Nunca se case com uma mulher de pés grandes

Mineke Schipper compilou provérbios de mais de 240 línguas e 150 países para buscar as diferentes representações da mulher na sociedade.

“Nunca se case com uma mulher de pés grandes: A representação da mulher no dito popular”, de Mineke Schipper

Provérbios são parte da linguagem, na maioria das vezes definidos como pertencentes à fraseologia popular. E, por serem do povo, relatam suas tradições e moralidades. Também acabam por unir diferentes povos, porque são pensamentos, ensinamentos e ditos referentes a experiências comuns em quase todas as culturas, pois o elemento básico do provérbio é o cotidiano e a convivência social.

A experiência cotidiana de um povo retrata as desigualdades e preconceitos entranhados na cultura popular. São parte do folclore e símbolos da tradição, seja expressando sátira ou crítica, sendo um sábio conselho ou um princípio de conduta. Quem o utiliza se apoia em uma ideia tradicional estabelecida pelo senso comum, tanto que muitas vezes é utilizado para afirmar que as coisas são como são e nada poderá mudá-las. Dessa maneira, fazemos perdurar estereótipos e conceitos antigos, mensagens inquietantes e muitas vezes desrespeitosas.

Mineke Schipper compilou provérbios de mais de 240 línguas e 150 países para buscar as diferentes representações da mulher na sociedade. Ela encontrou várias semelhanças, afinal, a independência feminina é sempre muito temida. Sociedades em que homens e mulheres tem os mesmos papeis sociais é visto como algo perturbador e indesejável. Ao homem cabe o destino da mulher, e é geralmente ele o sujeito dos provérbios, defendendo sua “verdade”, seus interesses e privilégios.

O legado da tradição oral é moral: ensina o que se deve fazer ou pensar numa determnada situação e formula certo aspecto do senso comum, os valores e os modos de agir. Dotados de autoridade, tais como outros textos orais e escritos, os provérbios descrevem como deveria ser o mundo de certa perspectiva. Essas sentenças contribuíram para a definição dos papeis e identidades sociais, e ainda exercem influência nos dias de hoje. Embora não saibamos se foi um homem ou uma mulher que inventou cada provérbio, podemos analisar os interesses em jogo. A natureza desses interesses e o modo como se definem em cada cultura — retórica e tematicamente — são questões que devemos ter presentes ao estudar os que se referem às mulheres, que é justamente o objetivo desse livro. (pg. 19)

Nunca se case com uma mulher de pés grandes é uma grande compilação de provérbios que ultrapassam gerações e que permeiam as vidas das mulheres, sendo utilizado para falar de seu corpo, do casamento, da maternidade, do envelhecimento, do sexo, da gravidez, do amor e algumas vezes de seu poder.

– A autora -

A autora avisa, logo no início que provérbios sobre mulheres tendem a refletir o velho costume de opor o “nós” ao “eles”, não em termos culturais, mas em personificação sexual. Há inúmeros provérbios brasileiros que buscam mostrar a mulher qual o seu lugar e que até mesmo, justificam a violência doméstica.

‘‘Mulher, cachaça e bolacha, em toda parte se acha’’;
“A força das mulheres consiste na sua fraqueza”;
‘‘A mulher e a mula, o pau as cura’’;
“A gente não deve de ficar adiante do boi, nem atrás do burro, nem perto da mulher: nunca dá certo”;
‘‘Lágrimas de mulher, valem muito e custam-lhe pouco’’;
‘‘A mulher e a cachorra, a que mais cala é a melhor’’;
‘‘A mulher ri quando pode e chora quando quer”,
“A casa, com lar; e a mulher, a fiar”;
“Mulher é como alça de caixão, quando um larga vem o outro e põe a mão”.

Ao que parece, nos grandes centros urbanos, os provérbios tem perdido espaço na linguagem cotidiana. Porém, ainda é possível ver e ouvir diversas derivações de eloquentes provérbios sexistas. Recentemente, houve o caso de um passageiro que afirmou que não gostaria de embarcar num voo pilotado por uma mulher. A piloto ordenou a retirada do passageiro por uma questão de segurança. Lendo uma matéria sobre o assunto num portal de notícias, vi que um dos comentários deixados foi: “Nunca vi fogão em avião”.

Por mais que uma mulher seja qualificada para exercer sua profissão, em contraposição a um homem, na maioria das vezes ela terá que se esforçar mais para provar sua competência. Em quase todas as sociedades, o homem está bem posicionado na escala de privilégios em relação a mulher. Basta olhar a composição do congresso brasileiro e das principais esferas de poder do Estado para verificar o abismo entre os sexos.

As tradições estão mudando. Algumas ideias refletidas nos provérbios já não são tão evidentes. Porém, as ideias proverbiais a respeito dos papéis sociais de homens e mulheres são persistentes. A mulher, na maioria das vezes, precisa provar seu valor moral para ser respeitada. Isso mostra que essas ideias, que parecem ser arcaicas, ainda estão presentes no legado inconsciente e interiorizadas nos diferentes extratos sociais.

Este livro não busca a análise da conjuntura atual ou do papel da mulher na sociedade. A coleção de provérbios indica muito mais uma colcha de retalhos que conta histórias acerca da mulher e de todos os papeis associados a seu gênero. E, mostra que a história das mulheres está ligada a esses legados de tradição e temores em relação a sua liberdade.

::: Nunca se case com uma mulher de pés grandes :::
::: Mineke Schipper (trad. Manuela Torres) :::
::: Betrand Brasil, 2012, 504 páginas :::
::: compre na Livraria Cultura :::

----- Consulte os arquivos do Amálgama ||| Publique ||| Contato ||| Para reproduzir nossos textos -----