Sob a sombra de Holden
por Daniel Lopes – A leitura de Franny and Zooey (1961) guarda um sabor especial para os fãs de J. D. Salinger, pois seus personagens principais dialogam incessantemente com Holden Caufield, criação mais célebre do autor estadunidense. Pode ser visto como a reunião de dois contos, já que os textos foram publicados separadamente (“Franny” em 1955, “Zooey” em 1957; ambos na revista New Yorker). Mas eu prefiro classificá-lo como um romance separado em duas partes.
Franny Glass é a irmã mais nova de Zooey Glass. Os dois estão na casa dos vinte anos e moram em Nova York, membros de uma família em decadência, como logo se verá. Na primeira estória, “Franny”, a garota vai se encontrar com o namorado num bar, à noite. Passariam alguns dias juntos, mas Franny está estranha. Não quer comer, mal toca na bebida, a certa altura levanta-se, vai ao banheiro e tem uma crise de choro. Em se tratando de uma personagem de Salinger (e esse é um defeito seu), a explicação só pode ser uma e não tarda a aparecer: a menina não suporta mais a falta de sentido em tudo. Choraminga ela ao namorado, Lane:
Everything everybody does is so – I don’t know – not wrong, or even mean, or even stupid necessarily. But just so tiny and meaningless and sad-making. And the worst part is, if you go bohemian or something crazy like that, you’re conforming just as much as everybody else, only in a different way.
Por isso, há pouco ela abandonara as aulas de teatro: “I just quit. It started embarrassing me. I began to feel like such a nasty little egomaniac.”
A razão pela qual Franny está tão diferente, Lane descobre, é que ela não tira da cabeça o conteúdo de um livro que carrega consigo na bolsa. Trata-se de uma obra russa de temática religiosa, que pretende ensinar ao leitor como conseguir rezar incessantemente. Quer dizer, como ficar repetindo determinada reza, sem parar, até que as frases já tenham sido incorporadas à alma, ao coração, de modo que, a partir de então, o fiel não precisará mais pronunciá-las, pois estarão internalizadas.
Diga-se de passagem que esse tal Lane não é um sujeito exemplar. Egocêntrico – ou “egomaníaco”, para usar a expressão da sua querida. Enquanto esta se esforça para contar-lhe a estória do livro que mudou (está mudando) sua vida, ele escuta com enfado, como quem faz um favor, e não perde a oportunidade de interrompê-la para lembrar que tem em seu quarto um maravilhoso escrito, de seu próprio punho, sobre Flaubert, para o qual gostaria de contar com sua atenção e aprovação.
*
Na segunda estória, “Zooey”, o narrador, ao contrário do anódino da primeira, se identifica, embora não nominalmente: é parente dos Glass, dos quais ouviu o que em breve narrará; mais: a linguagem que costumavam ter entre si “é uma linguagem esotérica, familiar, uma espécie de geometria semântica na qual a menor distância entre dois pontos quaisquer é um círculo completo.” Daí, o texto que se arrastará nas 100 páginas seguintes. E se arrasta mesmo, para o bem e para o mal. O final, por exemplo, é chato, mas vale percorrer o caminho que leva até lá.
Os Glass são uma família em crise. Quando pequenos, os filhos eram enormes promessas, e agora, num presente de frustrações, o pai recusa-se a sair do passado, perdendo a noção do tempo. Dois dos filhos haviam morrido – um por suicídio, outro na Segunda Guerra –, o que deixou a mãe numa situação de quem parece sempre à beira de um ataque de nervos.
Zooey não demonstra muito respeito pela mãe, a quem se dirige pelo nome próprio, quando não por gírias, como quem conversa com um amigo na rua. Como um símbolo da crise familiar, Zooey e a mãe discutem a situação complicada de todos num banheiro, onde o filho está fazendo a barba.
A mãe lhe procurara porque quer que fale com a filha Franny. Ela diz ter consciência que a garota anda mal por conta do livro que carrega: “For you information, I happen to know that that little book she carried all around the whole house with her yesterday is at the whole root of this whole business.”
A essa altura, está claro para o leitor que Franny passa por uma crise existencial, ou algo que o valha. O que já não seria algo excepcional mesmo se tivéssemos em conta apenas o fato de ela ser uma jovem, pois desde sempre jovens passam por crises existenciais. E, estando numa família onde todos, jovens e adultos, parecem estar em crise existencial, o estranho seria se Franny não fosse a personagem complicada que é. Mas de qualquer forma o problema está posto.
Já a solução, nem tanto. Afinal, Zooey ir dar lições para a irmã trancada no quarto não é lá a solução dos sonhos de nenhuma mãe. Mas a pobre senhora Glass joga com o que tem. Então, lá se vai o barbeado Zooey argumentar com a garota sobre temas tão importante quando Deus e a vida. E ele argumenta, bastante. Na verdade, argumenta até demais para quem não estava nem um pouco a fim de fazer esse favor à mãe (hem, senhor Salinger?). Mas enfim.
Eu disse que o final é chato, em parte porque eu não cheguei a conclusão alguma. Se você tiver mais sorte, talvez encontre algum sentido.
O interessante é que um fantasma ronda Franny and Zooey: Holden Caufield, o personagem de O apanhador no campo de centeio que ficou mais conhecido que seu próprio criador. Assim, é tentador fazer algumas comparações entre Franny, Zooey e Holden.
Há uma diferença marcante entre Holden e Zooey: enquanto aquele contenta-se em apontar a falsidade dos companheiros de raça humana, contemplando a si mesmo no máximo com uma ironia auto-complacente, o personagem Zooey não tem dúvidas quanto a quem é culpado por ele – e a irmã – não se adequarem ao mundo: eles mesmos, e não o mundo:
On top of everything else we’ve got “Wise Child” complexes. We’ve never really got off the goddam air. Not one of us. We don’t talk, we hold forth. We don’t converse, we expound. At least I do. The minute I’m in a room with somebody who has the usual number of ears, I either turn into a goddam seer or a human hatpin.
O “Wise Child” a que Zooey se refere é um programa de rádio de perguntas e respostas que ele e os irmãos freqüentaram quando eram menores, levados por um orgulhoso pai.
Já Franny lembra Holden, por exemplo, em sua repulsa pelo colégio, pelo sistema de ensino:
What happened was, I got the idea in my head – and I could not get it out – that college was just one more dopey, inane place in the world dedicated to piling up treasure on earth and everything. I mean treasure is treasure, for heaven’s sake. What’s the difference whether the treasure is money, or property, or even culture, or even just plain knowledge?
Por outro lado, Holden dificilmente buscaria sair do buraco existencial através dos ensinamentos de um obscuro livro religioso russo. Mais provável é que, como alguém que perdia o controle à simples menção do nome de um falso ou de uma falsificação, ele fechasse com Zooey, quando este faz saber à irmã da existência de um “verdadeiro” Jesus, longe do retrato de perfeição pintado pelos profetas e, graças a Deus, longe da perfeição dos santos.
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SALINGER É SEMPRE FODA! QUE MAIS SE HÁ DE FAZER, OU DIZER.? E NÃO ACHO UM DEFEITO TER UMA CRISE DE CHORO POR SENTIR QUE MERDA NENHUMA FAZ SENTIDO. ACHO LEGAL PRA CARAMBA ESSES PERSONAGENS CHORÕES DO SALINGER E MEUS TB.
ABRAÇÃO.
VC ESCREVE MUITO BEM.
ABRAÇOS
(O XARÁ)
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[...] livros de Salinger: a obra-prima The Catcher in the Rye (O apanhador no campo de centeio, 1951) e Franny and Zooey [...]
“Em se tratando de uma personagem de Salinger (e esse é um defeito seu), a explicação só pode ser uma e não tarda a aparecer: a menina não suporta mais a falta de sentido em tudo.”
Puxa, Daniel, não sei se consigo concordar contigo. De certa forma seria como dizer que é um defeito de Saramago escrever textos buscando sempre o ateísmo, ou Nelson Rodrigues por fazer sempre uma exposição da gente de seu tempo, ou de García Márquez por usar e abusar do realismo fantástico.
Antes, acho uma qualidade: as obsessões destes autores são sua obra.
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