Sem luz no fim do túnel

por Alfredo Cesar – Dirigido por Charles Ferguson e vencedor do prêmio de melhor documentário de 2007 do festival Sundance, No End in Sight pode finalmente ser visto em DVD. Para qualquer pessoa que se interesse por política internacional, esse documentário é imprescindível. Se houvesse uma palavra para defini-lo, seria “devastador”. Ele relata como o governo estadunidense foi assaltado por um grupo de lunáticos belicistas, que, no afã de ir à guerra, desconsideraram o conhecimento técnico e a experiência de agentes da inteligência, militares e diplomatas do país. É um documentário sobre a mistura de má-fé, incompetência, amadorismo e convicções cegas que levou os Estados Unidos a lutar uma guerra completamente irracional e bastante comprometedora para sua própria segurança.

Todos já sabem mais ou menos como as justificativas para a guerra foram forjadas. O que esse documentário mostra, é como a operação pós-guerra foi “montada”. Todos os entrevistados, com exceção de uns poucos professores universitários, foram pessoas que estiveram no comando dessa operação: militares, funcionários da CIA e do Departamento do Estado. E isso é o mais chocante: ouvir uma história contada não por um esquerdista extremado de Berkeley, mas pelos próprios tecnocratas no poder.

Na primeira parte, há o depoimento de um analista de inteligência que lembra que, já no dia 12 de setembro de 2001, havia ordens da Casa Banca para tentar achar uma ligação entre Al Qaeda e Saddam. Nada foi encontrado. Depois houve a polêmica de quantos homens seriam necessários para invadir e controlar o Iraque. Os generais mais experientes avaliavam que 700 mil seria um número realista. Rumsfeld defendia que essa seria uma guerra moderna, e que com a tecnologia que os EUA tinham à disposição, poucos homens seriam precisos. Acabaram le vando 160 mil. O resultado foi desastroso. Não havia homens suficientes para vigiar os armazéns de armas nem para policiar as cidades.

Logo depois da invasão, o Iraque passou a sofrer uma onda de roubos e saques que deixou o país num caos completo. Os soldados não receberam ordem alguma para evitar os saques. Os estadunidenses assistiam passivos à desordem. Dois meses depois da invasão, o Iraque encontrava-se em estado de anomia, sem poder constituído nem justiça para regular a vida social. Mas as coisas tornaram-se ainda piores.

É quando Paul Bremmer assume o comando da operação no Iraque e toma duas decisões que se revelariam catastróficas: (1) retira do governo iraquiano todos os membros do Partido de Saddam, isto é, demite 50 mil funcionários, professores, burocratas, que administravam o país na época de Saddam. Em vez de aproveitar o conhecimento desses funcionários – que obviamente ingressaram no Partido por p ressão política de um ditador -, Bremmer resolveu defenestrá-los e tirá-los do processo de reconstrução; (2) acabar com o Exército, a guarda especial e a agência de inteligência do Iraque.

De uma hora pra outra, mais de 100 mil soldados, espiões e policiais ficaram sem emprego. O burocrata estadunidense simplesmente mandou para casa, não só os homens armados do país, mas também aqueles que tinham informações estratégicas sobre as questões mais sensíveis no que diz respeito à segurança. Tudo isso num país mergulhado no caos, na crise econômica e social. Enfim, Paul Bremmer conseguiu piorar a situação e fazer do Iraque uma verdadeira caixa de Pandora, um país balcanizado, uma fábrica de insurgentes munidos de armas e bombas até os dentes.

No End in Sight mostra como a plutocracia republicana, surfando na retórica do medo, fez o que bem quis e o que bem entendeu, descartando avisos e precauções, colocando os Estados Unidos num a guerra sangrenta e deixando o país ainda mais inseguro que antes.

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2 comentários | Dê sua opinião

  1. Clara Fernandes 01/08/2008 em 6:05 pm

    Alfredo, você traz uma luz nova sobre o assunto. Que bom é ler uma opinião tão lúcida, com tantas informações desconhecidas. E a gente sendo mal informado pela globo. ainda bem que tem gente como você. gostei muito. vou voltar aqui sempre. ótimo texto.

    Responder
  2. Jorge Santos 01/08/2008 em 7:36 pm

    Legal, o post César, difícil vai ser encontrar o filme. Abç

    Responder

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