Canibais metalinguísticos

Em momentos do livro, há um apelo nostálgico à simplicidade da infância, marcado porém pela consciência de sua inviabilidade.

“Cavalos & Santos”, de Francisco Maciel

Francisco Maciel, conhecido como prosador e, nessa condição, objeto de todo um capítulo em Literatura e afrodescendência no Brasil (Belo Horizonte: Editora UFMG, org. de Eduardo de Assis Duarte, 4 volumes, 2011), anunciava há alguns anos a edição de seus poemas, que vieram à luz em Cavalos & Santos (Rio de Janeiro: Menthor Textual, 2012).

O título, com sua alusão religiosa, anuncia a temática negra, no que se relaciona com o romance do mesmo autor O primeiro dia do ano da peste (São Paulo: Estação Liberdade, 2001). Nos dois livros, temos os escritos do personagem Aloísio Cesário (AC), que enlouqueceu na “busca quase sempre inútil de se encontrar no outro”, explica Maciel na orelha do livro de poesia. Lemos poemas de um personagem do autor, por este assumidos.

No romance, um pesquisador branco (que estuda a “presença do negro na literatura brasileira”), William, reúne os escritos de AC, que enlouqueceu depois de ser preso por tráfico de drogas. O curioso é que praticamente todos os textos eram de prosa (com exceção de um poema de amor), embora William se dissesse mais interessado na poesia.

Em Cavalos & Santos, a persona do pesquisador é abandonada, porém não a tensão com a literatura europeia. Já escrevemos, para o Ciberkiosk, sobre a metalinguística naquele romance, e ela é dominante nos poemas. Ecos de Rimbaud, Rilke, Enzensberger, Baudelaire, Yeats fazem-se ouvir em uma obra marcadamente intertextual. Ao contrário do que ocorre no romance, trata-se de uma coletânea de textos sem aspiração à unidade.

Nesse exercício, o poema pode ser esmagado pela literatura: “Canteiro de obras” (p. 167) é apenas uma declaração de amor a Augusto de Campos, sem poesia própria; “Transe” (p. 119) é uma explicação de Glauber Rocha cruzada com o final de “The second coming” de Yeats, e “Esperando Godot” também possui seu final (p. 89) moldado nesse poema; “O Canto do Signo” (p. 71) é Mallarmé com linguística. Nesses momentos, o poema não se encontrou no outro, e percebe-se que o personagem perdeu o rumo, o que é um malogro do poeta, mas triunfo do romancista, pois a confusão do personagem é perfeitamente traduzida em linguagem, como alguém em conflito com a negritude: os cavalos e os anjos trocam coices.

No entanto, muitas vezes Francisco Maciel, mais santo do que cavalo (que é designação para o médium que incorpora na umbanda), logra fazer mais do que receber vozes. Em “Perdoar Heidegger” (p. 149), da imagem do “sol de sangue”, passa-se, à Hannah Arendt, ao cotidiano de consumo das sociedades capitalistas. O efeito é surpreendente:

As escadas rolantes dos shoppings
erguem e baixam multidões
famintas de queimas e liquidações
Acabou o estoque.
Não há nada a perdoar.
Não tem mais perdão.

Jorge de Lima é relido em “Essa Nega Fulô” (p. 48), que combina o poema homônimo do modernista com outro, “História” de Poemas negros. Neste, a escrava tem os dentes quebrados pela patroa ciumenta. A Nega Fulô de Francisco Maciel é torturada dessa mesma forma: o sorriso “branco branco branco” é transformado em cacos a marteladas, cacos que ela é obrigada a levar ao moço (não sabemos quem é) que havia elogiado o sorriso para a ciumenta Dona Sinhá. Nessa história exemplar, temos a cor, o trabalho forçado e a tortura em uma só dose de Brasil. Conhecido poema de Manuel Bandeira é parodiado em “O último exílio da atriz” (p. 45): “Irene casa-grande e senzala/ Irene sempre de bom humor.”

Em “Samba-Enredo do Poeta Negro”, o silêncio sobre os autores negros é analisado com ironia: “Passarei uma temporada na África/ entre contrabandistas de referências literárias” (p. 60).

Para este resenhista, destacam-se dois poemas: o longo “Beirute”, com suas referências que vão do Cântico dos Cânticos a Fernando Pessoa e Drummond, dominadas pela tópica do amor e da guerra, típica da poesia renascentista, é um singular poema de amor:

Tiraste-me o coração com um dos teus olhos,
com um colar do teu pescoço.
Sopras onde queres.
E me invades formidável
como um exército com bandeiras. (p. 81-82)

Em momentos do livro, há um apelo nostálgico à simplicidade da infância, marcado porém pela consciência de sua inviabilidade: “Grama proibindo meninos/ Em plena praça”, diz em “Diário Oficial” (p. 103). “Jardins de Infância” parece-me ser o ponto alto desse apelo que, em Cavalos & Santos, ganha uma surpreendente dimensão metalinguística:

Nós somos canibais
E dormimos pesadelos
Pensando nos filhos
Que nunca teremos (p. 98)

::: Cavalos & Santos :::
::: Francisco Maciel :::
::: Menthor Textual, 2012,176 páginas :::

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