Viagem ao centro de Cuba – III

Casado, pai de um filho, Danilo, como todos os músicos que atuam nos bares e restaurantes cubanos, é funcionário do Estado.

[ leia o primeiro e segundo posts ]

1. Danilo: o músico

Se ainda há uma aura de inocência na Havana romântica, ela está na alma de cada músico que ocupa suas ruas, esquinas, bares e restaurantes, onde o som característico das claves, das maracas e congas marca o ritmo alegre da rumba, da conga, do mambo, do chá-chá-chá e também da melancólica guajira. É impossível circular pelo centro de Havana, pela Havana Velha, sem ouvir os muitos compassos que embalam esta cidade tão musical, sem se deixar levar pela estranha emoção que nos atinge – latinos que somos – pelas ruas da capital de Cuba.

Via de regra, qualquer restaurante ou bar em Havana abriga boa música cubana, um repertório cuja base está fincada nos compositores clássicos da música local, além de todas as canções que se fizeram conhecidas mundialmente a partir do estrondoso sucesso do Buena Vista Social Club.

Mas, assim como as novelas, a música brasileira também é muito apreciada pelos cubanos. Ela circula em fitas cassete e CDs – trazidos para a ilha por turistas – que acabam indo parar nas mãos dos nativos. Foi exatamente esta paixão pela música brasileira que abriu as portas para uma conversa de mais de duas horas entre eu e o violonista Danilo Sancho, em uma tarde regada a mojitos na afamada La Bodeguita Del Medio, um bar localizado na Velha Havana, imortalizado pelo escritor Ernest Hemingway. Enquanto ele executava as peças do repertório ao lado de mais quatro músicos, eu observava o movimento na Bodeguita. Nos intervalos, entabulávamos nosso papo.

Músico autodidata, contabilista por formação, Danilo é o protótipo do cubano: alegre, comunicativo, curioso. “Amo a música brasileira. Roberto Carlos, Tim Maia, Elis Regina, Chico Buarque, Caetano Veloso… tenho muita coisa deles”, avisou. A maioria do acervo musical de Danilo foi reunido a partir de doações. “Se puderes mande-me José Augusto. Maravilhoso intérprete. Tenho alguns de seus discos em espanhol, mas me faltam os primeiros”, explicou, anotando seu endereço em um guardanapo. Comprometi-me a localizar as preciosidades de meu amigo e lhe enviar por correio.

Casado, pai de um filho, Danilo, como todos os músicos que atuam nos bares e restaurantes cubanos, é funcionário do Estado. Ganha 157 pesos cubanos (6,40 CUCs ou 6 dólares) por mês para tocar das 8h às 17h. Esta renda é complementada pelas gorjetas (honestamente divididas pelos integrantes do grupo ao final do dia) e pela venda de CDs de música cubana. Desta forma, no final do mês, ele consegue angariar cerca de 3.500 pesos cubanos (140 CUC´s ou 135 dólares), o que lhe permite se classificar como uma pessoa de classe média baixa. “Vivo como uma empregada doméstica no Brasil. Não tenho carro, nem luxos. Como, estudo, vivo cada dia”, explica, usando o exemplo que lhe vem a mente a partir das nossas novelas.

Curioso a respeito do modo de vida em uma democracia liberal, Danilo se mostra surpreso ao ouvir-me explicar o funcionamento dos três poderes. “Lula não pode fazer o que quer? Tem que ter autorização dos políticos?”, perguntou ainda com o ex-mandatário em mente, tentando decifrar a relação entre o Executivo e o Legislativo no Brasil.

“Então você é jornalista? Mas, trabalha para algum jornal? Para uma emissora de TV?”. Explico que não, digo que sou um aventureiro midiático que tenta estabelecer um negócio próprio em meio à prostituição da informação. Danilo se mostra surpreso. “Mas como ganhas dinheiro?”. Novamente, explico que vivo da publicidade veiculada na minha revista, já que seu acesso pela internet é gratuito.

“Não temos internet aqui. Então, alguém lhe paga para que você coloque um anúncio em sua revista. Não há publicidade aqui em Cuba, apenas os cartazes do partido e da revolução”, disse Danilo antes de ser convocado para executar “Chan Chan”, composição do mítico Compay Segundo.

O fenômeno mundial do Buena Vista Social Club, surgido em 1996, serviu como um bote salva-vidas para centenas de talentos da velha guarda da música cubana e, também, para os ilustres desconhecidos que hoje vivem da música na ilha. “Depois do Buena Vista o turismo aumentou, aumentou também o interesse pela nossa música”, explica Omar, baixista que acompanha Danilo na Bodeguita.

A ideia do músico cubano Juan de Marcos González era reunir artistas de várias gerações para gravar um disco. O guitarrista americano Ry Cooder topou o desafio de produzir o trabalho. O resultado foi um sucesso inesperado com mais de um milhão de cópias vendidas. O trabalho atraiu a atenção do cineasta alemão Win Wenders que investiu em um documentário. O disco levou Grammy em 97 e o filme, alguns prêmios e várias indicações, inclusive ao Oscar.

O Buena Vista reuniu instrumentistas e cantores que, em sua maioria, vivia de aposentadoria do Estado ou bicos. Ibrahim Ferrer, por exemplo, ícone do grupo, completava o orçamento como engraxate. Gente como Compay Segundo, Barbarito Torres, Amadito Valdéz, a diva Omara Portuondo e o violonista Eliades Ochoa, além de outros, saíram do ostracismo de mais de 40 anos para recomeçar a carreira em grande estilo. Esta revolução musical atingiu também a Danilos e Omares.

Assisti ao show “Buena Vista Social Club Oficial” no Café Taberna. À primeira vista, a impressão era de que se tratava de um cover do que nós conhecemos como Buena Vista Social Club. Um naipe de metais, acompanhado por instrumentos típicos, guitarra, bateria e contrabaixo faziam a base para que um grupo de cantores e cantoras das antigas recordasse os sucessos cubanos da década de 50 e 60. Pouco a pouco fui percebendo, e confirmando com bom papo, que aqueles senhores e senhoras ali de pé eram ícones da música local, assim como Compay, Omara e Ibrahim. “Eles não são tão famosos no exterior, mas são bem conhecidos aqui. Há alguns anos voltaram à ativa”, me explicou um garçom.

Ao voltar ao hotel aproveitei para comprar charutos. Uma vendedora perguntou sobre minha noite. Disse a ela de minha experiência no Café Taberna e que, apesar de ter amado a música, havia ficado com um pouco de pena daqueles “velhinhos” cantando suas velhas canções para os turistas. Ela me olhou e disse: “Não se preocupe, eles gostam. É isso o que os mantém vivos”.

2. Graciela e Abdel: a camareira e o garçom

Cento e quarenta quilômetros separam Havana de Varadero. A rodovia corre paralela a colinas verdes onde, aqui e ali, nesgas de um mar cor de esmeralda surgem à vista. Pequenos povoados – como Santa Maria del Mar e Guanacoa – passam rápidos diante de nossos olhos até que, enfim, alcançamos Matanzas, uma cidade com cerca de 150 mil habitantes, espalhada sobre uma bonita baía. Dali até a península de Varadero são mais trinta e cinco quilômetros emoldurados pelo belíssimo litoral cubano à esquerda e por manguezais à direita. Nessa estreita faixa de terra, com cerca de vinte quilômetros de comprimento por dois de largura, se concentram quarenta e cinco grandes hotéis e resorts. Logo na entrada do luxuoso balneário, um grande cartaz anuncia: “O que se arrecada aqui vai para o povo cubano.” Afinal, na terra de Fidel, quase tudo é administrado pelo Estado e, teoricamente, pelo povo.

“Eu não vou viver para conhecer o mundo, mas queria que as coisas mudassem para que meus filhos e netos possam conhecer outros lugares. Não para viver em outros países, mas apenas para conhecê-los. As pessoas de todo o mundo vêm nos visitar, vêm conhecer Cuba, mas os cubanos não podem conhecer o mundo”, diz Graciela, uma jovem senhora de 50 anos, cuja simpatia conquistou alguns hóspedes do segundo andar de um resort em Varadero.

Graciela trabalha há 20 anos no local. Veio de Havana para o balneário na década de 80 para casar com um pescador, pai de seus dois filhos. O mais novo estuda turismo em um curso técnico, o outro faz educação física. Ambos se preparam profissionalmente para integrarem o seleto grupo de cubanos que lidam diariamente com os milhares de turistas que desembocam na ilha caribenha e que formam uma espécie de “elite trabalhadora” com acesso a gorjetas em CUC (moeda cubana para uso turístico) e em moeda estrangeira. Orgulhosa, ela exibe as fotos dos dois filhos e do neto, de dois anos de idade. O marido pescador morreu há 15 anos. Hoje, ela vive em um apartamento com o filho mais novo, enquanto o mais velho, a nora e o netinho moram em um apartamento defronte ao seu. Graciela é feliz, curiosa, como todos os cubanos com quem conversamos.

O melhor aspecto de Cuba? “A segurança” diz, de chofre. As críticas sobre a falta de liberdade na ilha? “As pessoas criticam a política em Cuba, mas ela (a política) não nos incomoda. Vamos vivendo a vida”, afirma. É o que pensa também Abdel, garçom do luxuoso restaurante Kike-Kcho, na Marina Gaviota. Simpático, educado e instruído ele reforça: “A tranquilidade que temos aqui é muito importante. Aqui não há drogas, não há banditismo”.

Sobre as criticas à política cubana, Abdel explica que aqueles que falam mal do governo são os que não querem trabalhar. “Os que não querem se preparar para um trabalho falam mal do nosso governo. O governo quer aumentar os salários, mas não há dinheiro”. Abdel ganha cerca de 460 pesos cubanos por mês (18 dólares), fora as propinas (gorjetas). “Em Cuba não há classes sociais”, assegura, mas diz que se tivesse que se enquadrar em uma classe, seria média-baixa.
Com dezenove anos de experiência na profissão – 10 atuando nos restaurantes de luxo da Marina – Abdel sabe lidar com a curiosidade dos turistas. Solícito, se deixa fotografar içando uma lagosta no tanque do restaurante e até faz uma pose marcial para outro clique. Mas seu olhar inteligente, as ideias bem concatenadas reforçam a impressão – que eu já havia tido anteriormente ao conversar com outros cubanos – de que há um “discurso turístico” pronto a ser oferecido a cada estrangeiro curioso que lhes pergunta sobre política, liberdade de expressão e outros interesses “pequeno-burgueses”.

Conversar com os cubanos é um exercício de intuição e reflexão. Afinal, quando se fala dos horrores dos totalitarismos (sejam de esquerda, de direita ou de matiz religiosa), a ideia que se forma em nossas mentes é a de países destroçados pela tristeza, pela opressão, onde o riso não prospera, onde nem os pássaros cantam. Ora, apenas os que nunca estiveram (ou viveram) em um país totalitário podem alimentar esta noção deturpada das coisas. Como em qualquer país do mundo, também nos que vivem sob o totalitarismo as pessoas são… pessoas. Elas sofrem, gozam, riem, choram, sonham, têm seus momentos de euforia e de depressão. São seres humanos, afinal.

E então, lembro-me do jornalista Janer Cristaldo e de seu antigo artigo intitulado “A Velhinha de Havana”, onde ele aborda outro artigo, de Luís Fernando Veríssimo, no qual o prócer gaúcho misturava alhos e bugalhos a respeito das “necessidades básicas” do ser humano.

Jorge Furtado andou pela Disneylândia das Esquerdas e dela traz notícias. Ao chegar no quarto do hotel, o cineasta gaúcho notou que a privada não tinha assento. Considerou que sem assento não se pode sentar numa privada. Reclamou com a camareira e dela ouviu:
– Se puede, se puede…
(…) O que Verissimo está dizendo, em verdade, é que há um grave problema no regime cubano: as privadas não têm assento. Observação nenhuma sobre liberdade de imprensa e de opinião, direitos humanos, eleições livres e outras ridicularias de um Estado contemporâneo. A grande falha do socialismo tropical parece ser as privadas sem assento. Pode-se viver em um país onde as privadas não têm assento?

Pode-se viver sem muita coisa, reflete Cristaldo, até mesmo sem assento de privada e papel higiênico. Também se pode viver sem as lagostas içadas por Abdel. Milhões de cubanos vivem sem elas, apesar de sua abundância nos mares caribenhos. É que as lagostas são para consumo exclusivo dos turistas que levam dólares e euros a Cuba. São consumidas em restaurantes como o Kike-Kcho, onde até muito pouco tempo os cubanos eram proibidos de entrar. Mas é perfeitamente possível viver sem lagostas.

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na próxima semana, o quarto de uma série de cinco posts.

  • Luis Henrique

    Dá-me vontade de vomitar quando o ilustre autor invoca um sujeito que está a um passinho de um Reinaldo Azevedo em sua loucura anti-comunista.

  • Arthur

    Excelente artigo, do melhor que eu já li sobre Cuba!

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