaw”.

Eu tenho por hábito dar livros às pessoas que eu gosto. Compulsiva assumida por eles, muitas vezes presenteio com a obra completa do autor. O processo catequizador por vezes funciona. Em muitas outras, creio que não. Sempre procuro nos sebos os livros que eu lembro ter presenteado, com uma certa paranóia de que eles estejam lá, com minhas letras redondinhas e todo o meu afeto – que pode ter sido em vão.

O amigo do primeiro parágrafo lembrou-me que muitas vezes eu não dediquei livros, e sim os mandava com um cartãozinho dentro. Fiz isso por um longo período da vida, temendo que minhas palavras, no caso do sujeito que as recebeu, rompesse relações comigo, fizesse com que o livro fosse parar no lixo. Que medo! Que grande lástima seria!

A neura das dedicatórias passou. Hoje eu dedico todos os livros, inclusive, alguns, para mim. A obra Ex-libris me inspirou a fazer um carimbo, onde todos os meus queridos livros ficam marcados com meu nome. Ninguém vai encontrá-los em sebos, pois eu não me desfaço deles. As pessoas podem passar pela vida da gente. Mas os livros, esses ficam. Sempre.

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  1. Fabi (12–08–2009 5:54 pm)

    O livro é o coração do tempo no infinito em que a idéia imortal se renova e retoma. Pode estar certa que os livros da Isabella com suas dedicatórias serão guardados enquanto respirarmos ; )

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  2. Juliana Fernandes (13–08–2009 12:15 pm)

    Nossa, Vanessa… q bom encontrar mais uma ‘neurótica’ – no melhor sentido da palavra, claro – como eu. Além de ser fanática por livros, colecioná-los e não pensar em me desfazer deles, também gosto de presentear quem amo com livros.

    Um fato curioso é que o último livro q comprei de presente, não podia ser dedicado por mim… a pessoa q o receberia é compromotida, então, pra evitar confusões, eu conseguir uma dedicatória do autor, dizendo o que eu queria dizer. Bem, pelo menos dei meu recado, né???

    Um beijo e parabéns pelo post!

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  3. Bosco Ferreira (13–08–2009 1:19 pm)

    Meus livros são como meus bechanos, quando alguem pede um filhote eu digo: Pode deixar que eu levo quando chegar o dia de apartar. E vou enrolando até chegar o dia que eu dou a desculpa que ele já está grandinho e não vai se acostuma mais em outra casa. Com uma diferença: os livros eu empresto os danadinhos nem pensar.

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