Frutas e urubus
por Anna Raíssa * – Brasiliense é bicho que viaja. Ser brasiliense é basicamente sair do Distrito pelo menos uma vez por ano, seja pra visitar parentes e amigos em outros estados, seja pra conhecer outros lugares e fugir da pasmaceira que a cidade vira durante as férias e feriados – justamente porque quase todo mundo viaja e a cidade fica vazia. A grande diferença entre Brasília e outros lugares é que, se você mora em São Paulo, por exemplo, pode viajar pra outra cidade dentro do estado. Em Brasília, viajar é sair completamente, se desvincular do clima seco-desértico e da umidade beirando os 16% e ir pra longe.
Separadas por míseros 1593 km, Brasília e Belém são cidades que nada têm em comum. Aliás, Brasília nada tem em comum com nenhuma outra cidade. E apesar da distância, pode-se encontrar por aqui uma boa quantidade de belemenses ou de pessoas vindas de outras cidades do Pará. Menos de um mês antes eu nem pensava seriamente em tomar um ônibus e encarar uma viagem de 36 horas à cidade das mangueiras. Mas daí que o frio horroroso que estava fazendo, o esvaziamento da cidade e a chateação de umas férias que já tinham dado o que tinham que dar foram os bons motivos que eu precisava.
Combinei a viagem com uma amiga – iríamos aproveitar que a Universidade estava liberando um ônibus que levaria os estudantes de Letras pro Encontro Nacional na UFPA para economizar os mais de 200 reais da passagem. Enfiamos as coisas na mochila e, um almoço, duas noites mal-dormidas e dois cafés da manhã depois, estávamos desembarcando na UFPA, a maior universidade brasileira em área física, localizada às margens do Rio Guamá.
A diferença do clima foi o que mais impressionou, depois das árvores gigantescas (pra quem mora no cerrado, qualquer pé de jaca é uma Amazônia). Saímos de Brasília aos 8°C e uma sensação térmica pra bem menos e desembarcamos aos 26°C ou mais. O ar absolutamente respirável, apesar da umidade sufocante e o rio passando perto. Poluído, devo lembrar.
Visitamos toda a região metropolitana de Belém, que vai desde Ananindeua, passa pela Belém-propriamente-dita e segue por mais alguns municípios até Santa Bárbara do Pará. O Guamá, onde ficamos, é um bairro mais pobre, não muito afastado do centro. Um tempinho de ônibus e estávamos no que já foi chamado de “Paris n’América” (essas classificações esdrúxulas sempre me divertem), uma conurbarção louca e uma mistura de gente nova em paisagem antiga. Impressionante ver a Cidade Nova – não tão nova, mas bem cuidada, onde se pode ver uma quantidade considerável de escolas particulares, comércio e postos de saúde, e a Cidade Velha, mais velha que o próprio nome e que, embora seja de um valor histórico e cultural incrível, parece não receber muita atenção da prefeitura ou do que o valha.
Os principais rios (Guamá, Amazonas – que ainda não tive o prazer –, Maguari e Acará) fazem parte da vida e da história da população, desnecessário comentar. O mercado Ver-o-Peso, principal ponto turístico de Belém, fica às margens da Baía do Guajará e abriga uma mistura deliciosa de cheiros, cores, pessoas e materiais. É possível encontrar uma enorme variedade de produtos artesanais e frutas amazônicas, o que me leva a pensar na loucura e no êxtase de um estrangeiro vindo de terras geladas quando desembarca em qualquer ponto do Brasil. Aliás, nos quase dez dias que passamos em terras paraenses, a minha alimentação se restringiu a frutas, sucos e coisas à base de mandioca (da conhecida tapioca até picolés e sopas, o malfadado tacacá). Mas antes de afirmar isso, devo confessar que nos últimos dias não consegui resistir ao vício e tomei café.
Além de frutas e artesanato, o que chama a atenção de qualquer um que vá não somente ao Ver-o-Peso, mas a qualquer ponto da Baía, é a quantidade escandalosa de urubus. Imagine uma Roma cheia de pombinhos. Agora troque todos eles por urubus enormes, coloque o rio Maguari ao fundo e montes de gente e barcas levando e trazendo mercadorias e voilà: bem-vindo à Belém do Pará. Os urubus são presença constante até mesmo nas ilhas e na Universidade – nesta, em quantidade menor, evidentemente. Depois de 50 minutos numa balsa rio adentro e meia hora numa espécie de charrete puxada a trator Ilha de Cotijuba adentro, ainda é possível avistá-los aos bandos, sobrevoando as praias. Isso sem contar as centenas de Búfalos que dizem ter chegado à Ilha de Marajó a nado do Oceano Atlântico, e dela terem “migrado” às outras ilhas.
Frutas, urubus, água e gente hospitaleira, tudo ao som do Carimbó e do Brega. E Brasília fica bem mais distante de Belém.
* Anna Raíssa é estudante de Letras Português na Universidade de Brasília.


Cara,
Não queira vir à cidade São Paulo então. Eu tenho muita vontade de sair desse inferno de cidade. Gente mau educada, violência, desemprego, piores políticos do mundo, falta de lugares para visitar, etc. Essa é a Sao Paulo que vivo. Invejo qualquer outro lugar, que não seja aqui, e pelo seu post, Belém do Pará deve ser um paraíso (pra quem vive aqui, em sampa).
Abraços
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