Da falta que o bombril me faz ou Confissões de uma mocinha mimada tendo que virar dona de casa
por Camila Pavanelli – Nunca limpei, lavei e passei tanto na vida quanto nas últimas semanas – o que não deixa de ser muito estranho, se considerarmos que duas semanas estão ganhando de vinte e seis anos e meio de pacata existência.
Como a maioria das coisas que a gente prevê com alguma ansiedade, minhas dificuldades atuais estão passando bem longe de tudo o que antecipei temerosamente. Por exemplo, eu achei que não teria a menor noção de quais produtos de limpeza comprar e usar. Bobagem: nada que um processo rápido de tentativa e erro não tenha resolvido até agora.
O que, isso sim, vem me incomodando de um jeito que sem a experiência das faxinas eu não teria mesmo como prever, é a dúvida que me persegue no que quer que eu limpe: “Afinal, isso aqui é sujeira mesmo e preciso esfregar mais forte, com outro produto, de outro jeito e/ou com outro apetrecho pra marvada sair – ou é uma marca do uso que nem a maior esfregação resolverá?”
Taí uma questão a que os filósofos e pessoas verdadeiramente preocupadas com o destino da humanidade deveriam se dedicar.
Hoje, inexperiente que sou, ainda perco muito tempo com essas análises. Lavo uma série de coisas – por exemplo, as bocas do fogão (é assim que se chamam?) – e, na hora de enxaguar, me bate a maior dúvida: esse pretinho aqui é de queimado e não sai nunca mais, ou eu é que não lavei direito?
Como não tenho a menor confiança em mim mesma, sempre acho que é a segunda opção. O pior é que, nisso como em poucas coisas na vida, tenho verificado que geralmente estou certa.
Então me pus a lavar novamente todas as bocas do fogão, desta vez com especial atenção aos pretinhos – e com uma taxa muito pequena de sucesso em sua remoção. Quando de repente, eureca: “mas é claro, preciso de um bombril”.
E cadê o bombril?
Eu vi o bombril no supermercado. Mas não comprei, porque pensei – ah, bombril é pra quem vai arear panela, eu não preciso disso.
(Eu nunca areei panela antes. Sempre houve alguém – meu pai, minha avó, uma empregada – para fazer isso por mim.)
Pequeno intervalo para um recordação do curso de Psicologia.
Uma professora certa vez compartilhou com os alunos uma experiência que nunca mais esqueci, referente à primeira vez que ela realizou um atendimento psicológico. A cliente era uma senhora, ela uma aluna ainda bem novinha; conforme a senhora ia falando, a (futura) professora ia pensando, “nossa, essa mulher está precisando de uma psicóloga…”. Quando lhe ocorreu a súbita, eloqüente – e nem por isso menos óbvia – revelação:
“Ei – esta mulher já tem uma psicóloga. A psicóloga sou eu. Sou eu que tenho de ouvir esta mulher como psicóloga, e portar-me como tal.”
Corta para a cena da limpeza do fogão.
É certo que meu insight não foi tão imediato quanto o de minha ex-professora: em vez de me acometer no supermercado, o desejo de bombril se apossou de mim quando eu já tinha as mãos na massa – ou antes, nas peças metálicas que cobrem as bocas do fogão.
Mas o insight, é claro, ultrapassa o bombril. O insight é sobre o desamparo.
O desamparo em que se encontra uma psicóloga ao se dar conta de que um professor não irá lhe soprar aos ouvidos a interpretação certa à fala daquela senhora. Mais: o professor não está lá nem mesmo para indicar como a cliente poderia ser ouvida. Tampouco o DSM-IV e A Interpretação dos Sonhos estão embaixo da carteira para serem espiados com o rabo dos olhos – tudo com o que a psicóloga conta, naquele fatídico momento em que a cliente angustiada lhe fala de seu sofrimento, é com ela mesma.
Ninguém está aqui para me dizer se o fogão está suficientemente limpo. Ninguém virá arear panelas para mim. Ninguém para me dizer que a aquisição do bombril era necessária. Tudo o que eu tinha em mãos era uma bucha normal, e um pedaço de fogão a ser limpado.
Só me restou suspirar e enxaguar. Sem o bombril, o grosso das manchinhas pretas não iria mesmo sair. A areação (areamento?) fica para a próxima faxina.
Há várias formas de sucumbir ao desamparo e se sentir inferiorizado.
É claro que um estudante de graduação não está preparado para ser terapeuta (quem está?).
É claro que não estou preparada para ser dona de casa (um dia estarei?).
É fácil deixar-se levar pela angústia do despreparo.
O difícil – mas como é bom! – é ouvir a sua roomate mais experiente dizer que, puxa, essas manchas geralmente não saem mesmo.
Não é simples, mas é absolutamente razoável, admitir que o fogão, mesmo sem bombril, ficou infinitamente mais limpo do que estaria se eu não tivesse tomado atitude alguma.
E é fundamental lembrar que minha próxima faxina, já de bombril em punho, será muito mais eficiente e recompensadora do que a de hoje.
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Tive vários anos de convivência com os benefícios da palha de aço, e sempre achei que jamais conseguiria viver sem. Pois, nada ou quase nada é como parece ser. E há fogões que rejeitam absolutamente o toque de tal utensílio de limpeza – palhas de aço deixam riscos irrecuperáveis.
A limpeza está nos olhos de quem observa, e o fogão ficou tão limpo quanto um fogão pode ser – até a próxima fritada ou ensopado borbulhante.
Enjoy your road trip!
Beijos
O Bombril tem 1001 utilidades, e o Carlos Moreno (garoto Bom Bril) ficou famoso só de fazer a propaganda dessa palha de aço. Mas veja aí a eficácia da propaganda: voce lembrou do Bom Bril na hora de remover o gordurame do fogão…Seu desamparo é que me preocupa, eu, que deveria ter nascido numa cidade chamada Amparo. Mas acredito na sua capacidade de limpar, lavar, esfregar e se adaptar, Camila Camaleoa. Beijos!
Excelente texto!
Podemos (não sei se foi o seu caso, mas acredito que sim) dizer que é uma metáfora. Estou aqui esperando o tempo passar e , enfim, ir para a faculdade, resolvi visitar alguns blogs de minha preferência. E me deparo com essa grata surpresa. Hehahaeh. Mas o motivo deste comentário, é avisa-la que estarei lenvado-o o texto para a facu e, compartilha-lo com alguns “chegados”.
Obrigado pela prazerosa leitura!
Camila:
Ótimo e bem humorado texto: adorei te ler.
Beijos
Tais Luso
Camila!
Meus pais tinham o entendimento de ensinavar de tudo a filhos homens ou mulheres! Cresci convivendo com lavar a casa(sim, lavava-se o assoalho todinho da casa, de joelhos), lavar louça, roupas, estender a dita cuja no varal! Até hoje, sou metódico nestes assuntos, conforme a forma que foi estendida a roupa, nem é preciso passar, outra atividade que me dediquei muito até os dezesseis anos, quando saí de casa. No quartel voltou tudo, arrumar camas, lavar, dobrar passar, lustrar coturnos, sapatos, etc Depois, de um bom tempo, casei e como não queria ficar brigando com meu amor (que havia sido criada sem nunca exercer alguma das atividades aqui descritas), assumi certas tarefas e outras fui ensinando a empregada. Hoje, penso, penso e vejo que nunca bateu-me nenhum insight no desamparo e dei-me por conta que aprendi tudo isso antes do Bom Bril ser popularizado, ele não existia na cidadezinha de minha infância, QUERO UM BOM BRIL prá mim… também quer ter INSIGHTs!
ótimo texto
Cuidar da vida é duro!!
Mas que prazer olhar e ver o brilho, ainda que permaneçam algumas manchinhas pretas… Elas são o sinal de que algo mudou!!
Beijos, querida
Camila, sei que ja e bem tarde pra qualquer comentario, voce ja deve ter comprado o diacho do bombril e deve estar feliz com ele. Mas nao posso deixar de dizer que em 8 anos de EUA eu nunca comprei uma palha de aco, e nunca areei uma panela. Abstraia disso, querida. Tem produto quimico pra tudo nesse pais, esquece a esfregacao… certas manchas nao saem mesmo. hehehe. Beijos.