Caminhante noturno

O protagonista de Teju Cole não sai dos debates com ideias definidas nem propõe respostas. Pelo contrário: cada interação enche o narrador de dúvidas.

“Cidade aberta”, de Teju Cole

Caminhantes são personagens recorrentes na literatura. Os contos de Robert Walser estão povoados por sujeitos que vagam sem rumo pelas mais diversas paisagens, encontrando pessoas pelo caminho. Outro escritor que se especializou em narradores caminhantes é o alemão W.G. Sebald. Em Anéis de saturno, um passeio pelo leste da Inglaterra é o ponto de partida para reflexões sobre história e filosofia. Teju Cole, autor convidado da FLIP 2012, parece se inspirar bastante nesses dois autores ao escrever Cidade aberta, seu primeiro livro lançado no Brasil.

Assim como o autor, o narrador de Cole é um nigeriano que vive em Nova York. Julius é um psiquiatra com interesse em diferentes áreas da cultura: literatura, música erudita, filosofia. Ele adquire o hábito de realizar longas caminhadas após o trabalho, passeios que servem de pretexto para a reflexão. O enredo do romance começa de forma arrastada, como um andarilho sem rumo definido, mas o leitor aos poucos se acostuma com o ritmo.

A partir da viagem que o protagonista Julius faz à cidade de Bruxelas, as discussões intelectuais ganham mais vigor, especialmente nos momentos em que ele debate com o dono de uma lan house que foi alvo de preconceito e tem suas ideias, na opinião do narrador, corroídas pelo ódio.

– O autor -

Assim como em Elizabeth Costello, de J.M. Coetzee, livro citado mais de uma vez em Cidade aberta, Teju Cole propõe uma narrativa ensaística onde as ideias do narrador são confrontadas com as de outros personagens. Ao colocar a estrutura ensaística dentro de uma ficção, o caráter unilateral do monólogo do ensaio é rompido. O interessante de observar no caso da obra de Teju Cole é que seu protagonista não sai dos debates com ideias definidas nem propõe respostas. Pelo contrário: cada interação enche o narrador de dúvidas. Basta observar o desfecho de uma conversa com Farouq, o dono da lan house:

Uma violência cancerosa havia ruído a fundo todas as ideias políticas, havia tomado conta das ideias em si e, para muita gente, o que importava de fato era a disposição de fazer alguma coisa (…) Parecia que o único jeito de evitar aquele fascínio da violência era não ter causa nenhuma, manter-se majestosamente isolado de todas as lealdades. Mas não seria isso um lapso ético mais grave do que a própria raiva?

Este trecho também é emblemático de outra característica marcante do narrador de Cole: o desejo de neutralidade. Julius é um flâneur, que passeia pela cidade imerso em pensamentos, mas que apenas contempla, sem nunca agir. Ele se sente deslocado dos outros com quem convive, e, constantemente, quando se encontra com outros negros que lhe cobram uma espécie de “irmandade” e pensamento coletivo de raça, se recusa a assumir esse tipo de pertencimento. Por todo o romance, pode-se dizer, Julius procura justamente isso: descobrir a que grupo pertence, e como pode fazer para fugir do individualismo que o acossa – tema de algumas das reflexões mais interessantes do livro.

Ao final, uma reviravolta no enredo que surge praticamente do nada sugere toda uma nova forma de leitura das atitudes do narrador. A partir da informação revelada, o leitor é obrigado a repensar a frieza de Julius e se perguntar quanto das reflexões do narrador não estão manchadas pelo ato que cometeu no passado. Ainda que Cidade aberta não seja um livro revolucionário, nem apresente um autor tão diferente de outros já estabelecidos, como Coetzee, é uma leitura sobre a qual podemos rememorar enquanto caminhamos sozinhos à noite, buscando detalhes que talvez ofereçam uma chave de entendimento para um protagonista que, apesar de expor o tempo todo as suas reflexões, nunca se revela por completo.

::: Cidade aberta :::
::: Teju Cole (trad. Rubens Figueiredo) :::
::: Companhia das Letras, 2012, 320 páginas :::
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