Curvas e derrapadas

"Por que virei à direita" é uma boa contribuição ao debate político brasileiro.

“Por que virei à direita: Três intelectuais explicam sua opção pelo conservadorismo”, de João Pereira Coutinho, Luiz Felipe Pondé e Denis Rosenfield

1.

Por que virei à direita é a versão brasileira de Why I turned right, coletânea norte-americana em que diversos autores expõem o motivo de suas conversões ao conservadorismo e, no processo, oferecem um interessante painel sobre as diversas e conflitantes vertentes do conservadorismo nos EUA.

Na versão brasileira, os autores reunidos são o colunista português João Pereira Coutinho e os filósofos Luis Felipe Pondé e Denis Rosenfield. Na verdade, só Rosenfield parece ter “virado à direita”, e mesmo isso, como veremos abaixo, tem um sentido particular em seu caso. A crer nos textos, tanto Coutinho como Pondé sempre foram mais ou menos conservadores. Há alguns casos como esses em Why I turned right, mas lá predominam (ou essa foi a impressão que ficou em mim depois da leitura) os casos de gente que começou vagamente de esquerda, se indispôs com alguma manifestação de esquerdismo (tipicamente, na universidade) e mudou de lado. Há, a propósito, uma ênfase maior em argumentos teóricos em Porque virei à direita (em especial nos textos de Coutinho e Pondé) do que em Why I turned right, onde há, tendencialmente, mais autobiografia. Nos dois livros, a ênfase recai sobre a defesa da direita política e/ou cultural. Embora haja sempre a citação protocolar a um hayekzinho aqui e ali, argumentos liberais (no sentido de pró-mercado) aparecem com pouca frequência.

Antes de passar à discussão dos autores, já deixo claro que gostei do livro, que desempenha seu papel de levantar bem as questões que o bom conservadorismo levanta: os limites da razão na vida política, o valor do hábito e da tradição, a crítica das utopias, etc. Trata-se, sem dúvida, de uma boa contribuição ao debate político brasileiro.

2.

O ensaio de João Pereira Coutinho subverteu minhas expectativas: é bastante bom. Não que eu esperasse que fosse horrendo, mas minha impressão, a partir de seus artigos na Folha, era a de um autor pouco criativo: você vê qual o tema da coluna, chuta mais ou menos qual seria uma posição de direita a respeito do tema, vai lá checar, descobre que foi isso mesmo o que o Coutinho escreveu (desnecessário dizer, há dúzias de colunistas esquerdistas que também são assim). Talvez o texto de Coutinho tenha me agradado porque ele reflete meu tipo favorito de conservador: um Tory.

Coutinho, sabiamente, joga pelo lado em que o conservadorismo é forte, na crítica do racionalismo na política. Começa sugerindo que se deixe a conversa sobre esquerda e direita para depois, e propõe um debate mais aprofundado sobre a política moderna, em que começa a enfileirar seu instrumental teórico, que é, diga-se de passagem, de excelente qualidade: a distinção de Oakeshott entre “política de fé” (que acredita na possibilidade do Estado atuar na busca pela perfeição humana) e “política do ceticismo” (onde o Estado é apenas necessário para garantir que os indivíduos possam ter a expectativa de perseguirem seus objetivos pessoais); a crítica de Isaiah Berlin às utopias políticas, que buscam uma reconciliação final entre valores que só podem dialogar, sem nunca se “resolverem” (ou se tem liberdade absoluta ou segurança absoluta; ou igualdade absoluta ou meritocracia absoluta, etc.); o argumento irrefutável de Hayek segundo o qual nem o Estado nem ninguém conseguiria reunir o conhecimento necessário à completa gestão da economia; e, é claro, a crítica de Burke aos revolucionários franceses e sua tendência a fugir da “dificuldade”, da complexidade e da diversidade da realidade, buscando enquadrá-la em um esquema simplificador e, diante do inevitável fracasso de seus esforços, procurar aparar as arestas de maneira cada vez mais violenta. Pelo contrário, argumenta Coutinho, “reformar é estudar”.

O problema é que, se um esquerdista como eu consegue concordar com boa parte desses argumentos, é porque eles não distinguem bem direita e esquerda, a não ser que por esquerda se entenda apenas o bolchevismo e suas variantes. John Quiggin, do Crooked Timber, já listou as três grandes coisas que os progressistas devem aprender com os conservadores (os melhores momentos de Burke, Popper e Hayek). A passagem necessária à distinção seria brandir não o Hayek da crítica ao planejamento central (que os socialdemocratas, com algum mau humor, aceitam), mas o Hayek do Caminho da servidão, onde o autor austríaco faz suas previsões alarmistas (e, até agora, evidentemente falsificadas) sobre o viés totalitário do welfare state. Ou defender algo como a “flat tax”, a desregulamentação radical do mercado de trabalho, enfim, algo nessa linha.

Para finalmente marcar sua posição, Coutinho recorre ao “princípio de retificação” de Steve Lukes, segundo o qual as desigualdades naturais ou artificiais entre os seres humanos devem ser retificadas; e à sugestão, pelo mesmo autor, de que esquerda e direita se diferenciam pelo grau maior ou menor de adesão a esse princípio. Coutinho aceita a definição, enfatizando, entretanto, que o welfare state europeu também foi obra de políticos conservadores (o que é fato: mas a pressão pelo welfare sempre foi da base social da esquerda, como a direita sempre nos lembra quando o welfare state emperra). Aqui é que o argumento do ceticismo se encaixa com a virada para a direita. A direita é, justamente, mais cética do que a esquerda quanto à possibilidade dessa retificação pelo Estado dar certo. Imagino que Coutinho não esteja dizendo que nunca vai dar: mas, diante de uma proposta nesse sentido, um direitista vai pedir mais evidências do que um esquerdista (que, podemos supor, manifestará seu ceticismo em outras questões).

Coutinho termina defendendo a pertinência desse tipo de ceticismo quanto ao Estado no momento em que Portugal vive uma crise profunda, em parte causada por excessos fiscais (em uma cultura excessivamente estatista). Se bem me lembro do Krugman, a crise em Portugal é mais difícil de explicar do que a dos países em que o Estado claramente tem culpa (como a Grécia) e países em que a origem da crise não é absolutamente fiscal (como a Espanha). É possível que alguma reforma à direita seja necessária em Portugal no médio prazo, mas, visto que Coutinho não diz especificamente quais ele defende, não é fácil saber se ele tem razão.

O que é mais interessante no texto de Coutinho é que, escrevendo da Europa (ainda que de uma de suas democracias mais jovens), o autor dá de barato que direita e esquerda são fenômenos complementares e necessários a uma democracia moderna. Não lhe passa pela cabeça sugerir que a esquerda seja uma anomalia ou algo estranho à democracia. Da mesma forma, em Why I turned right vários autores — aliás, são muito mais conservadores que Coutinho — admitem francamente que deve haver um partido da ordem e um partido da mudança, ou que a direita pós-Reagan aproveitou o fato de que várias das tarefas da esquerda moderada já haviam sido realizadas. Em democracias maduras, não ocorreria a ninguém respeitável dizer o contrário.

Infelizmente, como o texto seguinte da coletânea prova cabalmente, a democracia brasileira ainda não é madura e/ou Luiz Felipe Pondé não é respeitável.

3.

O texto de Pondé também me surpreendeu positivamente, mas porque minhas expectativas eram baixíssimas. Baseado em seus últimos textos para a Folha, qualquer coisa que não fosse a foto do autor na posição “olá, marujo!” já me pareceria razoável.

Se Coutinho sugere ter chegado ao conservadorismo intelectualmente, através de sua formação acadêmica, Pondé indica que seu temperamento, sua natureza, ou como quer que se chame o trágico acidente, o empurrou irremediavelmente para o conservadorismo. No texto de Pondé há mais do elemento autobiográfico tão comum em Why I turned right, mas ele, por vezes, é bastante forçado: o jovem Pondé, desde cedo desconfiando que “posições de esquerda ocultam problemas de caráter” (p. 56), parece em tudo ser uma personagem criada pelo velho Pondé tentando parecer “politicamente incorreto” desde sempre. Por exemplo: trabalhando em uma companhia de teatro quando jovem, Pondé aprendeu que os seres humanos não são iguais em talento e esforço, e os menos capazes se aproveitam dos mais capazes, como dizia Ayn Rand. Sou capaz de apostar que os outros atores descobriram o que quer dizer “Prima Donna”. Em um dado momento, Pondé vai morar em um kibutz israelense; mas esse contato com uma experiência altamente coletivista não mereceu qualquer comentário (em Why I turned right, é o elemento central de uma das narrativas). Na USP, por já trabalhar e já ter família, acha seus colegas excessivamente infantis. Desenvolve intenso desprezo pelo mundo acadêmico. Daqui no texto em diante, mais ou menos, começa a listar pequenos resumos dos autores conservadores que o influenciaram.

E aí é que se vê que Pondé não é burro, de jeito nenhum. No trecho sobre Hume, ele relaciona o ceticismo com o conservadorismo de maneira bem mais forte do que Coutinho, introduzindo o respeito pelo hábito (e pela tradição) como reconhecimento de que, dados os limites de nossa razão, algum viés favorável ao que, até agora, mais ou menos garantiu nossa sobrevivência em um universo caótico é, provavelmente, saudável. Seus argumentos a esse respeito são consistentes, e uma ótima contribuição à discussão. Seus comentários sobre psicanálise e marxismo, por respeitosos, destoam da linha geral do artigo.

Mas o texto é fatalmente comprometido pela evidente incapacidade de se incomodar com as dificuldades de conciliação entre o peso das considerações existenciais que fazem os autores de sua predileção e a leveza, a superficialidade e o extremo esforço de simplificação que é a cultura do “politicamente incorreto”. Ao contrário do velho conservadorismo, que impõe limites severos ao que seus adeptos podem considerar certezas, o politicamente incorreto é o conservadorismo da preguiça intelectual e moral, cujo princípio fundamental é que você não é obrigado a mudar um único preconceito seu. O politicamente incorreto é, não o ceticismo do cara que faz um imenso esforço intelectual para se livrar de certezas confortáveis (inclusive, mas não só, as de esquerda), mas a convicção de que, seja o que você for no momento, se não deixar seu patrão chateado, não te fizer perder dinheiro, só incomodar quem já estiver ferrado e servir para animar festa, está excelente. É obviamente legítimo que os conservadores critiquem os excessos do politicamente correto em defesa, no final das contas, do direito dos seres humanos serem imperfeitos, e na constatação de que todo esquema de correção também será imperfeito. É completamente diferente um autor conservador tentar ganhar a vida chocando os outros com seus preconceitos.

Afinal, só a vontade de chocar pode justificar que se cite Ayn Rand no mesmo texto em que se discute Michael Oakeshott. Ayn Rand foi uma exilada russa que usou o instrumental estético do realismo socialista, trocando as personagens: no lugar do operário com físico de deus grego tomando de assalto a História, entrou o burguês indomável se negando a pagar imposto de renda para resistir ao Estado. Após páginas e páginas sobre o ceticismo, é engraçado ver Pondé aderindo às teses de Rand com o entusiasmo de uma fã de Justin Bieber, mas o efeito do desastre é educativo: mostra o risco do ceticismo conservador (quando não é aplicado com inteligência) se transformar em romantização do que já é, da aceitação de que os vencedores atuais certamente devem ter vencido por boas razões, e de que qualquer crítica ao que existe deve ser motivada por inveja, imaturidade ou qualquer outra patologia. Naturalmente, a reação do Pondé ao sucesso de acadêmicos de esquerda, ou aos sucessos eleitorais do PT, não se deve a inveja, ressentimento, ou nada dessa natureza, porque é óbvio que nenhum dos dois reflete qualquer espécie de mérito.

É provável reflexo da imaturidade do debate brasileiro que Pondé volta e meia precise argumentar que sua posição política é uma questão de caráter, ou, mais especificamente, da ausência da referida substância entre os esquerdistas. Em um certo momento diz que “a modernidade faria uma opção por negar as misérias humanas em favor de nossa vaidade. A esquerda é o nome dessa opção”. A ofensa é gratuita e torna o argumento estranho: a modernidade é de esquerda? É isso mesmo, Pondé, posso colocar a democracia, os direitos humanos, o cosmopolitismo, o progresso tecnológico, todos na conta da esquerda? Pô, valeu. Na página 76 temos outra menção ao traço “mau caráter” da esquerda. Como todos vocês já esperavam que ele fosse fazer, Pondé argumenta que chegou a essas conclusões empiricamente, isto é, simplesmente verificando que o mundo é assim. E lá se vai o ceticismo pela janela. No fim das contas, Pondé prefere ser Rush Limbaugh a David Hume, Rafinha Bastos ao invés de Burke. Não é possível que alguém que cultive a dúvida saudável simplesmente postule que os que dele discordam o fazem por mau-caratismo. E, como não poderia deixar de ser, esse tantrum todo se dá em meio a acusações de que o outro lado é que não quer amadurecer.

Agora, tudo isso eu aguentava. O que realmente me irritou no texto do Pondé é sua afirmação de que, no fundo, pensa como um britânico (p. 81). Não sou britânico, não penso como britânico, mas respeito o suficiente a cultura britânica para defendê-la da acusação. Não saberia como começar a explicar o imenso número de maneiras em que Pondé não pensa como um britânico. Mas talvez baste lembrar um velho artigo da The Economist em que o humor inglês era definido pela sua combinação precisa entre alta sofisticação e franca vulgaridade. O episódio citado pela revista é um em que Churchill mijava no banheiro da Câmara dos Comuns, quando entrou o primeiro-ministro trabalhista, Churchill escondeu o pinto, o trabalhista perguntou “Tá com vergonha aí, Winston?”, e ele respondeu “Não, é que você quando vê um negócio grande quer logo estatizar”. Eis um exemplo de combinação bem feita entre sofisticação e vulgaridade. Por outro lado, a sobreposição de fichamentos de Pascal com “toda mulher quer ser puta” não é.

4.

Devo dizer que me decepcionei um pouco com o texto de Denis Rosenfield. Embora Rosenfield talvez seja o autor de melhores credenciais acadêmicas entre os três (conheço muita gente boa que respeita seus trabalhos sobre Hegel), seu texto é o menos acadêmico de todos. Há alguma coisa liberal bem básica usando Hobbes a certa altura, tem as críticas mais ou menos usuais ao marxismo (Rosenfield certamente conhece críticas mais sofisticadas e na mosca), uma aproximação entre Arendt e Hayek que só faz sentido se você aceitar o argumento de O caminho da servidão de que o welfare state de algum jeito não muito claro viraria totalitarismo (quando, suponho, entraríamos em território Arendt), mas Rosenfield não oferece argumentos suficientes em defesa dessa tese. Tinha uma certa esperança de que Rosenfield descrevesse um caminho até a direita liberal passando pelo Hegel, ou qualquer outro autor que ele conhecesse melhor, mas saí do texto frustrado.

Além dessa discussão teórica incipiente, o texto se organiza em torno de duas histórias e de uma discussão sobre o PT.

A primeira história abre o texto, e é sobre como Rosenfield e Castoriadis foram convidados pela prefeitura de Porto Alegre para uma reunião de elaboração do Orçamento Participativo. Rosenfield se lembra de uma senhora humilde reivindicando melhorias para seu bairro, de como teve a impressão de que a reivindicação era sincera e livre de qualquer manipulação partidária, e de como Castoriadis saiu dali tão entusiasmado que comparou a experiência com a dos conselhos que surgiram durante a revolução húngara de 1956. Mais adiante, Rosenfield nos conta como, anos depois, viu o OP se tornar um espaço em que só participavam militantes da máquina partidária petista. Sugere, então, que aconteceu com o OP a mesma coisa que aconteceu com os conselhos húngaros, esmagados pela invasão soviética.

A analogia parece, de cara, insustentável, porque exigiria que, na Hungria, os próprios revolucionários húngaros tivessem feito alguma besteira que tivesse levado à burocratização do OP; ou que a “lei de ferro da oligarquia” de Michels tivesse operado. Mas é difícil até mesmo saber em que ela se baseia, porque em nenhum momento Rosenfield nos oferece uma análise do que, exatamente, aconteceu no OP: os militantes não-partidários foram expulsos ou se desmobilizaram por algum motivo? Os militantes partidários invadiram os conselhos ou preencheram um vácuo? Uma amiga minha que conheceu de perto uma tentativa de implementação de OP em outra cidade governada pelo PT me sugeriu que o OP só funcionaria onde a mobilização popular intensa precedesse a constituição dos espaços institucionais; se eles viessem antes, a captura por interesses partidários e/ou corruptos seria difícil de resistir. Foi isso que aconteceu em Porto Alegre? Não esperem uma explicação do Rosenfield. Mas a especificação do mecanismo da decadência do OP é fundamental para seu argumento. Caso se trate de Lei de Michels, o PT é mais um caso de reformismo fracassado tentando implementar um espaço de democracia direta (e a atitude correta é “boa sorte na próxima tentativa”). Se for qualquer coisa menos que “o serviço secreto cubano prendeu as donas de casa que iam lá pedir calçamento de ruas”, a comparação com a Hungria é apenas desvalorização do sofrimento dos heróis de 56.

A segunda história é a seguinte. Uma vez, na França, Rosenfield se interessou pelo debate a respeito do nazismo de Heidegger: como foi possível que um pensador daquela estatura se convertesse a uma causa tão repugnante? Discutindo isso com um de seus professores (comunista histórico), ouviu dele a história de que um conhecido seu havia lutado como voluntário na guerra civil espanhola, onde fez amizade com um outro militante comunista. Guerra perdida, cada um recebeu uma nova missão do partido, e perderam contato. Após a Ocupação, o amigo do professor se uniu à Resistência Francesa e, um dia, recebeu a ordem para matar um oficial nazista. Emboscou o sujeito e, quando viu seu rosto, percebeu que se tratava de seu velho amigo da guerra civil espanhola. Ficou em dúvida: será que ele está infiltrado e ainda é comunista? Será que traiu seus velhos princípios? Mas, pelo sim, pelo não, matou o sujeito. Ao fim da história, o professor de Rosenfield lhe fez um apelo para que levasse em conta a complexidade das escolhas políticas individuais, em especial em contextos particularmente difíceis.

É uma boa história, mas se aplica igualmente aos velhos militantes comunistas, não? Ou Rosenfield está querendo reestabelecer o direito de ler autores de direita que apoiaram regimes totalitários (direito que, a propósito, considero indiscutível)? Ao menos para esse resenhista, não ficou claro o que a história está fazendo no texto.

Finalmente, há críticas mais familiares à política externa do governo Lula e a seu suposto interesse em controlar os meios de comunicação (“suposto” aqui só indica que a afirmativa não é justificada no texto, parte-se dela como dado), com a ressalva de que algumas dessas tendências foram amenizadas durante o governo Dilma. A isso somam-se alguns parágrafos de críticas comuns ao governo Lula. Algumas dessas críticas são boas (as direcionadas aos resquícios bolcheviques dos petistas são as melhores), outras não, mas, no contexto da obra, salta aos olhos que nenhuma delas, por si, justifica uma virada à direita — a menos, é claro, que se esteja partindo do leninismo. Fiquei com a impressão de que todas as melhores críticas de Rosenfield poderiam ter sido feitas pelo Ruy Fausto, por exemplo. Há bons momentos no texto, mas a impressão é que a falta de estrutura reflete um autor cuja conversão ideológica ainda é algo confusa.

5.

Enfim, um bom livro. Talvez seja mais voltado para os já convertidos, mas isso, em si, não é um problema (nem todo livro é escrito pra mim). Se você não conhece o pensamento conservador, pode ser um bom ponto de partida, mas não se entusiasme com o quanto vai parecer fácil refutar o Pondé. Se já se interessa por essa tradição de pensamento (que produziu coisas de inegável qualidade, e é um dos pilares de nossa cultura), talvez não veja aqui grandes novidades, mas vai ver no Coutinho uma boa defesa das coisas em que você acredita, no Rosenfield algumas aplicações desses princípios à discussão brasileira, e no Pondé um saudável antídoto a seu eventual excesso de convicção.

::: Por que virei à direita :::
::: João Pereira Coutinho, Luiz Felipe Pondé, Denis Rosenfield :::
::: Três Estrelas, 2012, 112 páginas :::
::: compre na Livraria Cultura :::

——
PS: já que estamos no assunto, aproveito para recomendar o livro do Andrew Sullivan sobre o conservadorismo, The conservative soul.

PSTU: no texto do Rosenfield, após uma crítica à tendência dos intelectuais franceses em incentivarem soluções radicais no país dos outros, permanecendo bem moderados em suas escolhas domésticas, o autor faz menção ao fato de que alguns formuladores da política externa do Lula foram formados por autores franceses (p. 100). Me parece uma crítica ao Marco Aurélio Garcia, mas, pelamordedeus, por que não criticar abertamente? Vamos debater aí, gente.

PSTUdoB: na história do Rosenfield sobre o Castoriadis, ele conta que o velho Casta apoiava, dentro da esquerda francesa, o moderado Rocard, porque ele “sabia fazer conta”. Me lembrei que o Castoriadis uma vez acusou o socialismo real de não ter solucionado “um problema já resolvido pelos antigos fenícios, o de como harmonizar oferta e procura”. Clássico.

PSOL: sobre o nazismo do Heidegger, não deixem de ler o Rorty. Não sei se ele tem razão, mas acho esse texto um antídoto contra os que querem ver reflexos muito próximos entre a obra de um autor e suas tomadas de posição política (e é magnificamente bem escrito).

PPS#sussa: menção honrosa à introdução de Marcelo Consentino, que não conhecia.

PEN: no espírito de, como no carnaval, descontar as piores notas no cômputo geral, deixei de lado as divagações de Consentino e Coutinho a respeito do significado antropológico de “direita”. Muita gente associa “direita” ao certo, ao hábil, porque a maior parte das pessoas é destra, não? Para os canhotos, a esquerda é que tem, digamos, destreza. Enfim.

  • http://relances.wordpress.com Vinícius de Melo Justo

    Ótima resenha. Partamos para os possíveis pontos cegos, visto que não li o livro:

    – de fato, impressiona-me “virei à esquerda” no caso dos dois primeiros. No caso do terceiro (Rosenfield), parece-me mais um mimimi com o PT e com a esquerda em geral, típico de pessoas que envelhecem e passam a ter menos energia para confrontar o mundo e suas vicissitudes. Isso também acontece com acadêmicos em geral, conformados com o status quo. Algo que faltou, mas talvez eu esteja sendo injusto com o objetivo do livro, está em ter uma visão mais clara dos defeitos possíveis da direita abordados ou não no livro. Não espero isso do Pondé, é claro, ele está só de macaqueação. Mas do Rosenfield (que seria um convertido) e do Coutinho eu espero.

    – outra coisa que parece pouco presente é o debate nacional. Por que faltam alternativas políticas à direita no panorama político brasileiro (e quando elas surgem vêm de contrabando em outros setores, como PSDB)? Para mim uma análise sobre “virar à direita” passa também por avaliar essas opções do cenário nacional. Nos anos 50 estava tudo um pouco turvo, mas havia claramente tendências manifestas. E hoje, como posicionar-se? Ou a direita virou apenas uma trincheira de intelectuais (ou quase isso) que posam de meninos maus da mídia?

    – por fim, em um assunto que diz respeito direto às minhas concepções, como fica a definição de esquerda ou direita nesse painel? Coutinho parece apresentar melhor isso, ao associar a desconfiança do papel do Estado na minoração dos problemas à direita. But this is hardly the whole truth. Ainda mais quando a questão leva a uma eventual substituição dos termos pelos quais se dá o Estado e como ele será no futuro.

    Como conversei com o Daniel Lopes por e-mail, o que me parece nesses colunistas de jornal acadêmicos (incluindo Safatle) que se posicionam é que lhes falta desenvolver algo vital para suas pretensões de apresentar um debate ideológico: uma concepção clara de teoria política normativa. Sem isso (e parece que Coutinho esboça, o que é louvável – não à toa, é o único não brasileiro) os termos todos correm o risco de girar em falso para quem não é das panelas esquerda, direita, etc. É como sinto o debate ideológico no país.

    • http://napraticaateoriaeoutra.org NPTO

      Valeu, Vinícius.

      Acho que o tom do Rosenfield às vezes é mesmo mimimi, mas os pontos que ele levanta são válidos (mesmo que deles discordemos).

      Concordo inteiramente com você que faltou debate sobre a direita política brasileira. Supondo que o leitor concorde com os autores, o que ele faz, politicamente? Forma um partido, vota no PSDB, no DEM, no PSD? É claro que o Coutinho não tem obrigação de dar opinião sobre política brasileira, mas o Pondé e o Rosenfield poderiam contribuir para a discussão.

  • http://suspensao.blog.br/juizo Adam

    Ok, nem terminei de ler ainda, este não é o comentário que pretendo fazer, mas urge-me perguntar: o que é a posição “olá, marujo”?

    • http://www.facebook.com/daniel.the Daniel

      é o Pondé sempre fumando seu baseado.

    • http://napraticaateoriaeoutra.org NPTO

      É uma respeitosa saudação a um indômito desbravador dos mares.

  • aiaiai

    ainda bem q vc tem paciência pra ler essas coisas e talento pra contar pra gente. Eu não leria nem a orelha desse livro. #prontofalei.

    PSiu: a sequência de PSs tá cada vez melhor.

    • http://napraticaateoriaeoutra.org NPTO

      Valeu, aiaiai, mas sempre é bom ler um cara diferente.

  • http://revistacidadesol.blogspot.com Lúcio Jr

    Só falta vc se lembrar que na Hungria em 56 tb havia, lutando junto aos “zeróis” de 56, os nazis de Horthy.

    • http://napraticaateoriaeoutra.org NPTO

      Pô, rapaz, é isso mesmo, você acha que a revolta de 56 foi coisa dos seguidores do Horthy? A essa altura do campeonato você ainda acha isso? Porra, que desânimo. Quantos anos você tem? Se for mais que 16 ou menos que 90, tá difícil a coisa.

      • Vinícius de Melo Justo

        E é nessa hora que aproveito para perguntar: algum bom (bom mesmo) livro sobre 56?

        • http://revistacidadesol.blogspot.com Lúcio Jr

          A Contrra-Revolução de Veludo, de Ludo Martens. Vc pode encontrá-lo em comunidadestalin.blogspot.com

          • http://napraticaateoriaeoutra.org NPTO

            Martens é o cara da Bélgica que escreveu um livro sobre o Stalin, não é? Vi na Travessa uma vez, dei uma olhada, pareceu meio que reprodução da versão oficial pré-Kruschev.

            E o que é essa comunidade stalin, Meu Deus? Olhei lá e tem um link “evidências da colaboração de Trotsky com a Alemanha”. Lúcio, nem os stalinistas acreditam mais nisso, eu acho.

            Você é do PCB? Bicho, sai dessa.

            • http://revistacidadesol.blogspot.com Lúcio Jr

              Essa pesquisa do Furr sobre Trotsky é recente, é de 2009. O Brasil não conhece, mas estou traduzindo. No futuro vc ouvirá falar nela. Abs!

        • http://napraticaateoriaeoutra.org NPTO

          Tem um que eu estou esperando sair para o Kindle para comprar:

          http://www.amazon.com/gp/product/030727795X/ref=s9_simh_gw_p14_d2_g14_i1?pf_rd_m=ATVPDKIKX0DER&pf_rd_s=center-2&pf_rd_r=0D63XX832PN02JQBVRP1&pf_rd_t=101&pf_rd_p=470938631&pf_rd_i=507846

          Eu gosto da história da Europa Central e Oriental do Ivan Berend. Mas vou ficar te devendo algum que seja mais assim com cara de definitivo.

      • http://www.colbertreport.com GRG

        NPTO, chegaste a entrar no site do cara?

        “Quando houver a revoluçaõ, será preciso um terror contra os reacionários que será como o terror que destruiu Sodoma e Gomorra, que deveria ter existido para arrebentar os contras na Nicarágua, para depois estabelecer a legalidade socialista como em Cuba. Violência revolucionária como a das Farc, como a de padre Camilo Torres na Colômbia”.

        Se nego passa perto de mim na rua, capaz de morder.

        • http://revistacidadesol.blogspot.com Lúcio Jr

          É, mas eu seria falso se prometesse socialismo e liberdade. Quando há socialismo, em geral há guerra, e na existência de guerra fica difícil haver liberdade.

          • Pablo Vilarnovo

            “É, mas eu seria falso se prometesse socialismo e liberdade. Quando há socialismo, em geral há guerra, e na existência de guerra fica difícil haver liberdade.”

            Opa! Pelo menos um socialista aqui fala a verdade!! rsrsrs

        • http://revistacidadesol.blogspot.com Lúcio Jr

          Essa carta foi para o pessoal do PSOL que fica prometendo socialismo e liberdade e revolução refomista pelo voto.

          • http://napraticaateoriaeoutra.org NPTO

            Mas o que, exatamente, impede que, durante essa restrição da liberdade “temporária” a nova elite traia a classe operária e a submeta a um nível de exploração maior do que ela vivia sob a burguesia? Isto é, e se a história da URSS sob Stalin fosse, enfim, o que ela foi?

        • http://napraticaateoriaeoutra.org NPTO

          Acho que as posições do Lúcio são as do PCB. Lúcio, que aqueles velhinhos do PCB não queiram mudar de idéia, a gente entende, mas se você tiver menos de 70 anos, se manda.

          E se tiver mais que 70 para de assinar “Jr.”, né não?

          • http://revistacidadesol.blogspot.com Lúcio Jr

            “NPTO” parece nome de robô em guerra nas estrelas. Minhas posiçoes não são as do pcb, que nesse ponto está mais próximo do PSOL. De forma alguma a tal nova elite conseguirá criar uma democracia pior do que democracia capitalista, pelo próprio motivo de que o socialismo, quando instalado, é ampliação de direitos. Na democracia capitalista, o destino da maioria é e sempre foi a escravidão assalariada. É só a propaganda que permite esconder que qualquer socialismo é melhor do que o capitalismo mais democrático. E se a nova elite se afastar das massas, restaurará o capitalismo.

      • http://revistacidadesol.blogspot.com Lúcio Jr

        Os seguidores de Horthy estiveram envolvidos, sim, se aproveitaram da situaçao.

  • http://ericocordeiro.blogspot.com/ érico cordeiro

    Bem, no frigir dos ovos, temos os escritos de três dos mais celebrados pensadores da direita hodierna, analisados por um dos mais argutos pensadores da esquerda nativa. A resenha em si renova a minha fé (o que é isso, companheiro?) na esquerda e meu ceticismo à própria ambiência democrática da direita, sobretudo no que toca ao risível argumento do Sr. Pondé quanto ao caráter (ou à falta de) dos esquerdistas em geral.
    Não li o livro – e nem pretendo fazê-lo – mas se é isso que a direita tem pra apresentar (claro que por artigos esparsos em jornais e revistas não dá pra saber a que vieram esses senhores), a coisa tá feia pro lado de lá.
    O Pondé é um histrião, uma caricatura de si mesmo, uma espécie mais feia e mais pernóstica do Mainardi. Se Olavão é o nosso eterno “Vilósofo” (ô saudades do Hermenauta), o Pondé é o mais sério candidato a “Vilosofinho” do pedaço.
    O Rosenfeld, como matou a pau o Vinícius, fica nesse eterno “mimimi com o PT e com a esquerda em geral, típico de pessoas que envelhecem e passam a ter menos energia para confrontar o mundo e suas vicissitudes”. Dizer mais o que?
    O Coutinho eu não conheço, mas vou tentar ler alguma coisa.
    Bom, depois de ter uma idéia de porque essas sumidades viraram á direita, escreverei meu próprio livro de um parágrafo, “Porque me mantenho à esquerda”: porque Pondé, Rosenfeld e Coutinho existem.
    Daqui a pouco, na segunda edição, colocam o Villa, o Magnoli (aquele, amigão do Demóstenes) e o Exu da Veja. Cruzes!

  • Luan de Menezes Maia

    Ora, depois de ver certos comentários e me declarar de direita, tenho, no mínimo, o direito de chamar os esquerdistas de preguiçosos. Com uma resenha interessante e boa dessas, não seria difícil pegar o livro para ler. Mas eles não querem ler, só porque é de “direita” (Os contantes “não li e não vou ler” não são comuns só aqui nesse portal). Como se enfrenta um adversário sem conhecê-lo?

    Ótimo texto, Celso. Abraço.

    • http://relances.wordpress.com Vinícius de Melo Justo

      Concordo bastante, mas ressalto duas coisas:

      1) A esquerda não é a única a ter esse tipo de defensor. Todas as correntes têm seus bitolados.

      2) Modalizando um pouco, acho perigoso ler esses caras antes de ler as fontes primárias – Burke, Tocqueville, Mill, Oakeshott, etc. Isso vale também para Marx, Gramsci, Lenin, etc. Noventa por cento dos males vêm da adoção de ideário de segunda mão.

      • Luan de Menezes Maia

        De fato. Tem até um apelido que muitos liberais que leio dão aos noiados Leitores do Olavo de Carvalho, o astrólogo, que é Olavetes. Esses aí não têm cura. Piadas.

        Mas não concordo com esse definição de crítica às obras inspiradas. Foram justamente as fontes primárias que deram origem a segunda. Esse é o modo como os autores a interpretam (se formos pensar, os católicos dão as mesmas desculpas por causa da Bíblia). Se tem demasiado erros nas revisões (ou 90%, como você disse), errado não são os revisionistas, mas sim o próprio objeto de revisão.

        Abraço.

  • Ticão

    É sempre um prazer. Infelizmente um pouco esporádico.

    • http://napraticaateoriaeoutra.org NPTO

      Valeu, Ticão!

  • Bosco

    Precisamos perder tempo e dinheiro lendo o Mainard, Rosenfeld e Pondé (Coutinho é aquele do SFC?) para para conhece-los? Eu perdi tempo e dinheiro lendo alguns e nada a mais me acrescentou. Aliás, nem tive o tesão de concluir a leitura. Apenas tive o meu tempo e o meu dinheiro subtraido. Nunca li um livro do Lula ou da Dilma, e os conheço tanto quanto conheço eles quatro.

  • http://carlosorsi.blogspot.com Carlos

    Uma coisa que me intriga um bocado é a associação constante entre liberalismo econômico/político (o Estado é um mal, talvez até necessário, mas um mal, a ser mantido com guia e focinheira, democracia representativa é uma merda, mas a menos pior, etc.) e conservadorismo social (tradicionalismo, oposição à emancipação das minorias, antilaicismo, etc.). Gente como eu, que é liberal econômico/político mas não conservador social, fica meio perdida, feito cego em tiroteio.

    • http://napraticaateoriaeoutra.org NPTO

      Carlos, é por isso que é comum classificar as pessoas politicamente entre dois eixos, um esquerda-direita e um, digamos, libertário-conservador. Você provavelmente entraria em algum lugar ali no quadrante direita/libertário, onde, aliás, habita muita gente boa.

    • Luan de Menezes Maia

      Você não está só, Carlos. Por isso existem os libertários http://pt.wikipedia.org/wiki/Libertarianismo

      A associação do conservadorismo com o liberalismo vem do processo ideológico comunista, que abominava religiões. Então, tendo a forte influência que a igreja e outras entidades religiosas sempre tiveram num contate direto com o ateísmo de estado de Marx, eles não tiveram escolha a não ser se juntar a ala Liberal econômica.

      Até no conservadorismo dos liberais os socialistas tiveram culpa.

  • http://www.vozdotrovao.wordpress.com Gabriel Cavalcante

    Ótima resenha. Na parte do Coutinho, fiquei com vontade de ler o livro (mesmo não concordando em praticamente nada das posições políticas desse pessoal). Mas o Pondé me desanimou fortemente…
    Belo texto, Celso. Abraços!

    • http://napraticaateoriaeoutra.org NPTO

      Obrigado, Gabriel. Mas mesmo o texto do Pondé, como eu disse acima, tem bons momentos.

  • João Paulo Rodrigues

    Diz bastante da miséria da direita nativa que o melhor texto possa ser de um… português. Não que a esquerda ande bem das pernas, mas o Pondé quer chocar, sem ser tão mal educado e mostrando (bem) mais leituras que o Reinaldo Azevedo. O Rosenfield tem um texto pouco atraente, mas bem que poderia escrever mais.

  • Pedro

    Passo longe da direita, diria que sou um liberal esquerdoso, mas penso que se alguém quiser um bom argumento para virar à direita, nada é melhor do que alguns dos comentários desse artigo.

    Gente de esquerda dizendo que não vale a pena ler autores de direita é algo incrivelmente comum. Raros são os esquerdistas que conhecem autores liberais e conservadores. Já vi um figurão de uma famosa escola de direito paulista que nunca havia ouvido falar de Hayek ou Russel Kirk. Direita, para muitos, é Reinaldo Azevedo, Bush e algum estereótipo de bolso.

    Já entre os conservadores, mesmo os mais raivosos, raros são os que nunca leram os principais autores de esquerda. Dos moderados aos radicais, de Krugman a Zizek, os principais autores de esquerda são conhecidos pelos grandes nomes conservadores.

    Por isso, gosto de ler seus textos desde os tempos do blog. Geralmente, são textos de um esquerdista honesto e alfabetizado. Sem Conversa aFiada.

  • http://scienceblogs.com.br/eccemedicus Karl

    Muito boa a resenha. (Mas, o que é uma resenha boa? As duas últimas que li suas, Celso, não comprei os livros resenhados. Acabei comprando referências dos comentários e outras que vc sugeriu, hehehe)

    Acho que finalmente a direita/conservadora e a direita/libertária começam a estruturar-se. A publicação (e a vendagem) de um livro assim seria impensável há uns 10 anos. Também acho, como alguns comentadores acima, que isso é muito importante ao debate político nacional em momentos de abraços lulo-malufistas…

    E você queimou meu comentário sobre o nazismo de Heidegger, filha da mãe. Sacou Rorty mais rápido. Abraço e obrigado

  • Transeunte

    Cadê o Maoísta??? Ele era o fator comédia sempre presente nos comentários do Celso!

  • http://revistacidadesol.blogspot.com Lúcio Jr

    Meu caro: 56 não foi obra do pessoal de Horthy, mas os nazis de Horthy chegaram a instalar um governo provisório em Gyor. A rebelião em Budapeste foi obra de uma frente anticomunista, que reunia desde os titistas (como Lukács) até os trotsquistas. Mas como consequência ela ia restaurar o capitalismo, isso deveria ter ficado claro.

  • http://revistacidadesol.blogspot.com Lúcio Jr

    Eu sou simpatizante do pcb, mas simpatizo com o Mao e o Stálin.

  • http://www.lituraterre.com Pedro Gabriel

    Prezado Celso, Daniel me passou este link para que eu o lesse e acho que tenho algo a comentar. De minha parte acho profundamente lamentável constatar a que ponto chegou o falatório político atual. Acho particularmente triste ver pessoas credenciadas, dotadas de títulos formais, debatendo questões como crianças disputando um brinquedo ou torcedores discutindo um pênalti. Sua resenha, bem como a maioria dos comentários que a ela se seguem, são inócuos do ponto de vista de uma contribuição efetiva ao debate do tema em questão, sendo, antes de mais nada, a morte deste. O debate político existe para orientar as nossas ações e escolhas de modo que é um imperativo lógico que ele se dê, de maneira ampla e irrestrita, num momento anterior à tomada de decisões ou construção de práticas. Entretanto para que isso ocorra é necessário que hajam questões postas e cada integrante reconheça em si o sintoma de sua própria ignorância (a que existe em você, em mim e em todos os falantes), ou seja, que os problemas elementares não estão resolvidos e que nossa percepção é parcial e enganadora de modo que precisamos ouvir o conjunto dos cidadãos para depurar melhor o que num primeiro momento pode ser um engano de nosso narcisismo onipotente de simplificar questões complexas. Ora, parece que o debate não se faz mais necessário pois não há questões a serem debatidas e tudo se resume a uma escolha de lado. É como se a grande categoria não fosse a razão (a escrutinar e validar o mundo), mas a ideologia. Esse é o grande engodo do debate atual e você lamentavelmente nada acrescenta a isso, ao contrário, do modo como você coloca a coisa toda, tudo se decide num momento lógico anterior ao debate: no momento da escolha de um lado na querela ideológica e que dirá do seu acerto ou erro. Assim, após alguém se decidir quanto ao seu “clube” (se conservador ou progressista) tudo o que será dito não será outra coisa senão defender as cores de seu time. Nada está em questão e todos seriam sectários prontos a refutar ou rebater, desmentir e responder os excessos do outro lado (que por definição nada tem a acrescentar à minha visão visto que ele está além da linha imaginária que distingue os lados) independentemente do que venha dele, o critério não seria a razão, mas a bandeira. Essa é uma concepção muito pobre não só da política ou do diálogo, mas do caráter humano em geral, supondo sempre uma intenção colonizadora em tudo o que se diz. Mesmo você afirmando diversas vezes que aprecia o livro e que ele contribui para o debate, você não pareceu ser capaz de captar a proposta central da publicação, sequer pareceu ter percebido um ponto em comum nos três artigos, a saber, a sugestão de que as categorias tradicionais de “conservador” e “progressista” não são mais aplicáveis ao cenário político brasileiro. Esse é o coração do livro. O próprio governo federal, que se diz de esquerda, é na verdade profundamente liberal e conservador e isso se percebe em sua política econômica, na uniformização ideológica que promove, no aparelhamento de estado e em publicações oficiais do Itamaraty que associam a figura de Lula a Getúlio Vargas. É o que entendo do livro. É o que ele acrescenta ao debate: pôr uma questão (coisa tão rara hoje em dia). É a isso que sua resenha deveria evidencia e responder, com argumentos plausíveis, seja de modo concordante ou contestatório, mas responder ao que é colocado como questão. Você, ao contrário, coloca a coisa como obra previsível de um lado inimigo e já conhecido, algo a que se deve responder como tudo o que vem do outro lado. O livro (por razões diferentes das que você aponta) efetivamente acrescenta ao debate e você ao tratar a coisa em tom jocoso como uma peça publicitária e introdutória do pensamento conservador, desqualificando os autores (como se isso dissolvesse o texto) acaba por colocar a nesses patamares primitivos: em termos de certo ou errado, verdade ou mentira, lado A ou lado B. Não somente não captura o que é efetivamente colocado como questão como também esvazia o debate e o transforma num emaranhado de hipóteses e de achismos que é o que se tornou o debate político atual. O livro não é extraordinário, é apenas bom, sua resenha não. O modo como você propõe uma discussão é pobre, raso e incompatível com suas credenciais.

  • http://relances.wordpress.com Vinícius de Melo Justo

    “Acho particularmente triste ver pessoas credenciadas, dotadas de títulos formais, debatendo questões como crianças disputando um brinquedo ou torcedores discutindo um pênalti.”

    Faltou demonstrar. Nada mais obtuso do que começar um texto invocando a própria autoridade pelo desmerecimento alheio.

    “O debate político existe para orientar as nossas ações e escolhas de modo que é um imperativo lógico que ele se dê, de maneira ampla e irrestrita, num momento anterior à tomada de decisões ou construção de práticas.”

    Aí você já começou a se complicar. Ficou claro que sua compreensão da política é instrumental e sempre anterior à ação – como se um momento fosse impenetrável pelo outro. Ou seja, primeiro discutimos, depois agimos, como se não fosse possível discutir ações em curso ou discutir a própria discussão.

    “Ora, parece que o debate não se faz mais necessário pois não há questões a serem debatidas e tudo se resume a uma escolha de lado.”

    Aqui imagino haver o equívoco natural de tomar os pressupostos do texto (i.e., existência de um campo de esquerda versus um campo de direita, sendo o livro uma tomada de posição a favor do último – bem como filiação do autor da resenha à esquerda) pela conclusão – se é que existe uma conclusão – ou pela opinião imediata do autor. A própria variedade exposta na resenha nas formas de cada um dos três autores do livro exporem e considerarem o conservadorismo (da resenha não se tira que os três estariam “do mesmo lado” em todas as questões) é antídoto suficiente à sua objeção.

    “sequer pareceu ter percebido um ponto em comum nos três artigos, a saber, a sugestão de que as categorias tradicionais de “conservador” e “progressista” não são mais aplicáveis ao cenário político brasileiro. Esse é o coração do livro.”

    Não li o livro e não posso comentar a interpretação. Mas se esse questionamento das categorias tradicionais – que eu, pessoalmente, também faço – é o coração do livro que se chama “Porque virei à direita”, então ocorre uma certa esquizofrenia discursiva que deve ser muito mais interessante do que sua sugestão de que o “novo” do livro é repetir algo que tem sido dito pelo menos desde o começo do governo do PT em âmbito nacional e desde as reformas liberais feitas por social-democratas na década de 80.

    “desqualificando os autores (como se isso dissolvesse o texto)”

    Só se foi no caso do Pondé, concorda? E se o sujeito empresta seu nome a um texto é porque sua pessoa, de alguma forma, é importante para a recepção do texto. Essa crítica fácil de apontar “desqualificação do autor e não do texto” pretende ignorar o evidente: um texto tem pesos diferentes quando escrito por pessoas diferentes. Logo, alguma consideração sobre quem é cada autor (e como tem atuado no debate público) não é apenas necessária, mas é fator inevitável de qualquer análise séria.

    Não gosto de me comportar como bedel e de certa forma é o que fiz aqui. Mas o incômodo foi maior.

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