Se Deus existe, então tudo é permitido

por Carlos Orsi

-- "Sacrifício de Isaac", Caravaggio (1603) --

 

A frase-título deste artigo é, se não me engano, um dos slogans da campanha da ATEA. Decidi usá-la para encabeçar minha postagem a respeito do atentado na Noruega porque a tragédia nórdica é uma ilustração bem clara do significado mais profundo do slogan. (Aliás, alguém poderia me explicar por que os maníacos da Al-Qaeda sempre são chamados de “terroristas islâmicos”, mas o cavaleiro templário de Oslo é um “extremista de direita” e não um “terrorista cristão”? Seria mais uma questão da multiplicidade dos pesos e medidas na mídia brasileira? Este editorial do Estadão chega ao cúmulo da delicadeza, calçando luvas de pelica para dizer apenas que o assassino “se definia como cristão conservador”. Tá, mas por que, então, não calçar as mesmas luvas e afirmar, por exemplo, que Osama bin Laden “se definia como muçulmano”?)

A questão envolvendo Deus e o que é permitido ou proibido faz parte de um campo de estudos conhecido como o das fundações (ou fundamentos) da ética. Basicamente: qual a autoridade por trás das noções de certo e errado? Uma resposta clássica é a de que tudo vem do costume.

O historiador grego Heródoto parecia concordar com isso. Ele narra um episódio que teria ocorrido na corte real persa, no qual duas delegações estrangeiras ficam horrorizadas ao saber dos costumes funerários uma da outra: uma delas cremava os mortos, e achava bárbaro devorá-los; a outra os devorava, e achava uma falta de respeito reduzir a carne dos mortos a cinzas.

A ideia de que costume é tudo que há tem apelo para um certo tipo de sensibilidade, mas soa insustentável para muita gente (se não por outro motivo, ela permite justificar escravidão, mutilação genital, genocídio e outras atrocidades, bastando para isso invocar a explicação de que “é o costume deles”); a intuição de que deve haver algum padrão mínimo universal — que talvez até comporte uma superestrutura baseada em cultura e costume — é muito forte.

Mas, de onde viria esse padrão? “Deus” é uma resposta fácil — e errada. Sabemos, de fato, que é errada há milênios, muito antes que a Al-Qaeda ou os Novos Templários aparecessem para oferecer prova concreta.

A demonstração aparece num diálogo de Platão, o Eutifro. Nele, Sócrates encontra um amigo que está prestes a denunciar o pai por assassinato, e se envolve num debate sobre a natureza da “piedade” — mas podemos trocar a palavra por “bem”, sem prejuízo para o valor do argumento.

Eutifro define que “piedade” é aquilo que os deuses amam, e impiedade é aquilo que os deuses odeiam — paralelamente, poderíamos dizer que quem vê em Deus a fundação da ética afirma que certo é o que Deus ordena, e errado, o que Deus proíbe; ou, são boas as ações que Deus aprova e más, as que Ele reprova.

Sócrates, como sói acontecer nos diálogos platônicos, usa a definição dada pelo próprio Eutifro para aplicar-lhe um jiu-jitsu filosófico. O trecho crucial é este:

Sócrates: E o que dizes da piedade, Eutifro: a piedade não é, de acordo com a tua definição, amada por todos os deuses?

Eutifro: Sim.

Sócrates: Porque ela é piedosa e sagrada, ou por alguma outra razão?

Eutifro: Não, essa é a razão.

Sócrates: Então ela é amada porque é sagrada, e não sagrada porque é amada?

Eutifro: Sim.

Em linhas gerais: se o bem e o mal não são arbitrários, se são algo além de simples decretos de um tirano cósmico, então é preciso que haja um padrão de certo e errado que não dependa da vontade divina. Porque se o padrão for, de fato, uma criação arbitrária da vontade divina, então matar, estuprar e explodir prédios podem ser atos morais — bastando, para isso, que Deus queira.

Este é, claro, o raciocínio que, aos olhos de seus praticantes, sejam eles islâmicos ou cristãos, legitima terrorismo religioso, e também o que motiva o slogan no título do artigo: se a vontade divina é a fonte suprema da ética, então a ética pode permitir (ou mesmo exigir) qualquer coisa que dê na veneta de YHWH — e um leitor casual dos livros de Josué e Samuel, na Bíblia, sabe como é fértil a imaginação para atrocidades dessa augusta personagem.

Mas, então, o que nos resta? Se o costume é insuficiente e o apelo à divindade, arbitrário, como achar o padrão? Afinal, existe um padrão?

Eu acredito que ele pode ser construído, racionalmente, a partir do reconhecimento da nossa humanidade comum — do fato de que todos sonhamos, desejamos, amamos e, quando atacados, sangramos e morremos do mesmo jeito.

9 comentários | Dê sua opinião

  1. Carlos Ramalhete 26/07/2011 em 7:38 pm

    Bom, o psicopata norueguês não diz que foi o deus dele que o mandou fazer isso (ou mesmo que o que ele fez seria agradável ao deus dele), mas poderia ter dito, o que faz a questão pertinente.
    Na tradição católica, contudo, este problema tem solução.
    Ensina São Tomás de Aquino que há uma ordem de todo o universo, incluindo as leis da física, a lei natural (expressa nos Dez Mandamentos, mas que pode ser descoberta pela razão), o funcionamento da mente humana, etc. Não se trata de uma listinha de coisas permitidas ou proibidas, mas de uma ordem geral, à qual nossos atos (e os costumes…) devem se adequar. O modo de operação desta ordem na sua adequação aos atos humanos foi estudado a fundo, sendo o autor principal nestes estudos Sto. Afonso Maria de Liguori.
    É um conhecimento importante, mais ainda pq, afinal, qual é a diferença essencial entre os atos do psicopata norueguês e a bomba de Nagasaki, os campos de concentração nazistas e soviéticos, os bombardeios de cidades alemãs na Segunda Guerra, os massacres na Vendéia ou Canudos, o massacre na mesquita de Hebron por Baruch Goldstein, os atentados praticados por terroristas muçulmanos e tantos outros exemplos de assassinatos de pessoas sem rosto, vistas como símbolo de algo que se tem por mau?
    Valeria a pena deixar de lado os “fundamentalismos”, quer se digam “cristãos”, quer se digam “muçulmanos” ou “judeus”. Fundamentalismos – como ideologias, de que diferem apenas por basear-se teoricamente em um deus – são simplificações exageradas da realidade, levando a negar a humanidade do próximo e a tratá-lo como um mero símbolo, que pode – e em algumas ocasiões deve – ser apagado. Mas seres humanos não são símbolos: são pessoas. São Tomás ensinou isso. Sto. Afonso ensinou isso. E nós deveríamos tentar voltar a aprender.

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  3. nehemias 27/07/2011 em 4:21 pm

    Amigo, o atirador da noruega não teve motivações religiosas para este atentado. Foram motivações políticas. Tenho certeza que nos textos sobre o acontecido, você deve ter lido a palavra “multiculturalismo”. E é exatamente isso, fica claro que ele está mais pra um xenófobo ou um Hitler, alguém que pensa que está fazendo algo bom. Por isso ele diz que “as pessoas vão sofrer mas é necessário”. E dentro da lógica dele, isso faz sentido.

    Sobre os islâmicos, a crença é que se morrem como mártirs, eles terão privilégios, como virgens no paraíso e reconhecimento de seus seguidores e amigos. E é por isso que quando um muçulmano pratica um atentado, quase que imediatamente é associado à sua religião/ideologia.

    No cristianismo, é diferente, não existe essa espécie de prêmio extra. E no cristianismo, o mundo ocidental não é visto como o “Grande Satã”, forma como a América é chamada por muita gente do mundo árabe. No cristianismo não há essa ideia de que é preciso destruir um povo ou continente, para que haja um equilíbrio no mundo. Apesar de muitos cristãos acharem os muçulmanos um problema, a própria essência do cristianismo impede que alguém se levante com armas contra outras religiões, já que segundo o novo testamento, a luta do cristão “não é contra a carne, nem contra o sangue, mas contra os príncipes que dominam este mundo”, ou seja, os demônios.

    Não tenho problema nenhum em reconhecer que uma religião provoca ações de terrorismo. Toda elas fazem isso, a gente sabe. Só que esse caso, não foi isso. Não dá pra tentar transformar um tema totalmente diferente em assunto religioso. Isso é enxergar as coisas unilateralmente. Fica até um ateísmo tendencioso e constrangedor de se ler.

    Fora isso tudo, imagine se a cada crime cometido, fosse perguntada a religião do acusado? Por exemplo, o cara comete um assalto, aí questionam ele sobre qual religião ele segue, como se fosse por motivação religiosa. Isso não faz sentido. E infelizmente foi o que você fez nessa postagem.

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  4. Carlos Orsi 27/07/2011 em 4:34 pm

    Oi, Carlos! Obrigado pela resposta. Mas note que a ética “natural” de São Tomás depende, essencialmente, de uma visão teleológica do mundo, baseada na pressuposição de que todas as coisas foram ordenadas por Deus. E, assim, ele não escapa, realmente, da crítica que faço no artigo. De fato, na Questão XI da Suma Teológica, o Santo diz, textualmente, que as pessoas condenadas por heresia devem ser punidas com a morte.

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  5. Carlos Orsi 27/07/2011 em 9:25 pm

    nehemias,

    a questão religiosa é relevante, neste caso. Não só o ódio do assassino ao multiculturalismo tem raiz em seu cristianismo radical (como o ódio de Bin Laden à civilização ocidental enraizava-se no seu islamismo), como leia a reportagem sobre os “novos templários” que ele integrava: http://blogs.estadao.com.br/jt-radar/atirador-pertence-a-ordem-de-templarios/

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  6. Zato-one 28/07/2011 em 9:02 pm

    Mas achar que o crime foi somente por motivo político é reducionismo: o terrorista se dizia claramente contra o Islã, e não só aos muçulmanos, e a influência que ela estava tendo na Europa, e se entregou convencido que iniciou a guerra contra essa cultura.

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  7. Ícaro 31/07/2011 em 6:49 pm

    A frase, em sua expressão original, ‘Se Deus não existe, tudo é permitido’, vem do livro Irmãos Karamázov do Dostoiévski. A brincadeira é exatamente essa, o livro do Dostoiévski ficou marcado por esta frase, a campanha da ATEA usa uma inversão, a princípio sem sentindo, que serve para ilustrar a realidade das religiões no planeta. Independente ou não da existência deste Deus, tudo é permito.

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  8. Ivani Medina 20/09/2011 em 9:32 am

    O atirador da Noruega é mais um. Deus precisa ficar nu. http://www.debatesculturais.com.br/a-questao-deus/

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  9. Leo 01/02/2012 em 2:40 pm

    Deus já está nu há muito tempo. É que ainda há quem insista em dizer que ele veste a roupa dos inteligentes.

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