Pequim: a hora dos notívagos

Pequim e a madrugada [foto: Daniel Lopes]por Daniel Lopes – Pense bem: o que pode ser melhor para um notívago brasileiro do que uma Olimpíada na Ásia? Nada! Claro que me refiro a nós notívagos que somos fãs de esporte, ainda que nós mesmos não joguemos nem peteca.

Notívago ou vagabundo. Não importa o nome que nos dêem. Se durante o curso normal da vida – no qual não importa se o dia seguinte é domingo ou quinta, se é preciso levantar 5 horas ou permitido fazer do almoço o café da manhã, encaramos o sono como um luxo desnecessário, ao qual nos entregamos apenas quando não temos o que fazer -, se aí somos tidos como seres excêntricos, durante um evento como as Olimpíadas de Pequim os humanos normais são obrigados a nos dirigir respeito.

Afinal de contas, o seu chefe – que tem o terrível hábito de ir pra cama antes das 4 da manhã, coitado – não sabe quem está liderando no salto com vara, nem como vão os preparativos para a emocionante marcha atlética. Você sabe! E já chega no trabalho informando pra todo mundo, com um leve abanar de cabeça e um estalar de língua, que, do jeito que as coisas estão indo, a Argélia não vai levar nem um bronze pra casa. Se tentarem menosprezar essa informação, diminuí-la até as dimensões da irrelevância, tudo o que você terá que dizer é: “Você não sabe o que está perdendo”. Podem resmungar e rir por fora, mas por dentro estarão todos mordidos, mortos de curiosidade pra saber o que os argelinos estão fazendo de errado.

Sim, há esportes pela manhã, mas em grande parte são previsíveis. Coisas como futebol. Quem precisa acompanhar a seleção brasileira pra saber que ela vai encher os olhos do chato do Galvão Bueno até cair numa semifinal? Nada que se compare à emoção de acompanhar o hóquei na grama. Ah!, o hóquei na grama…

Tirando delegados e plantonistas e vigias e prostitutas, que são obrigados a trocar a noite pelo dia, ainda sobra uma divisão entre os notívagos (e o verdadeiro notívago é aquele que opta em ficar acordado): uns varam a noite nos chats virtuais, outros se dedicando a atividades intelectuais, e outros, ainda, aplicando cosméticos no rosto e esperando os efeitos imediatos prometidos na bula. Eu me insiro no segundo grupo, que, por sua vez, se ramifica entre o dos que escrevem o que certamente será o romance do século e o dos que simplesmente se contentam em consumir cultura (filmes, músicas e livros). Eu estou neste segundo subgrupo.

Nós, que habitualmente reservamos as altas horas da noite e as baixas horas do dia para os intricados enredos de Faulkner e a intricada linguagem de Joyce, com idêntica empolgação nos voltaremos agora para uma eventual disputa acirrada no tiro-ao-alvo, entre um africano com todas as cinco vogais do sobrenome acentuadas e um europeu oriental com quatro consoantes seguidas no prenome. Você pode ainda tirar um sarro com o pessoal da universidade. Dizer que um somaliano de 2 metros conseguiu bater o recorde mundial ao saltar a distância que vai de uma trave a outra do estádio de Pequim.

Empolgante será acompanhar o sobe e desce no ranking de medalhas, a ser atualizado minuto a minuto. Madrugada adentro, claro. Porque essa disputa definitivamente será empolgante. A China já disse que quer “vencer as Olimpíadas”. O Comitê Olímpico Internacional mesmo não sabe o que vem a ser vencer uma Olimpíada – seria determinante o número total de medalhas ou apenas o maior número de medalhas de ouro? -, o que não diminui nem um pouco a determinação chinesa de levantar o caneco. Porque com os chineses é assim mesmo, não tem conversa – pior para os fatos. É capaz de se declararem “campeões” se totalizarem mais medalhas; se levarem menos, mas superarem os EUA em apenas uma medalha de ouro, também serve.

Será interessante ainda ver como ficará a luta pelos lugares do terceiro ao quinto. Austrália, Cuba, Rússia, Japão, Coréia do Sul e mais uns cinco países europeus estão sempre travando uma luta boa de acompanhar nos mínimos detalhes. Não tem perigo de o Brasil entrar nesse balaio (em 2000 ficamos em 52º; 2004, em 16º). O que podemos esperar é, no máximo, uma chuva de bronze. Nas fases eliminatórias das mais diversas categorias costumamos ser melhores que ninguém, mas, na hora da decisão, brasileiro come poeira até na piscina.

No “Pan-do-Rio-Pan-do-Brasil”, os EUA vieram com milhões de reservas e ainda levaram o primeiro lugar. Cuba deu o show de sempre. Na mídia nativa ufanista, uma euforia desmedida com as medalhas brasileiras, enquanto os (maus) organizadores do evento ainda estavam cobertos das cinzas dos milhões de reais do dinheiro público que queimaram a troco de nada nos meses que antecederam o Pan. Não é assim, campeão indiscutível do desperdício de dinheiro e do wishful thinking, que um país se torna potência olímpica. O resultado foi o herói do Pan, Tiago Pereira (“Tiaginho”, para o íntimo – e chato – Galvão), amargando um “oitavo lugar” ainda há pouco.

Na China, o Brasil deve brigar firme pelas posições que vão da décima primeira à vigésima.

A única certeza é que, daqui a pouco menos de duas semanas, quando Pequim virar passado, nós notívagos voltaremos a ser ridicularizados, e não poderemos mais contar vantagem. Mas… que venham os Jogos da Coréia do Norte.


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10 comentários | Dê sua opinião

  1. Adriana 11/08/2008 em 11:01 am

    Não posso acompanhar essa maratona esportiva. Mas, mesmo que pudesse, não sei se seria a minha prioridade noturna. De qualquer forma, admiro quem gosta de fato e sabe tudo sobre esses loucos que dedicam grande parte da vida a aumentar milésimos de segundos nesta ou aquela prova, ou alcançar a perfeição, etc e tal. Os deuses do Olimpo devem gostar, é ou não é? Legal seu texto. Beijo.

    Responder
  2. Anna Raíssa 11/08/2008 em 1:55 pm

    Adorei!
    xD

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  3. Daniel de Souza Lopes 11/08/2008 em 4:28 pm

    Hilário!
    Sempre de olho,
    Daniel.

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  4. Márcia Barbieri 11/08/2008 em 4:30 pm

    Não sei o que é pior, ler Joyce, ou ficar acordado pra assistir às olimpíadas.
    Texto engraçado, parabéns.
    Márcia Barbieri.

    Responder
  5. Daniel (autor do texto) 11/08/2008 em 4:51 pm

    Ler Joyce, Márcia.

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  6. Tais Luso 12/08/2008 em 7:33 pm

    Oi, Daniel:
    Ótimo teu texto! Mas eu não daria um minuto na madrugada para ficar vendo quem fica e quem sai, o Galvão se esgoelando e, muito menos o maluco do Phelps, que me irritou profundamente apesar de ser o homem de ouro. Vejo tudo depois; de dia, no noticiário! Ou dou um pulo aqui para saber.

    Tais

    Responder
  7. Flavia Penido 12/08/2008 em 11:32 pm

    Tô morrendo de rir aqui porque apesar de ser uma notívaga inserida no subgrupo dos consumidores notívagos de cultura e detestar essa coisa de esporte, sabe-se lá Deus por que (pensando bem, esse texto é uma boa resposta) tenho acompanhado as Olímpiadas de madrugada. Tanto que comentando alguma coisa a respeito com o meu filho de 12 anos (vôlei de praia acho) ele me olhou atônito e falou: Mã, vc tá bem? Sofreu alguma mutação genética? E, repetindo uma de suas frases prediletas do Harry Potter: “quem é vc é o que vc fez com a minha mãe?”.
    Ah sim! Ler Joyce é uma das coisas que estão no meu to do list…

    adorei o post!

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  8. gerusa 13/08/2008 em 11:15 pm

    E a Jade finalizou com dois flic-flacs e um duplo twist esticado cravando a serie(?)…É, como dormir cedo pra mim é sacal, estou acompanhando os jogos, principalmente pelo volei masculino (que acompanho seja em qualquer competição) às 3:30 da matina…Mamãe já desistiu de gritar vai dormir lá do quarto dela.

    PS: adorei as categorias e subgrupos para os notivamos!

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  9. João Grando (notívago) 29/08/2008 em 10:29 am

    A próxima em Londres não poderemos mais ter desculpa…
    Já estou preparado para ouvir o Galvão pronunciando os nomes dos lugares em inglês (lá vem mais comédia). Se bem que tem um papo por aí que só a Record comprou os direitos… sei lá.

    Bem legal o texto, com humor e informação na dose certa, bom até para se ler de madrugada agora que não tem mais olimpíadas.

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  10. Daniel (autor do texto) 29/08/2008 em 1:37 pm

    João, o bom da Record ter a exclusividade é que o Galvão vai poder ficar dormindo em casa e parar de encher nosso saco. Se bem que, como a Record tá queimando dinheiro, é capaz de contratar o Galvão – algo assim pra desistir do futuro da humanidade, hehe.

    Abs. e volte sempre.

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