O “waterboarding” pode ser justificado?

Hitchens submete-se ao waterboarding [fotos: Gasper Tringale/Vanity Fair]

por Daniel Lopes – Recentemente, Christopher Hitchens, jornalista inglês radicado nos EUA que apoiou a invasão do Iraque em 2003, deu uma grande contribuição à guerra ao terror. Submeteu-se à técnica do “waterboarding”, tida como branda e permissível pelo time de W. Bush, que não aceita classificá-la como tortura e defende seu uso para arrancar confissões de suspeitos de terrorismo. O relato de Hitchens saiu em sua coluna na revista Vanity Fair, com o título: “Believe me, it’s torture”.

A experiência se deu em maio, embora o texto só tenha aparecido agora, na edição de agosto da Vanity. Hitchens, que navega com facilidade entre a direita e a esquerda, foi ao estado da Carolina do Norte e entrou em contato com um grupo de veteranos que, em seus anos de ativa, especializou-se em treinar soldados para resistir caso fossem submetidos a técnicas como o waterboarding, que consiste em amarrar os membros de um indivíduo numa tábua e incliná-lo para trás, de modo que a cabeça fique abaixo do nível do coração. Em seguida, coloca-se um pano no rosto do detido e joga-se água por cima, o que resulta em sensação de afogamento.

Para a maioria das pessoas, poucos segundos na tábua já são insuportáveis. Com Hitchens foi assim. Após ter braços e pernas imobilizados, toalhas pressionadas contra o rosto e água derramada no mesmo, ele agüentou por tão poucos segundos que, por questão de honra, decidiu se submeter quase imediatamente a uma segunda “sessão”. Também desta vez, não foi muito longe. De acordo com seu relato, desde aquele dia de maio na Carolina do Norte “eu acordo à noite tentando afastar lençóis e cobertores do meu rosto e, quando faço qualquer coisa que me deixa sem fôlego, me vejo lutando com o ar em meio a uma horrível sensação de sufocamento e claustrofobia.”

Com variações, o waterboarding tem sido usado ao longo da história pelo menos desde a Inquisição espanhola. Também há registros de seu uso pelas autoridades imperiais européias em diversas colônias; durante a Segunda Guerra, pelos exércitos japoneses em Singapura e pelos nazistas em casa; pelos franceses na Argélia de meados do século passado; e pelas ditaduras chilena e cambojana.

Muita gente se surpreendeu quando soube que os Estados Unidos apelaram para tal recurso no tratamento de prisioneiros no Iraque. Mas não havia motivo para os cabelos em pé, como a própria história cuida mais uma vez de ensinar – já no final do século 19 os estadunidenses lançaram mão do waterboarding nas Filipinas, bem como na Guerra do Vietnã, no século passado. Apenas, com a chegada da gangue de W. ao poder, o recurso passou a ser defendido ardorosamente, e corre o sério risco de se tornar uma instituição nacional, a virar moda em Guantánamo e alhures. É defendido, implícita ou abertamente, por membros dos três poderes e da sociedade civil (incluindo renomados acadêmicos). Pelo menos nos discursos, tanto Barack Obama quanto John McCain o classificam como tortura e ponto.

Aqueles que querem legalizar seu uso contra prisioneiros na “Guerra ao Terror” dizem que, na verdade, não se trata de tortura, e que o afogamento é apenas “simulado”. “Isso não é verdade”, escreve Hitchens. “Você sente como se estivesse afogando porque você está afogando – ou melhor, sendo afogado, embora lentamente, sob condições controladas e aos cuidados (ou não) daqueles que aplicam a pressão.”

Citando um oficial do exército que também é crítico do procedimento, Hitchens enumera os perigos que decorreriam da normalização de seu emprego: (1) o judiciário do país ainda a considera como tortura, então qual seria sua posição se as forças armada passassem a empregá-lo como um recurso legal? (2) se a técnica é aceitável, como os EUA se comportarão se um exército estrangeiro fizer o mesmo com prisioneiros estadunidenses? (3) as informações obtidas através dessa como de outras formas de pressão física e mental estão sabidamente longe de serem confiáveis, já que o detido confessará qualquer ato, mesmo que não o tenha cometido, ou dará qualquer informação, mesmo que errada, para se ver livre do suplício; (4) por fim, o waterboarding “abre uma porta que não pode ser fechada”: “Uma vez que você tenha posto a notória questão da ‘bomba relógio’, e uma vez que você assume que está correto, o que você não fará? O waterboarding não está dando resultado o suficiente? A bomba do terrorista ainda está ativada? Bem, então tragam o esmagador de dedos, o torquês, os eletrodos e o potro.”

[leia a matéria de Christopher Hitchens]
[veja o vídeo com seu depoimento]
[via piauí]


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2 comentários | Dê sua opinião

  1. Adriana 14/08/2008 em 11:48 am

    Qualquer forma de tortura deveria ser abolida pela humanidade. Não há justificativa para que isso ocorra. Seja quais forem os motivos: política, crime hediondo, vingança etc, etc. Quanto a esse cara, o Hitchens, acho que ele não precisaria se submeter ao tal “waterboarding”, para se dar conta que é mais uma técnica execrável de coagir alguém. Quando penso que o homem se vale da prática da tortura para qualquer fim que seja me vem um sentimento de nojo e horror à humanidade. Talvez Hitchens possa ter contribuído para que se pense melhor no assunto. Muito bom seu texto, Daniel. Abraço.

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  2. Renato Medeiros 25/09/2008 em 6:36 pm

    Isso é um absurdo. Como assim esses hipócritas ainda têm a coragem de dizer que isso não é tortura? Eles deveriam experimentar esses brinquedos todas as vezes que possem utilizá-los, pra saber se é ou não tortura de fato. Com sorte, nenhum deles resistiria. ¬¬

    Responder

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