(não) Testemunhar e relatar o horror

por Fabiano Camilo

-- "Tudo o que tenho levo comigo", de Herta Müller --

 

O que possui um homem octogenário, sem família, solitário, que, entre o final da adolescência e o início da idade adulta, sobreviveu a uma experiência extrema? Antes de tudo, suas memórias. Ou, talvez, apenas suas memórias. Suas lembranças e também seus esquecimentos, sobretudo os do horror do qual foi vítima.

No verão de 1944, o Exército Vermelho derrotou as forças romenas e depôs e executou o ditador fascista Ion Antonescu. A Romênia se rendeu, se uniu aos Aliados e declarou guerra à Alemanha. No início de 1945, em nome de Stálin, o general Vladislav Vinogradov exigiu do governo romeno que entregasse ao Exército Vermelho todos os alemães, de idade entre dezessete e quarenta e cinco anos, residentes na Romênia. Cerca de trinta mil romenos de língua e etnia alemãs foram deportados para o território da União Soviética, enviados para campos de trabalho, gulags, onde foram forçados, como forma de reparação, a contribuir para a reconstrução do país, destruído durante a Segunda Guerra Mundial.

A mãe da escritora romena de língua alemã Herta Müller permaneceu cinco anos em um gulag, mas jamais conversou com a filha sobre sua experiência. Em 2001, Herta começou a registrar conversas com pessoas de seu vilarejo que tinham sido deportadas. Posteriormente, contou ao poeta Oskar Pastior seu desejo de escrever a respeito do assunto. Nos anos seguintes, Pastior, que também fora deportado, relatou suas recordações para Herta, que as registrou. Decidiram escrever um livro juntos. Contudo, Pastior faleceu em 2006. Somente um ano depois, Herta conseguiu superar o luto e retomar o projeto, o qual concluiu em 2009, sete meses antes de receber o Prêmio Nobel de Literatura.

Em janeiro de 1945, na companhia de milhares de outros romenos alemães, Leopold Auberg, o protagonista de Tudo o que tenho levo comigo, foi deportado em um vagão de transporte de animais para o território soviético, onde esteve preso por cinco anos em um campo de trabalho, vivendo acossado pelas intempéries, o cansaço extenuante, os piolhos e os percevejos, os ferimentos e as doenças, a nostalgia e, o mais terrível, a fome crônica, que domina a consciência e o inconsciente, a vigília e o sono, sobrepondo-se e quase terminando por anular todos os desejos. Leo tinha dezessete anos.

A literatura ocidental do século 20 criou importantes obras acerca do horror da guerra e da experiência concentracionária. Diários, memórias, ficções. Estre as obras sobre a guerra, estão, por exemplo, Suíte francesa, de Irène Némirovsky, O pianista, de Władysław Szpilman, e Infância de mentira, de Louis Begley. Entre as obras sobre a experiência do Gulag e do campo de concentração, É isto um homem?, de Primo Levi, Arquipélago Gulag, de Alexander Soljenítsin, Sem destino, de Imre Kertész, e Paisagens da memória, de Ruth Klüger. Todos esses textos possuem em comum a característica de terem sido escritos por testemunhas, sobreviventes e não-sobreviventes.

Em Sem destino, o eu do enunciado não corresponde ao eu da enunciação, ao contrário do que ocorre em É isto um homem?. Levi narrou suas lembranças, enquanto Kertész escreveu uma ficção. Entretanto, a ficção de Kertész se funda em sua própria experiência, no que ele vivenciou e no que presenciou. Herta, ao contrário, não é uma testemunha.

Tudo o que tenho levo comigo pertence a um corpus diverso de obras a respeito da guerra e da experiência concentracionária. Como Cynthia Ozick e Martin Amis, autores, respectivamente, de O xale e de Casa de encontros, Herta escreveu uma ficção que narra uma experiência que ela não viveu. Sua matéria não é, exclusiva ou parcialmente, sua própria memória, mas memórias de outras pessoas. Todavia, uma não-testemunha é capaz de apreender e transmitir experiências extremas como a do gulag ou a do campo de concentração? Ou: é legítimo? Que autoridade possui o ficcionista para enunciar um passado terrífico que não viveu?

Não são muitas as obras de ficção escritas por não-testemunhas que descrevem a experiência concentracionária. O terror totalitário pertence a um passado recente, cujas testemunhas estão vivas. Por que imaginar, se aqueles que vivenciaram esse passado podem recordá-lo? Tem valor a ficção diante da verdade? Contudo, os sobreviventes, julgados os únicos autorizados a enunciar o passado, morrem e muitos estão mortos – como o escritor espanhol Jorge Semprun, autor de Um belo Domingo e O morto certo, falecido recentemente, que, como membro da Resistência francesa, foi enviado para Buchenwald, onde permaneceu por dois anos –, porém, a vontade, ou melhor, a necessidade de compreender o passado persiste. “A história deve ser considerada propriedade exclusiva dos participantes? [...] Só os mortos podem falar?”, pergunta o narrador de Vergonha, de Salman Rushdie. O historiador não é o detentor único da autoridade de enunciação de um passado terrífico não vivido. Como o texto de história, esta pseudociência, o texto ficcional também pode construir, em forma de relato, conhecimento acerca do passado e, consequentemente, do presente também.

No primeiro ano do retorno a casa, Leo começou a registar, de maneira dispersa, suas recordações, mas conseguiu escrever uma narrativa coerente e coesa apenas seis décadas depois. No entanto, seu relato provavelmente está repleto de lacunas, decorrentes não somente dos esquecimentos, mas também da dificuldade de romper o silêncio, como adverte no início do relato: “Fechei-me tão profundamente e por tanto tempo no silêncio que nunca consigo abrir-me através das palavras. Apenas me fecho de outras formas quando falo”. Leo se revela um narrador com imensa dificuldade para narrar. Todo relato acerca do passado, memorialístico ou histórico, é lacunar. Leo deseja contar, mas não pode contar tudo de que se lembra, somente aquilo que o silêncio que o domina lhe permite verbalizar.

-- A autora --

A narrativa de Leo se divide em três partes: (1) os preparativos para a viagem e a viagem, (2) o período de cinco anos no gulag, (3) a vida após o retorno a Romênia. A segunda parte, mais extensa, se constitui de uma sucessão não linear de episódios desconexos, uma evocação de acontecimentos marcantes, evolvendo a si mesmo ou outros prisioneiros, de lugares, de objetos, de sensações, de sentimentos, de reflexões, de conversas, de sonhos, de recordações da infância. Todavia, à medida que avança, o leitor pode se impressionar com a acuidade da memória de Leo, em contraste com uma revelação feita no início, relativa a sua dificuldade para se lembrar de uma série de objetos, que não sabe se possuiu ou não, durante o tempo em que viveu no campo. Leo se limita a recordar ou também imagina? Contudo, é possível relatar o passado sem imaginá-lo? Essa oscilação entre memória e imaginação, implícita no texto, provavelmente reproduz a oscilação do próprio processo de escrita, que entrecruzou as lembranças de Pastior e a imaginação de Herta. O que ele contou, o que ele intencionalmente deformou, o que ele omitiu? O que ela inventou?

Leo escreve movido por um desejo, ou melhor, por uma necessidade de entender a experiência que vivenciou no gulag. A decisão de escrever, tomada sessenta anos antes, surgiu de impulso, quando, ao se abrigar da chuva em uma papelaria, comprou um caderno. Por sessenta anos, ele segue, levando o gulag consigo, como antes levara para o gulag o lar, a casa de veraneio, a escola, o parque e as termas dos encontros sexuais furtivos com outros homens. Escrever pode lhe fornecer uma compreensão, mas apenas uma compreensão, jamais possibilitará que deixe de levar o horror do campo consigo, até o fim de seus dias.

Tudo o que tenho levo comigo retoma o tema do indivíduo submetido à violência assujeitadora do Estado totalitário, que Herta abordou também em O compromisso, sua primeira obra publicada no Brasil. Entretanto, neste romance, a escritora ficcionalizou uma realidade que ela própria conhecia muito bem, a vigilância, a perseguição e a opressão do indivíduo vivendo em uma sociedade governada por um regime totalitário, o do ditador Nicolae Ceausescu. Todavia, a protagonista sem nome e narradora de O compromisso permanece, para utilizar as palavras de Leo, no mundo. Ele, ao contrário, vive, ao longo de cinco anos, fora do mundo e esquecido do mundo. Herta, como não-testemunha, consegue apreender e transmitir a experiência extrema do gulag? “Só é possível contar quando somos capazes de transmitir nossas experiências”, escreve Leo, sessenta anos após sua libertação do campo de trabalho, refletindo a respeito de sua incapacidade de se relacionar com seus familiares, que acreditavam que ele estivesse morto e para os quais ele se tornara um estranho. A própria ficção de Herta demonstra o equívoco do personagem que ela criou. O fluxo de consciência de Leo desvela, na sucessão de episódios desconexos que constituem sua história, o pesadelo de um microcosmo total, a violência, o sofrimento e a desumanização produzidos no interior do gulag.

A partir do segundo ano o despiolhamento era feito ao lado da ducha, na ETUBA – uma câmara de ar quente a mais de cem graus Celsius. Pendurávamos nossas roupas em ganchos de ferro que circulavam em roldanas, como os guindastes no frigorífico de um matadouro. O cozimento das roupas demorava por volta de uma hora e meia, mais tempo do que nos permitiam nossa ducha e a água quente. Depois do banho, esperávamos nus na antessala. Sarnentas figuras encurvadas, sem roupa parecíamos animais de trabalho inservíveis. Ninguém se envergonhava. Envergonhar-se do que, quando já não se tem um corpo. Mas por causa dele estávamos no campo de trabalho, para o trabalho físico. Quanto menos corpo se tinha, mais ele nos castigava. O invólucro pertencia aos russos. Eu nunca tinha vergonha dos outros, só de mim mesmo, que me conhecia de antes, com a pele lisa nas termas Netuno, onde o vapor de lavanda e a felicidade arfante me perturbavam. Onde eu jamais haveria pensado em inservíveis animais de trabalho de duas patas.

::: Tudo o que tenho levo comigo ::: Herta Müller (trad. Carola Saavedra) :::
::: Cia. das Letras, 2011, 304 páginas :::
::: compre no Submarino ou na Livraria Cultura :::

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