• http://relances.wordpress.com Vinícius de Melo Justo

    Ótima resenha. Partamos para os possíveis pontos cegos, visto que não li o livro:

    – de fato, impressiona-me “virei à esquerda” no caso dos dois primeiros. No caso do terceiro (Rosenfield), parece-me mais um mimimi com o PT e com a esquerda em geral, típico de pessoas que envelhecem e passam a ter menos energia para confrontar o mundo e suas vicissitudes. Isso também acontece com acadêmicos em geral, conformados com o status quo. Algo que faltou, mas talvez eu esteja sendo injusto com o objetivo do livro, está em ter uma visão mais clara dos defeitos possíveis da direita abordados ou não no livro. Não espero isso do Pondé, é claro, ele está só de macaqueação. Mas do Rosenfield (que seria um convertido) e do Coutinho eu espero.

    – outra coisa que parece pouco presente é o debate nacional. Por que faltam alternativas políticas à direita no panorama político brasileiro (e quando elas surgem vêm de contrabando em outros setores, como PSDB)? Para mim uma análise sobre “virar à direita” passa também por avaliar essas opções do cenário nacional. Nos anos 50 estava tudo um pouco turvo, mas havia claramente tendências manifestas. E hoje, como posicionar-se? Ou a direita virou apenas uma trincheira de intelectuais (ou quase isso) que posam de meninos maus da mídia?

    – por fim, em um assunto que diz respeito direto às minhas concepções, como fica a definição de esquerda ou direita nesse painel? Coutinho parece apresentar melhor isso, ao associar a desconfiança do papel do Estado na minoração dos problemas à direita. But this is hardly the whole truth. Ainda mais quando a questão leva a uma eventual substituição dos termos pelos quais se dá o Estado e como ele será no futuro.

    Como conversei com o Daniel Lopes por e-mail, o que me parece nesses colunistas de jornal acadêmicos (incluindo Safatle) que se posicionam é que lhes falta desenvolver algo vital para suas pretensões de apresentar um debate ideológico: uma concepção clara de teoria política normativa. Sem isso (e parece que Coutinho esboça, o que é louvável – não à toa, é o único não brasileiro) os termos todos correm o risco de girar em falso para quem não é das panelas esquerda, direita, etc. É como sinto o debate ideológico no país.

    • http://napraticaateoriaeoutra.org NPTO

      Valeu, Vinícius.

      Acho que o tom do Rosenfield às vezes é mesmo mimimi, mas os pontos que ele levanta são válidos (mesmo que deles discordemos).

      Concordo inteiramente com você que faltou debate sobre a direita política brasileira. Supondo que o leitor concorde com os autores, o que ele faz, politicamente? Forma um partido, vota no PSDB, no DEM, no PSD? É claro que o Coutinho não tem obrigação de dar opinião sobre política brasileira, mas o Pondé e o Rosenfield poderiam contribuir para a discussão.

  • http://suspensao.blog.br/juizo Adam

    Ok, nem terminei de ler ainda, este não é o comentário que pretendo fazer, mas urge-me perguntar: o que é a posição “olá, marujo”?

    • http://www.facebook.com/daniel.the Daniel

      é o Pondé sempre fumando seu baseado.

    • http://napraticaateoriaeoutra.org NPTO

      É uma respeitosa saudação a um indômito desbravador dos mares.

  • aiaiai

    ainda bem q vc tem paciência pra ler essas coisas e talento pra contar pra gente. Eu não leria nem a orelha desse livro. #prontofalei.

    PSiu: a sequência de PSs tá cada vez melhor.

    • http://napraticaateoriaeoutra.org NPTO

      Valeu, aiaiai, mas sempre é bom ler um cara diferente.

  • http://revistacidadesol.blogspot.com Lúcio Jr

    Só falta vc se lembrar que na Hungria em 56 tb havia, lutando junto aos “zeróis” de 56, os nazis de Horthy.

    • http://napraticaateoriaeoutra.org NPTO

      Pô, rapaz, é isso mesmo, você acha que a revolta de 56 foi coisa dos seguidores do Horthy? A essa altura do campeonato você ainda acha isso? Porra, que desânimo. Quantos anos você tem? Se for mais que 16 ou menos que 90, tá difícil a coisa.

      • Vinícius de Melo Justo

        E é nessa hora que aproveito para perguntar: algum bom (bom mesmo) livro sobre 56?

        • http://revistacidadesol.blogspot.com Lúcio Jr

          A Contrra-Revolução de Veludo, de Ludo Martens. Vc pode encontrá-lo em comunidadestalin.blogspot.com

          • http://napraticaateoriaeoutra.org NPTO

            Martens é o cara da Bélgica que escreveu um livro sobre o Stalin, não é? Vi na Travessa uma vez, dei uma olhada, pareceu meio que reprodução da versão oficial pré-Kruschev.

            E o que é essa comunidade stalin, Meu Deus? Olhei lá e tem um link “evidências da colaboração de Trotsky com a Alemanha”. Lúcio, nem os stalinistas acreditam mais nisso, eu acho.

            Você é do PCB? Bicho, sai dessa.

            • http://revistacidadesol.blogspot.com Lúcio Jr

              Essa pesquisa do Furr sobre Trotsky é recente, é de 2009. O Brasil não conhece, mas estou traduzindo. No futuro vc ouvirá falar nela. Abs!

        • http://napraticaateoriaeoutra.org NPTO

          Tem um que eu estou esperando sair para o Kindle para comprar:

          http://www.amazon.com/gp/product/030727795X/ref=s9_simh_gw_p14_d2_g14_i1?pf_rd_m=ATVPDKIKX0DER&pf_rd_s=center-2&pf_rd_r=0D63XX832PN02JQBVRP1&pf_rd_t=101&pf_rd_p=470938631&pf_rd_i=507846

          Eu gosto da história da Europa Central e Oriental do Ivan Berend. Mas vou ficar te devendo algum que seja mais assim com cara de definitivo.

      • http://www.colbertreport.com GRG

        NPTO, chegaste a entrar no site do cara?

        “Quando houver a revoluçaõ, será preciso um terror contra os reacionários que será como o terror que destruiu Sodoma e Gomorra, que deveria ter existido para arrebentar os contras na Nicarágua, para depois estabelecer a legalidade socialista como em Cuba. Violência revolucionária como a das Farc, como a de padre Camilo Torres na Colômbia”.

        Se nego passa perto de mim na rua, capaz de morder.

        • http://revistacidadesol.blogspot.com Lúcio Jr

          É, mas eu seria falso se prometesse socialismo e liberdade. Quando há socialismo, em geral há guerra, e na existência de guerra fica difícil haver liberdade.

          • Pablo Vilarnovo

            “É, mas eu seria falso se prometesse socialismo e liberdade. Quando há socialismo, em geral há guerra, e na existência de guerra fica difícil haver liberdade.”

            Opa! Pelo menos um socialista aqui fala a verdade!! rsrsrs

        • http://revistacidadesol.blogspot.com Lúcio Jr

          Essa carta foi para o pessoal do PSOL que fica prometendo socialismo e liberdade e revolução refomista pelo voto.

          • http://napraticaateoriaeoutra.org NPTO

            Mas o que, exatamente, impede que, durante essa restrição da liberdade “temporária” a nova elite traia a classe operária e a submeta a um nível de exploração maior do que ela vivia sob a burguesia? Isto é, e se a história da URSS sob Stalin fosse, enfim, o que ela foi?

        • http://napraticaateoriaeoutra.org NPTO

          Acho que as posições do Lúcio são as do PCB. Lúcio, que aqueles velhinhos do PCB não queiram mudar de idéia, a gente entende, mas se você tiver menos de 70 anos, se manda.

          E se tiver mais que 70 para de assinar “Jr.”, né não?

          • http://revistacidadesol.blogspot.com Lúcio Jr

            “NPTO” parece nome de robô em guerra nas estrelas. Minhas posiçoes não são as do pcb, que nesse ponto está mais próximo do PSOL. De forma alguma a tal nova elite conseguirá criar uma democracia pior do que democracia capitalista, pelo próprio motivo de que o socialismo, quando instalado, é ampliação de direitos. Na democracia capitalista, o destino da maioria é e sempre foi a escravidão assalariada. É só a propaganda que permite esconder que qualquer socialismo é melhor do que o capitalismo mais democrático. E se a nova elite se afastar das massas, restaurará o capitalismo.

      • http://revistacidadesol.blogspot.com Lúcio Jr

        Os seguidores de Horthy estiveram envolvidos, sim, se aproveitaram da situaçao.

  • http://ericocordeiro.blogspot.com/ érico cordeiro

    Bem, no frigir dos ovos, temos os escritos de três dos mais celebrados pensadores da direita hodierna, analisados por um dos mais argutos pensadores da esquerda nativa. A resenha em si renova a minha fé (o que é isso, companheiro?) na esquerda e meu ceticismo à própria ambiência democrática da direita, sobretudo no que toca ao risível argumento do Sr. Pondé quanto ao caráter (ou à falta de) dos esquerdistas em geral.
    Não li o livro – e nem pretendo fazê-lo – mas se é isso que a direita tem pra apresentar (claro que por artigos esparsos em jornais e revistas não dá pra saber a que vieram esses senhores), a coisa tá feia pro lado de lá.
    O Pondé é um histrião, uma caricatura de si mesmo, uma espécie mais feia e mais pernóstica do Mainardi. Se Olavão é o nosso eterno “Vilósofo” (ô saudades do Hermenauta), o Pondé é o mais sério candidato a “Vilosofinho” do pedaço.
    O Rosenfeld, como matou a pau o Vinícius, fica nesse eterno “mimimi com o PT e com a esquerda em geral, típico de pessoas que envelhecem e passam a ter menos energia para confrontar o mundo e suas vicissitudes”. Dizer mais o que?
    O Coutinho eu não conheço, mas vou tentar ler alguma coisa.
    Bom, depois de ter uma idéia de porque essas sumidades viraram á direita, escreverei meu próprio livro de um parágrafo, “Porque me mantenho à esquerda”: porque Pondé, Rosenfeld e Coutinho existem.
    Daqui a pouco, na segunda edição, colocam o Villa, o Magnoli (aquele, amigão do Demóstenes) e o Exu da Veja. Cruzes!

  • Luan de Menezes Maia

    Ora, depois de ver certos comentários e me declarar de direita, tenho, no mínimo, o direito de chamar os esquerdistas de preguiçosos. Com uma resenha interessante e boa dessas, não seria difícil pegar o livro para ler. Mas eles não querem ler, só porque é de “direita” (Os contantes “não li e não vou ler” não são comuns só aqui nesse portal). Como se enfrenta um adversário sem conhecê-lo?

    Ótimo texto, Celso. Abraço.

    • http://relances.wordpress.com Vinícius de Melo Justo

      Concordo bastante, mas ressalto duas coisas:

      1) A esquerda não é a única a ter esse tipo de defensor. Todas as correntes têm seus bitolados.

      2) Modalizando um pouco, acho perigoso ler esses caras antes de ler as fontes primárias – Burke, Tocqueville, Mill, Oakeshott, etc. Isso vale também para Marx, Gramsci, Lenin, etc. Noventa por cento dos males vêm da adoção de ideário de segunda mão.

      • Luan de Menezes Maia

        De fato. Tem até um apelido que muitos liberais que leio dão aos noiados Leitores do Olavo de Carvalho, o astrólogo, que é Olavetes. Esses aí não têm cura. Piadas.

        Mas não concordo com esse definição de crítica às obras inspiradas. Foram justamente as fontes primárias que deram origem a segunda. Esse é o modo como os autores a interpretam (se formos pensar, os católicos dão as mesmas desculpas por causa da Bíblia). Se tem demasiado erros nas revisões (ou 90%, como você disse), errado não são os revisionistas, mas sim o próprio objeto de revisão.

        Abraço.

  • Ticão

    É sempre um prazer. Infelizmente um pouco esporádico.

    • http://napraticaateoriaeoutra.org NPTO

      Valeu, Ticão!

  • Bosco

    Precisamos perder tempo e dinheiro lendo o Mainard, Rosenfeld e Pondé (Coutinho é aquele do SFC?) para para conhece-los? Eu perdi tempo e dinheiro lendo alguns e nada a mais me acrescentou. Aliás, nem tive o tesão de concluir a leitura. Apenas tive o meu tempo e o meu dinheiro subtraido. Nunca li um livro do Lula ou da Dilma, e os conheço tanto quanto conheço eles quatro.

  • http://carlosorsi.blogspot.com Carlos

    Uma coisa que me intriga um bocado é a associação constante entre liberalismo econômico/político (o Estado é um mal, talvez até necessário, mas um mal, a ser mantido com guia e focinheira, democracia representativa é uma merda, mas a menos pior, etc.) e conservadorismo social (tradicionalismo, oposição à emancipação das minorias, antilaicismo, etc.). Gente como eu, que é liberal econômico/político mas não conservador social, fica meio perdida, feito cego em tiroteio.

    • http://napraticaateoriaeoutra.org NPTO

      Carlos, é por isso que é comum classificar as pessoas politicamente entre dois eixos, um esquerda-direita e um, digamos, libertário-conservador. Você provavelmente entraria em algum lugar ali no quadrante direita/libertário, onde, aliás, habita muita gente boa.

    • Luan de Menezes Maia

      Você não está só, Carlos. Por isso existem os libertários http://pt.wikipedia.org/wiki/Libertarianismo

      A associação do conservadorismo com o liberalismo vem do processo ideológico comunista, que abominava religiões. Então, tendo a forte influência que a igreja e outras entidades religiosas sempre tiveram num contate direto com o ateísmo de estado de Marx, eles não tiveram escolha a não ser se juntar a ala Liberal econômica.

      Até no conservadorismo dos liberais os socialistas tiveram culpa.

  • http://www.vozdotrovao.wordpress.com Gabriel Cavalcante

    Ótima resenha. Na parte do Coutinho, fiquei com vontade de ler o livro (mesmo não concordando em praticamente nada das posições políticas desse pessoal). Mas o Pondé me desanimou fortemente…
    Belo texto, Celso. Abraços!

    • http://napraticaateoriaeoutra.org NPTO

      Obrigado, Gabriel. Mas mesmo o texto do Pondé, como eu disse acima, tem bons momentos.

  • João Paulo Rodrigues

    Diz bastante da miséria da direita nativa que o melhor texto possa ser de um… português. Não que a esquerda ande bem das pernas, mas o Pondé quer chocar, sem ser tão mal educado e mostrando (bem) mais leituras que o Reinaldo Azevedo. O Rosenfield tem um texto pouco atraente, mas bem que poderia escrever mais.

  • Pedro

    Passo longe da direita, diria que sou um liberal esquerdoso, mas penso que se alguém quiser um bom argumento para virar à direita, nada é melhor do que alguns dos comentários desse artigo.

    Gente de esquerda dizendo que não vale a pena ler autores de direita é algo incrivelmente comum. Raros são os esquerdistas que conhecem autores liberais e conservadores. Já vi um figurão de uma famosa escola de direito paulista que nunca havia ouvido falar de Hayek ou Russel Kirk. Direita, para muitos, é Reinaldo Azevedo, Bush e algum estereótipo de bolso.

    Já entre os conservadores, mesmo os mais raivosos, raros são os que nunca leram os principais autores de esquerda. Dos moderados aos radicais, de Krugman a Zizek, os principais autores de esquerda são conhecidos pelos grandes nomes conservadores.

    Por isso, gosto de ler seus textos desde os tempos do blog. Geralmente, são textos de um esquerdista honesto e alfabetizado. Sem Conversa aFiada.

    • Nelson Cunha

      Estou no melhor dos mundos. Liberal na economia e progressista nos costumes.
      Aos 67 anos fui solidificando esta posição com base em observações pessoais.
      Toda teoria baseada na premissa falsa de que o homem é intrinsecamente bom e pode ser melhorado, fracassa.
      Daí o fracasso das esquerdas em matéria econômica. A direita, ao contrário, joga com os defeitos de caráter do indivíduo – o egoísmo por exemplo – para criar riqueza.
      Sem riqueza não há o que distribuir e se tem, distribui-la aos sem méritos envenena o sistema.
      No Brasil de hoje o que se vê é a confirmação da tese de que no íntimo de um esquerdista se esconde um burguês ávido por dinheiro que o poder lhe dá por vias imundas. Corrupção.
      As teses da esquerda como por exemplo o combate as desigualdades , viram simplesmente cínicas armas eleitorais.

      ” mantenha me no poder para que eu disfrute de uma vida de luxo e prestígio, que eu lhe darei o que comer”

      Arma invensível e assassina das liberdades. Quem vive do outro ao outro pertence. Esta é a esquerda brasileira neste momento.

  • http://scienceblogs.com.br/eccemedicus Karl

    Muito boa a resenha. (Mas, o que é uma resenha boa? As duas últimas que li suas, Celso, não comprei os livros resenhados. Acabei comprando referências dos comentários e outras que vc sugeriu, hehehe)

    Acho que finalmente a direita/conservadora e a direita/libertária começam a estruturar-se. A publicação (e a vendagem) de um livro assim seria impensável há uns 10 anos. Também acho, como alguns comentadores acima, que isso é muito importante ao debate político nacional em momentos de abraços lulo-malufistas…

    E você queimou meu comentário sobre o nazismo de Heidegger, filha da mãe. Sacou Rorty mais rápido. Abraço e obrigado

  • Transeunte

    Cadê o Maoísta??? Ele era o fator comédia sempre presente nos comentários do Celso!

  • http://revistacidadesol.blogspot.com Lúcio Jr

    Meu caro: 56 não foi obra do pessoal de Horthy, mas os nazis de Horthy chegaram a instalar um governo provisório em Gyor. A rebelião em Budapeste foi obra de uma frente anticomunista, que reunia desde os titistas (como Lukács) até os trotsquistas. Mas como consequência ela ia restaurar o capitalismo, isso deveria ter ficado claro.

  • http://revistacidadesol.blogspot.com Lúcio Jr

    Eu sou simpatizante do pcb, mas simpatizo com o Mao e o Stálin.

  • http://www.lituraterre.com Pedro Gabriel

    Prezado Celso, Daniel me passou este link para que eu o lesse e acho que tenho algo a comentar. De minha parte acho profundamente lamentável constatar a que ponto chegou o falatório político atual. Acho particularmente triste ver pessoas credenciadas, dotadas de títulos formais, debatendo questões como crianças disputando um brinquedo ou torcedores discutindo um pênalti. Sua resenha, bem como a maioria dos comentários que a ela se seguem, são inócuos do ponto de vista de uma contribuição efetiva ao debate do tema em questão, sendo, antes de mais nada, a morte deste. O debate político existe para orientar as nossas ações e escolhas de modo que é um imperativo lógico que ele se dê, de maneira ampla e irrestrita, num momento anterior à tomada de decisões ou construção de práticas. Entretanto para que isso ocorra é necessário que hajam questões postas e cada integrante reconheça em si o sintoma de sua própria ignorância (a que existe em você, em mim e em todos os falantes), ou seja, que os problemas elementares não estão resolvidos e que nossa percepção é parcial e enganadora de modo que precisamos ouvir o conjunto dos cidadãos para depurar melhor o que num primeiro momento pode ser um engano de nosso narcisismo onipotente de simplificar questões complexas. Ora, parece que o debate não se faz mais necessário pois não há questões a serem debatidas e tudo se resume a uma escolha de lado. É como se a grande categoria não fosse a razão (a escrutinar e validar o mundo), mas a ideologia. Esse é o grande engodo do debate atual e você lamentavelmente nada acrescenta a isso, ao contrário, do modo como você coloca a coisa toda, tudo se decide num momento lógico anterior ao debate: no momento da escolha de um lado na querela ideológica e que dirá do seu acerto ou erro. Assim, após alguém se decidir quanto ao seu “clube” (se conservador ou progressista) tudo o que será dito não será outra coisa senão defender as cores de seu time. Nada está em questão e todos seriam sectários prontos a refutar ou rebater, desmentir e responder os excessos do outro lado (que por definição nada tem a acrescentar à minha visão visto que ele está além da linha imaginária que distingue os lados) independentemente do que venha dele, o critério não seria a razão, mas a bandeira. Essa é uma concepção muito pobre não só da política ou do diálogo, mas do caráter humano em geral, supondo sempre uma intenção colonizadora em tudo o que se diz. Mesmo você afirmando diversas vezes que aprecia o livro e que ele contribui para o debate, você não pareceu ser capaz de captar a proposta central da publicação, sequer pareceu ter percebido um ponto em comum nos três artigos, a saber, a sugestão de que as categorias tradicionais de “conservador” e “progressista” não são mais aplicáveis ao cenário político brasileiro. Esse é o coração do livro. O próprio governo federal, que se diz de esquerda, é na verdade profundamente liberal e conservador e isso se percebe em sua política econômica, na uniformização ideológica que promove, no aparelhamento de estado e em publicações oficiais do Itamaraty que associam a figura de Lula a Getúlio Vargas. É o que entendo do livro. É o que ele acrescenta ao debate: pôr uma questão (coisa tão rara hoje em dia). É a isso que sua resenha deveria evidencia e responder, com argumentos plausíveis, seja de modo concordante ou contestatório, mas responder ao que é colocado como questão. Você, ao contrário, coloca a coisa como obra previsível de um lado inimigo e já conhecido, algo a que se deve responder como tudo o que vem do outro lado. O livro (por razões diferentes das que você aponta) efetivamente acrescenta ao debate e você ao tratar a coisa em tom jocoso como uma peça publicitária e introdutória do pensamento conservador, desqualificando os autores (como se isso dissolvesse o texto) acaba por colocar a nesses patamares primitivos: em termos de certo ou errado, verdade ou mentira, lado A ou lado B. Não somente não captura o que é efetivamente colocado como questão como também esvazia o debate e o transforma num emaranhado de hipóteses e de achismos que é o que se tornou o debate político atual. O livro não é extraordinário, é apenas bom, sua resenha não. O modo como você propõe uma discussão é pobre, raso e incompatível com suas credenciais.

  • http://relances.wordpress.com Vinícius de Melo Justo

    “Acho particularmente triste ver pessoas credenciadas, dotadas de títulos formais, debatendo questões como crianças disputando um brinquedo ou torcedores discutindo um pênalti.”

    Faltou demonstrar. Nada mais obtuso do que começar um texto invocando a própria autoridade pelo desmerecimento alheio.

    “O debate político existe para orientar as nossas ações e escolhas de modo que é um imperativo lógico que ele se dê, de maneira ampla e irrestrita, num momento anterior à tomada de decisões ou construção de práticas.”

    Aí você já começou a se complicar. Ficou claro que sua compreensão da política é instrumental e sempre anterior à ação – como se um momento fosse impenetrável pelo outro. Ou seja, primeiro discutimos, depois agimos, como se não fosse possível discutir ações em curso ou discutir a própria discussão.

    “Ora, parece que o debate não se faz mais necessário pois não há questões a serem debatidas e tudo se resume a uma escolha de lado.”

    Aqui imagino haver o equívoco natural de tomar os pressupostos do texto (i.e., existência de um campo de esquerda versus um campo de direita, sendo o livro uma tomada de posição a favor do último – bem como filiação do autor da resenha à esquerda) pela conclusão – se é que existe uma conclusão – ou pela opinião imediata do autor. A própria variedade exposta na resenha nas formas de cada um dos três autores do livro exporem e considerarem o conservadorismo (da resenha não se tira que os três estariam “do mesmo lado” em todas as questões) é antídoto suficiente à sua objeção.

    “sequer pareceu ter percebido um ponto em comum nos três artigos, a saber, a sugestão de que as categorias tradicionais de “conservador” e “progressista” não são mais aplicáveis ao cenário político brasileiro. Esse é o coração do livro.”

    Não li o livro e não posso comentar a interpretação. Mas se esse questionamento das categorias tradicionais – que eu, pessoalmente, também faço – é o coração do livro que se chama “Porque virei à direita”, então ocorre uma certa esquizofrenia discursiva que deve ser muito mais interessante do que sua sugestão de que o “novo” do livro é repetir algo que tem sido dito pelo menos desde o começo do governo do PT em âmbito nacional e desde as reformas liberais feitas por social-democratas na década de 80.

    “desqualificando os autores (como se isso dissolvesse o texto)”

    Só se foi no caso do Pondé, concorda? E se o sujeito empresta seu nome a um texto é porque sua pessoa, de alguma forma, é importante para a recepção do texto. Essa crítica fácil de apontar “desqualificação do autor e não do texto” pretende ignorar o evidente: um texto tem pesos diferentes quando escrito por pessoas diferentes. Logo, alguma consideração sobre quem é cada autor (e como tem atuado no debate público) não é apenas necessária, mas é fator inevitável de qualquer análise séria.

    Não gosto de me comportar como bedel e de certa forma é o que fiz aqui. Mas o incômodo foi maior.

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