Itamar Franco, muito mais que um presidente-tampão
por André Egg

Você já deve ter visto muitas reportagens por aí, um sem-número de retrospectivas e “especiais” sobre a trajetória de Itamar Franco. Eu não. Mesmo assim vou poupar o leitor de ficar repassando a biografia do político mineiro.
Prefiro dedicar este texto ao que foi o papel primordial de Itamar Franco na história do Brasil, e deixar de fora os inúmeros momentos em que ele foi peça secundária na política brasileira. Pelo seu perfil político, me parece que foi sempre um homem talhado para ser secundário. Não fosse por um momento mágico, que até hoje não entendo bem como foi que aconteceu, mas vou tentar explicar aqui – primeiro para mim mesmo e, se possível, para os leitores.
Eu era estudante secundarista nos tempos da eleição de 89. Nunca tinha visto esse negócio de eleição presidencial e campanha eleitoral, que a última eleição no Brasil tinha sido muito antes de eu nascer, em 1960 – quando um maluco se elegeu para ficar apenas 9 meses no governo.

Cursava o técnico em eletrônica no então CEFET-PR, e acompanhei meio à distância todo o agito da primeira campanha presidencial dos últimos 29 anos. Entre o movimento estudantil, me parecia que havia um certo predomínio dos brizolistas, mas os lulistas também eram fortes. Me lembro de um lulista dizendo para um brizolista que esperava o apoio dele no segundo turno, o que soava como bravata, mas que acabou se tornando realidade até o momento da eleição. Entre os professores, e também entre os alunos menos politizados, havia um grande apoio a Mário Covas. Mas gente que dizia que votaria em Collor eu só conheci mesmo um.
E quando se fez uma eleição simulada no colégio, Brizola ficou em primeiro, com Lula um pouco atrás e Covas logo a seguir. Collor era um dos últimos, com cerca de 1% da preferência. Lembro que eu achava mentirosas as pesquisas de intenção de voto que davam Collor à frente. E que fiquei surpreso quando saiu o resultado dando ao aventureiro uma vitória avassaladora em Curitiba. Percebi quão ínfima era a representatividade dos cefetianos em relação à cidade como um todo.
Bem, mas Collor foi um fenômeno político que até hoje não entendo. Governador de um estado obscuro, saído por um partido minúsculo, sem nem apoio da mídia – exceto no segundo turno quando se tornou o mal menor diante do “sapo barbudo”. Collor foi um gênio de marketing em uma campanha confusa, cheia de candidatos pela esquerda e pela centro-esquerda que se digladiavam quando, se tivessem um pingo de bom senso, cabiam todos na mesma aliança. Acho que o que atraía em Collor era aquela história de ser anti-Sarney, de ser em prol dos “descamisados”, etc.
Itamar entrou como o obscuro candidato a vice-presidente, e logo rompeu com seu cabeça de chapa, isolando-se do governo. Antes disso, tinha sido prefeito de Juiz de Fora e senador pelo PMDB de Minas por dois mandatos. Quando aceitou ser vice de Collor, entrou provavelmente pela qualidade de ser mineiro – Estado sempre lembrado quando alguém procura um vice-presidente. Tirante isso, era um político de carreira acabada – provavelmente não se elegeria para mais nada, e nem deu nenhuma contribuição à chapa de Collor durante a campanha.
Ou seja, ao que tudo indicava, como obscuro vice-presidente e ainda logo de início rompido com o chefe, era o que se pode chamar de “a-pulga-do-cachorro-molhado-do-bandido”.
Até que a situação virou completamente, à medida que ia ficando patente que a habilidade que Collor teve para fazer campanha e ganhar eleição era inversamente proporcional ao bom senso que teve para formar um governo, articular políticas e obter apoio no Congresso. Ninguém se iluda – Collor não foi impedido por corrupção. Foi porque não tinha mais apoio popular nenhum, e muito menos alguma sustentação na classe política.
Voltando às minhas memórias juvenis, lembro muito vagamente do movimento dos caras-pintadas. Eu não fui um deles. Não tinha votado em 89, porque fiz 16 naquele ano, mas não a tempo de fazer título de eleitor. Lembro também vagamente das reportagens da Veja, da entrevista de Pedro Collor, daquele tipo de indignação barata que a imprensa vulgarizou tanto nos anos seguintes que hoje já perdeu completamente o efeito. Mas lembro muito bem de ter participado de uma passeata com os estudantes do CEFET (e outros secundaristas de Curitiba) na qual o slogan era “Lula já, fora Itamar”. Foi quando lembro de ter me tornado petista.
O slogan petista revela toda a inabilidade política que o PT ostentou naqueles tempos. Sim, porque, impedido Collor, o presidente constitucional seria Itamar Franco. Pedir que a presidência passasse ao candidato derrotado nas eleições revela o quanto a ideia de democracia institucional era frágil naquela turma que tinha aprendido a fazer política com a revolução comunista como horizonte.
Isso ajuda a entender o tamanho do desafio que se punha diante de Itamar Franco. Quando Collor fosse afastado, assumiria a presidência um homem cuja única experiência administrativa tinha sido na prefeitura de Juiz de Fora no início da década de 1970. Além disso, no próprio Governo Federal do qual era vice-presidente, ele era um completo “peixe fora d’água”. Não tinha participado de nada, não conhecia nada do governo – era parte da oposição desde o início.
Quando a presidência lhe caiu no colo, o que tínhamos dele era a imagem de um homem aparvalhado, que mal sabia pentear o cabelo: como poderia governar um país tão grande, numa situação tão complicada? Mal estávamos saindo dos governos militares, com um primeiro presidente civil que tinha sido um vice eleito indiretamente, fez um governo com todos os próceres civis do regime militar, tendo negociado a extensão do próprio mandato em troca de concessões de rádio e TV, e que tinha terminado o mandato com 80% de inflação em um só mês. Após a presidência de Sarney, o Brasil tinha sido governado por Collor de maneira tão atrapalhada que parecia que seria melhor fechar o país do que tentar consertá-lo.
Itamar assumia com inflação alta, nada parecido com um governo em funcionamento e nenhuma perspectiva de que fosse capaz de montar um no tempo necessário. Os principais líderes políticos se recusavam a estender a mão ao pedido de ajuda do novo presidente, que tentou inutilmente criar um governo de união nacional. Lula, Brizola e Covas, as principais lideranças derrotadas em 1989, apostavam na ideia do quanto pior melhor – se tudo fosse mal, poderiam ser os candidatos mais fortes em 1994, usando a lógica do “eu te disse”.
Poucos foram sensatos a ponto de aceitar uma incumbência no governo Itamar. Lembro de Erundina, que ficou muito tempo de molho no PT por ter aceitado o convite de Itamar. Na verdade, o pessoal da Articulação (leia-se José Dirceu) já tinha ficado com raiva dela por ter sido eleita prefeita de São Paulo, e lhe tinha feito o pior tipo de oposição, bem como boicotado Suplicy na sua sucessão em 1992, preferindo ceder a prefeitura a Maluf.
Aliás, corrigindo o parágrafo anterior, aceitar um cargo no governo Itamar não era sensatez. Ou o era, apenas se pensarmos a palavra no sentido de trabalhar pelo Brasil. Do ponto de vista da carreira política de cada um, era um salto no abismo. A única coisa que se tinha certeza era que o governo Itamar não tinha a menor possibilidade de dar certo. Outros insensatos que aceitaram incumbências ministeriais no novo governo foram Ciro Gomes e Fernando Henrique Cardoso.
O resto da história todos sabemos. Aquele mineiro atrapalhado, que nem sabia pentear o cabelo, terminou o mandato que Collor tinha começado de uma maneira que ninguém imaginaria. Pôs o Brasil nos trilhos, terminou o mandato com inflação sob controle e emprego em alta. Foi o presidente mais popular em fim de mandato (liderança que perderia somente 16 anos depois para Lula) e elegeu o sucessor.
Após a presidência, Itamar foi novamente alijado dos centros de decisão. Rompeu com Fernando Henrique Cardoso por discordar de sua política econômica recessiva. Foi impedido de se candidatar a presidente do Brasil em 1998 por lutadores de karatê que invadiram a convenção do PMDB a soldo de FHC e seu projeto de reeleição. Como prêmio de consolo disputou e venceu as eleições para governador de Minas Gerais. Apoiou a eleição de Aécio Neves para sua sucessão para tentar novamente a presidência – só para ser outra vez sabotado pelo PMDB em 2002. Apoiou Lula, ganhou um cargo diplomático no exterior. Depois foi para o PPS e bandeou para o lado tucano em 2006. Terminou a carreira e a vida novamente como senador por Minas Gerais. Como última malandragem, deixa a vaga no Senado (e o foro judicial privilegiado) para Zezé Perrela, o presidente do Cruzeiro que amealhou fortuna não se sabe como, mas que vem sendo investigado pelo Ministério Público por desvios de dinheiro do clube.
Se desconsiderarmos tudo que Itamar fez antes desse momento mágico em que enfrentou um dos períodos mais difíceis de presidência do Brasil, bem como sua posterior trajetória política, poderíamos dizer que ele foi a figura mais importante da política brasileira recente. Para confirmarmos esta interpretação, basta usarmos um pouco a imaginação e pensarmos o que teria sido do Brasil se o mais provável acontecesse, e o governo de Itamar tivesse sido ainda pior que o de Collor.

“Na verdade, o pessoal da Articulação (leia-se José Dirceu) já tinha ficado com raiva dela por ter sido eleita prefeita de São Paulo, e lhe tinha feito o pior tipo de oposição…”
Nunca entendi isso. Ficaram com raiva dela por que?
Porque não era da Articulação, porque era mulher, porque era nordestina, porque era lésbica, porque não deixava roubarem para o partido, porque continuou morando num apartamento de 70 metros quadrados depois que terminou o mandato, porque trouxe notáveis para o secretariado (Marilena Chauí, Paulo Freire) e não os cupinchas. Em resumo, ela só saiu candidata por que achavam que ela não ia ganhar. Um monte de motivos mesquinhos.
O texto tem uma imprecisão, Collor, apesar de não ser o preferido das “famiglias” , sempre teve espaço privilegiado na nossa imprensa.
Veja no documentário “Os Arquitetos do Poder” o depoimento do jornalista Claudio Humberto, que criou uma série de factóides positivos vinculados ao então Governador de Alagoas antes do lançamento da candidatura Collor Presidente, todos com ampla cobertura nos telejornais e capas de revistas semanais.
É verdade. Mas não acredito que eles já estavam de olho em elegê-lo presidente.
Por outro lado, houve manipulação descarada no 2° turno, que foi um vale-tudo rasteiro contra Lula.
Mas a grande mídia era muito PSDB, se aferraram a Collor no final da campanha, quando depararam com a opção entre ele, Brizola ou Lula.
“Itamar Franco, muito mais que um presidente-tampão”..quase um presidente OB, quiçá um presidente-modess..