As infelicidades da maternidade

Sem filhos: 40 razões para você não ter (Intrínseca, 2008), de Corinne Maier, é uma delícia de manual politicamente incorreto. A autora – ela mesma mãe de dois filhos que, se pudesse voltar no tempo, faria tudo diferente – é francesa. A França, uma nação que fez festa em 2006 para comemorar a maior taxa de fertilidade da Europa – “é a face atual do patriotismo”, escreve Corinne: “para encarar uma vida de imbecil é melhor sermos muitos”.

Desnecessário dizer que o ataque não se confunde com a apologia da violência contra a criança, ou algo do tipo. Seu alvo é o discurso totalitário pró-maternidade, que diz ser “incompleta” a vida de uma mulher, ou de um casal, até que ela tenha um ou mais filhos.

O livro demole mitos como o do prazer na hora do parto (“uma tortura”) e o da bondade natural da criança. Corinne, psicanalista e economista, pesa os contras de se ter filhos (já que os prós são enumerados todos os dias por todos e em todos os lugares) e, noves fora, faz seu capítulo-veredito: “Criança? Não, muito obrigada”. Como disse Le Magazine des Livres, não custa nada ler Sem filhos, pois “um pouco de impertinência jamais despovoará o mundo”.

Algumas passagens:

 

O pior é que a criança sabe estar presente para lhe impedir qualquer prazer. É a sua face oculta. Acredite, ela se mostra muito criativa nesse campo. Vai ficar doente quando você (enfim) puder sair para se divertir, vai irritá-lo quando for comemorar seu aniversário com os amigos. Detesta que traga para casa um(a) desconhecido(a); aliás, você já nem pensava mesmo nisso, com medo de “traumatizá-la”. Além disso, ela vai conseguir se pôr a berrar precisamente quando você for se deitar com a tal amiga, ou amigo. E isso se ela dormir no próprio quarto, pois muitas crianças dormem na cama dos pais: 12 por cento dos pais americanos confessam que passam a noite com seus bebês. Pode-se imaginar o quão intensa é a sua vida sexual. Adeus carinhos, que tristeza!

*

Por parte dos pais que têm a vida estragada em nome dos filhos, ouve-se facilmente a frase: “Não posso fazer de outro modo, tenho filhos para criar.” Não posso largar um trabalho que me chateia, pois tenho filhos: bela desculpa. “Não pude realizar meus sonhos, tive filhos para alimentar.” É terrível dizer isso, não acham? Antigamente, no tempo dos nossos pais, minha mãe dizia: “Não posso deixar o seu pai por causa de você.” Dei-me conta de que não era bem isso. Ela preferia ficar em casa para azucrinar meu pai, e ele fazia o mesmo com ela. Há quem prefira ser infeliz a dois a ser feliz sozinho. É assim que acontece.

*

Filho é perigoso. Pode lhe valer processos judiciais e lhe custar a liberdade (que já era relativa, convenhamos). Pois o pequeno ser inocente muito facilmente denuncia os pais e os envia às garras da Justiça, sem maldade alguma. Lembremos que, nos regimes totalitários, as crianças são rapidamente cooptadas; o bom comunistazinho que entregava os pais à polícia secreta por se terem enganado ideologicamente serve de modelo. A França não fica atrás: Outreau, uma cidade do norte, lúgubre, onde, é preciso reconhecer, há pouca distração, serve de exemplo. Em 2001, por denúncia de várias crianças, 18 pessoas foram presas e passaram de um a três anos numa cela – uma delas se suicidou. Foi um erro judiciário: os diabinhos tinham mentido, com o apoio de peritos superpreparados e levados a sério por juízes incompetentes.

- por Daniel Lopes

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6 comentários | Dê sua opinião

  1. Ju Dacoregio 28/08/2008 em 12:54 pm

    Aaah, estou louca para ler este livro! Mas eu já sabia disso tudo, criança é até legal, mas só se for dos outros. É incrível como as pessoas que já têm filhos dizem que um dia você vai querer ter também. Parece que é uma forma de protestar, “como assim você vai querer ser diferente e nunca passar pela experiência de ter uma criança lhe sugando o tempo e as forças? Não, um dia o desejo de ser mãe vai aflorar em você!” Aflora nada!!! E se aflorar, serão pelos seguintes motivos: quero ver como eu fico com barrigão de grávida, quero ver como fica a cara de uma pessoa formada com meus genes e do meu namorado. Ponto. Serão estes motivos suficientes para colocar pessoas no mundo? Creio que não.

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  2. Adriana 28/08/2008 em 5:11 pm

    Bastante interessante esse outro lado da história. Talvez, valha a pena conferir pelo inusitado. Boa dica. Abraço. Adriana

    Responder
  3. Paulo Vilmar 29/08/2008 em 10:16 am

    Daniel!
    Creio que a análise deve ser mais profunda. deveríamos é questionar os adultos que estamos criando, hoje, onde os pais, cercados de culpas e leis acabam com medo de seus pimpolhos e criando reizinhos para um mundo fantasia. Eles tudo querem tudo podem e acabam tiranizando pais, professores e quem quer que se aproxime. Limites, responsabilidades, educação passam longe. Se é para convivermos com estas crianças, melhor mesmo é sem filhos…
    Abraços

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  4. gerusa 29/08/2008 em 11:12 am

    Alguns supõem que irei trabalhar com crianças, mas eu sempre digo que não pois “ainda quero ter paciência para os possíveis filhos”. Eu quero te-los sim sabe, pois nasci em família grande, e concordo que é um grande desafio criar um ser vivente e torna-lo uma pessoa legal. Compreendo muito bem quem não quer te-los, e admiro muito estas pessoas por poupar nós, profissionais da educação e da psicologia por exemplo, a fazer um trabalho que deveria começar por eles.
    Hoje a sociedade tem um sentido muito derturpado do que é ser pai é mãe. Acham que os bons pais são aqueles que provem a “boa escola” ( acham que o papel desta é criar os filhos por eles, e não mais dar acesso a coisas que a família não tem condições de prover, como a educação formal), o curso de inglês, a natação, a mesada, a roupa, a comida, a internet… E pronto! Fizeram de tudo… Mas é a educação para o respeito, a criação de limites, e o sentido (gramsciano) da disciplina. Isso em nenhum momento significa “bater para educar” como muitos ainda pensam ser certo(não estou dizendo que alguem aqui pense isso), eu por exemplo nunca apanhei dos meus pais, mas também não fui ensinada a obedecer cegamente, e tão pouco era uma pequena tirana. Fui tratada como alguem que deveria ouvir e ser ouvida, e assim pretendo fazer com os meus possiveis filhos.
    A sociedade atual tem muita culpa na formação de pequenos tiranos, por essa leitura errada que fizeram de varios teoricos educacionais. Os filhos só irão tirar a nossa vida se permitirmos, e eles também precisarão construir sua propia vida, pois não criamos pessoas para serem nossos animalzinhos. Daí a necessidade de noções como privacidade e independência por exemplo. Ensinar o seu filho a dormir em sua propia cama, a amarrar o cadaço, a ter noção espacial, enfim…As vezes nos sentimos muito confortáveis em nos anular e depois de muito tempo jogar a culpa nos filhos pela vida que não vivemos…Mas quem disse que eles pediram pra você se anular? As atitudes deles é um reflexo das suas, e não seria muito mais facil colocar o filho na sua vida do que fazer outra vida só para ele? Assim como no trabalho, filho requer uma parcela de tempo sua, não necessariamente todo o seu tempo disponível. Então concluo que antes de termos buguelinhos precisamos nos reeducar rapidamente. Se você por acaso não fizer isso, por favor nos poupe do trabalho de criar seus filhos por você, não os tendo.

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  5. Vanessa Souza 05/09/2008 em 12:19 pm

    Pensei em escrever sobre mães e filhos, depois de ouvir de uma amiga psicanalista, essa semana, que toda mãe é filha da puta, rss.

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  6. Vanessa 29/12/2008 em 7:03 pm

    Adorei o livro e concordo plenamente como que a autora escreveu. Realmente, a mulher deve fazer uma escolha: trabalho “descente” ou filho! Os dois são impossiveis.
    Não tenho filhos, e nem pretendo ter. Sabe por que? Não tenho $$$$$ sobrando, pra ter filho tem que ter $$$$, pois criança não vivem de amor, carinho e afeto. Não se paga a faculdade com amor, nem se dá cheques de carinho para pagar o colégio…é pessoal, as mulheres precisam usar mais o cérebro, sei que é difícil pra maioria das mulheres, mas tem que tentar.
    Filho não é uma bonequinha da barbie que vc brinca e trata como quer. Filho é um cidadão, é um ser humano que precisa estar preparado para o mercado de trabalho, e é obrigação dos pais prepararem essa nova pessoa.
    Se vc não tem $$$$$, não tenha filhos, pois como afirmei ninguem vive de emoções e bons sentimentos.

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