Ops!, tá caindo lama no meu chiqueiro
por Vanessa Souza – Pensei em começar esse texto de duas formas. A primeira delas, com uma frase de Freud: “Quando Pedro me fala de Paulo, sei mais de Pedro do que de Paulo”; a segunda, com uma alegoria que ouvi há muitos anos, quando ainda estava na faculdade de jornalismo e a psicanálise só estava em minha vida através da análise pessoal e de alguns livros de Freud na estante.
Quem me contou a alegoria foi um amigo psicólogo, e é mais ou menos assim – cito de memória, e, logo, com alguma imprecisão: o setting analítico – local onde ocorre a análise – é um chiqueiro cheio de lama. O psicanalista é um porco enlameado. O porquinho é o analisando/paciente, que entra no setting. Os dois ficam chafurdando na lama, até o porquinho sair um pouco mais limpo do que antes. Mas não se esqueça que um pouco da lama vai ficar no seu chiqueiro.
É dessa lama no meu/nosso chiqueiro que eu quero escrever. A lama no meu chiqueiro tem o eufemismo, ou conceito, em psicanálise, de contra-transferência. Em resumo, é o conjunto de reações inconscientes do analista para o analisando, todas advindas de suas necessidades e conflitos psíquicos, e não de circunstâncias reais do psicanalista com o paciente. Por isso, é fundamental que o analista também faça sua análise pessoal.
Por que contra? Não é nada contra ninguém. O motivo é que o termo transferência consiste nas fantasias, sentimentos e atitudes inconscientes que o paciente, na situação analítica, tem em relação ao seu psicanalista. Segundo tio Freud, não há psicanálise sem transferência, e, dentro de limites, ela tem papel fundamental nessa jornada que é a análise.
Saindo do divã, como todo esse discurso acima funciona aqui fora, no dia-a-dia? A gente acaba se incomodando com o que o outro tem, e que no fundo, no fundo, é nosso. E fazemos isso o tempo todo.
Caio F. Abreu, ou Breu, sempre tem um fragmento para explicar o não-dito. E o não-dito é sempre o mais importante:
Não sei, não me interrompa agora que estou quase conseguindo, disponível só, não é uma palavra bonita? Sabe, eu me perguntava até que ponto você era aquilo que eu via em você ou apenas aquilo que eu queria ver em você, eu queria saber até que ponto você não era apenas uma projeção daquilo que eu sentia, e se era assim, até quando eu conseguiria ver em você todas essas coisas que me fascinavam e que no fundo, sempre no fundo, talvez nem fossem suas, mas minhas, e pensava que amar era só conseguir ver, e desamar era não mais conseguir ver, entende? Dolorido-colorido, estou repetindo devagar para que você possa compreender. (“Para uma avenca partindo”)
Sabe aquele vizinho chato, que se incomoda com a festa no andar de cima? Ele chama a atenção para isso, mas estava mesmo era louco para participar da festa, à qual não foi convidado.
E aquela mulher acima do peso, que acha que todas as meninas magras da academia sofrem de distúrbios alimentares? Ela a-do-ra-ri-a ser tão magra quanto, mas não consegue, e se afoga numa pizza para compensar isso.
E aquelas pessoas que se incomodam em demasia com a falta de moralidade das outras? Gostariam de fazer o mesmo, mas, com a falta de ímpeto, ficam apenas com as críticas.
É isso. Cada vez que eu sinto um pouco da lama alheia entrando no meu chiqueiro, percebo que esse respingo tem mais relação com a minha essência do que eu gostaria de saber ou suportar. Preste atenção naquilo que mais te incomoda nos outros. E pense, bastante, se aquilo, lá no fundo, não é seu.


Vanessa… Ótimo!
Não tem frase mais certa: “quando Pedro me fala de Paulo, sei mais de Pedro do que de Paulo”. É claro: quem já andou pelos caminhos da análise sabe o porquê desta frase.
Por isso é que os psicanalistas, de quando em quando, voltam à análise.
O paciente fica dependente e temeroso de deixar o analista e, o analista fica ‘respingado’ por tantos problemas, pois com toda a técnica adquirida, não consegue manter-se alienado, o suficiente, dos problemas que o cercam e o envolvimento acaba acontecendo. São humanos e estão lidando com o que é mais nobre e imprevisível do ser humano.
Querendo ou não, nos envolvemos com tudo que nos cerca; a grande ‘sacada’ está em perceber a hora de puxar o freio e dizer: Ops…Daqui pra frente o território é meu! Não deve ser nada ‘mole’ tratar os outros. E o pior é que o paciente passa falando do mesmo problema durante anos: enquanto a ficha não cair… Agüente, terapeuta!
Beijo, amiga.
Tais
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Faz muito bem essa reflexão, e parafraseando Tales de Mileto, que a partir de já busquemos melhorar “abstendo-nos de fazer o que censuramos nos outros”. Te amo linda.
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Oi Vanessinha! Hehe, que surpresa a minha de você não ter esquecido a minha alegoria da lama dos porquinhos! O povo no escritório ficou sem saber o que estava acontecendo de eu estar dando risada sozinho diante do monitor…
Não tenho uma linha teórica definida em psicologia, nem quero ter. Mas que o trabalho com a lama muda as coisas, isso muda.
É bom lembrar que o porcão nunca pode deixar sua própria lama cair no chiqueirinho do porquinho hahahaha – para que ele possa transformar sua lama em tijolos e construir sua casinha, para que o lobo mau não sopre, sopre e sopre e depois nhec! hahahaha
Beijos, Porcona! hahaha
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dizia o anjo intergaláctico White Intermediate:
“nada é o que é senão o que vemos…
e o que vemos não é o que vemos senão o que somos.”
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Muito bom Loirinha! Muito bem escrito e exprtessado. A ideia é do máximo vaor, tanto no dia-a-dia, como no divã.
Parabens!!
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No mínimo interessante, porém totalmente controverso, nem todos somos eivados por vícios, ou melhor, nem todos os vícios nos assolam, de fato, quando tratamos de assuntos para nós polemicos somos desafiados e sempre, ou quase sempre, acabamos perdendo para nós mesmos, trazendo inumeros prejuizos, nesse caso, devemos limpar nosso chiqueiro, ou seja, cristalizar nosso interior, nossos paradigmas e nao transmitir a imagem de nós mesmos, o que de fato, nao raramente ocorre. Inconscientemente procuramos transmitir nossa cultura e nos mesmos da mesma forma como pretendemos transmitir nossos genes as gerações futuras, negamos, mas, queremos produzir exemplares identicos a nós.
Diante disso, verificamos que somos falhos e que, de fato, não é a melhor solução, para a solução dos conflitos internos.
Então, a solução consiste em não tentar reproduzir nossos ideias ou nossas concepções ou mesmo concepções já formadas, mas sim, formar o convencimento pessoal do paciente, livre de paradigmas, preconceitos e vícios, não mostrar o caminho, mas sim, leva-lo a criar o seu..
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