Morada desapropriada

Diferentemente do que ocorre em outros livros de Auster, em "Sunset Park" a profusão de histórias nem sempre é bem costurada.

“Sunset Park”, de Paul Auster

Sunset Park, livro mais recente de Paul Auster, é um romance bem ao estilo cultivado pelo escritor nas últimas décadas: prolífico, metalinguístico, misterioso.

O romance, longo (quase 300 páginas) para os padrões da literatura contemporânea, divide-se em quatro seções: “Miles Heller”, “Bing Nathan e companhia”, “Morris Heller” e “Todos”. Ainda, cada seção divide-se em capítulos; numerados, no caso da primeira e terceira seções; nomeados (destinados a personagens da trama), no caso da segunda e da quarta.

A primeira seção nos apresenta um jovem perto de completar 30 anos, residente de uma cidade na Flórida, na qual trabalha com a desapropriação de imóveis e onde se apaixona pela adolescente Pilar. Sabemos, também, que devido a um trauma familiar ele não mantém contato com os pais – a rigor, com ninguém do seu passado (à exceção do amigo Bing Nathan) – há sete anos. Ocorre que a diferença de idade entre Miles e Pilar, sua namorada, o “obriga” a voltar para Nova York (local onde cresceu), pelo menos até que a moça atinja a maioridade. Bing Nathan divide com amigas um imóvel abandonado em Sunset Park, no Brooklyn, em NY. Há um quarto disponível. E ele é ocupado por Miles.

O retorno a Nova York é narrado a partir da segunda seção – “Bing Nathan e companhia”: o próprio Nathan, Alice Bergstrom, Ellen Brice e Miles Heller (quarteto de moradores da casa em Sunset Park). Miles decide que é chegada a hora de retomar contato com os pais. O que ele não sabe é que Bing Nathan vem informando seus pais do seu paradeiro nesses últimos sete anos. Mas, enfim, no plano da narrativa, o reencontro de Miles com o passado, traumático e petrificado, vai abrindo frestas por meio das quais têm lugar várias personagens, outras histórias, diferentes linguagens (além da literatura, o cinema e o teatro), focos narrativos variados – o que, já sabemos, o escritor Paul Auster adora fazer.

No entanto, diferentemente do que ocorre em outros livros de Auster, em Sunset Park a profusão de histórias nem sempre é bem costurada – Noite do oráculo, Homem no escuro e mesmo (o não tão bom) Invisível, para citar livros publicados na última década, lidam melhor com a multiplicidade de narradores. Em alguns momentos, Sunset Park nos deixa a impressão de que sobra gordura, e o melodrama, sobre o qual incide a própria crítica de Auster, toma conta do livro.

Por exemplo, a terceira seção, “Moris Heller”, destinada ao pai de Milles, editor e fundador da Heller Books, e a última seção, “Todos”, são pródigas em reviravoltas e surpresas que, ao invés de impactar, trazem enfado. Mas, em que se pesem tais deslizes, vale dizer que, especialmente em “Todos”, um mesmo evento narrado a partir de pontos de vista diversos é um recurso bem manejado, porque prepara o leitor para o desfecho da trama e, sobretudo, porque traz para o cerne mesmo da narrativa o tema mais interessante do livro: a desapropriação.

Miles Heller, personagem que liga todos os demais, vive às voltas com a desapropriação – do seu próprio destino, dos destinos dos outros, de sua própria casa, “morada” em sentido amplo. É por meio dos outros – “Bing Nathan e companhia”, “Moris Heller”, seu pai, e, enfim, “Todos” – que ele existe. Nesse caso, se Sunset Park destoa da maestria de um Philip Roth – escritor da mesma região de Auster, com posições políticas e predileção por temas semelhantes – ou da habilidade de Ian McEwan, ele tem o mérito de fisgar o leitor sem ser superficial; mérito que talvez possa ser expandido para o conjunto da obra de Auster. Quer dizer, entre a alta literatura e a literatura de entretenimento, ora superestimado ora subestimado, Paul Auster confunde a crítica, pois seu próprio estilo desapropria-se de rótulos. Miles Heller e, com sorte, também nós – leitores – aprendemos isto com o seu criador: que, mais do que de passado ou futuro, uma história se faz do presente.

::: Sunset Park :::
::: Paul Auster (trad. Rubens Figueiredo) :::
::: Companhia das Letras, 2012, 280 páginas :::
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