A sutileza de um autor e de um amor possível

por Renato Medeiros – “Eram jovens, educados e ambos virgens nessa noite, sua noite de núpcias, e viviam num tempo em que conversar sobre as dificuldades sexuais era completamente impossível”. É com essa objetividade que começa Na Praia (Cia. das Letras, 2007, trad. Bernardo Carvalho), curto romance do aclamado inglês Ian McEwan.

O ano era 1962. Edward e Florence têm 20 anos e acabaram de se casar. Estão em sua noite de núpcias, na praia inglesa de Chesil. Entretanto, o que era para ser uma noite plena de realizações, se transformou em horas de tensão, medo e ansiedade. Estavam felizes, claro, pois se amavam, mas não sabiam o que fazer da liberdade que acabavam de adquirir. Finalmente agora lhes era permitido consumar o ponto máximo da intimidade física: o sexo. Mas não sabiam por onde começar.

Ninguém nunca explicou a eles claramente como aquele ato tão elementar para a vida do ser humano deveria acontecer. Por causa de pudores sociais eles não sabiam como agir naquela noite. O casal representa o ponto limite, a última fronteira, de uma sociedade falso-moralista, recalcada e cheia de tabus, às vésperas de uma revolução sexual, ainda naquela década de 1960.

Durante todo o período pré-matrimônio, o sexo sempre foi o único assunto que se desenvolvia muito lentamente na relação do casal, com cautela, precaução. Na noite de núpcias, Florence tentava aceitar a sua nova condição de esposa e se esforçava para vencer o nojo e a repugnância que a repelia do ato sexual; já Edward estava ansioso e temia “chegar antes da hora” e desapontar a ambos.

Com um mote aparentemente simples, o da perda da virgindade, Ian McEwan constrói o retrato de uma época prestes a ser profundamente modificada, com alterações culturais que colocariam em xeque aquela sociedade reprimida. Em um exercício bem sucedido de observação de costumes e comportamento, o autor mostra o quanto é difícil romper imposições sociais que são construídas durante a vida de qualquer um.

Embora esse panorama, sugerido pelo ficcionista, esteja dirigido à realidade da Inglaterra de meados dos anos de 1960, ele pode ser aplicado a qualquer época, inclusive neste início de século XXI. Afinal, em qualquer período histórico é sempre difícil quebrar paradigmas sociais. Isso leva a crer que o texto de Ian McEwan não é datado, isto é, não é perecível. O ponto central da narrativa poderá ser sempre relevante, independentemente do contexto inserido.

Ian McEwan trata com sutileza todos os elementos que aborda, tanto na maneira como conduz a história, com flash-backs em momentos pertinentes; quanto na estrutura do romance, dividido em cinco capítulos com 20 páginas em média, o que demonstra uma divisão simples, eficiente e contínua. O autor é correto, claro e direto, porém não é explícito, apenas faz sugestões, indica situações, mas não as põe em evidência. Os pontos de vista do casal são alternados várias vezes e o narrador é sempre onisciente e em terceira pessoa.

O texto é um drama profundo, que o autor esconde com palavras bonitas e um leve tom de comédia, possivelmente para que seu conteúdo não doa tanto no leitor. Talvez ele não quisesse que esse leitor terminasse o romance, de final surpreendente, em estado de choque, mas sim com um sorriso no rosto, encantado com o desabrochar de um amor tão espontâneo, ingênuo e possível como aquele de Edward e Florence.

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1 comentário | Dê sua opinião

  1. DiogoLemos 08/10/2008 em 4:08 pm

    Me empresta este livro… fiquei curioso!

    Parabens pela crítica!

    Responder

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