O début de Chimamanda Adichie
por Maria Ivonilda
Como seria nosso cotidiano se, aos poucos, aprendêssemos a conviver com a falta de fatores importantes nas nossas vidas – como a liberdade? E se a nossa existência fosse marcada pelo medo – medo do outro, medo de si mesmo? São essas as principais questões que marcam o romance de estreia da escritora nigeriana Chimamanda Adichie.
Em Hibisco Roxo, a protagonista Kambili, que também é narradora da história, nos apresenta toda angústia e insegurança de uma adolescente que foi condenada a viver em um ambiente patriarcal e extremamente católico. Condenada porque seu pai, Eugene, não só exerce sua autoridade sobre o resto da família, como incorre em um autoritarismo que vai se apresentando ao longo da história como perigoso.
No livro, há uma dualidade que confere um caráter todo especial à obra, que é a dualidade entre o universo cuja ordem é regida pelo seu pai, Eugene, e o universo que eu vou chamar aqui de universo-oposto, que abrange tanto a vida de seu avô, pai de Eugene, que está ligado às tradições primitivas do povo nigeriano, quanto a vida de sua tia Ifeoma, professora universitária, que permite com que seus filhos vivam de forma mais livre que os dois filhos de Eugene.
As questões apontadas anteriormente são colocadas na medida em que vamos conhecendo os fatos – que são apresentados segundo a perspectiva de Kambili. Afinal, se de um lado há a tirania religiosa de seu pai aterrorizando o cotidiano da família e impedindo que seus membros exerçam a própria liberdade, ainda que ele seja respeitado pela comunidade, de outro há a descoberta de uma realidade diferente da qual ela está acostumada a vivenciar – realidade na qual, apesar de todos os problemas de cunho social e político, Kambili reconhece um outro modo de vida, que é isento de medo. Mas nessa “descoberta”, Kambili depara-se com suas próprias fragilidades, com o medo que ela mesma alimenta. É nesse momento que qualquer atitude sua passa a se tornar decisiva.
Na medida em que entramos em contato com a história de Kambili, passamos a conhecer também a própria realidade da Nigéria, que é formada por elementos díspares que muitas vezes se colocam como contraditórios uns aos outros. Na narrativa, nos deparamos com problemas surgidos a partir de questões históricas e culturais específicas desse país, como quando nos são apresentadas as diferentes interpretações que os membros da família fazem a respeito da “colonização”.

-- A autora --
Visualizamos na história ao menos três perspectivas distintas: a perspectiva de Eugene, que representa a aceitação de uma oposição externa (colonizadora) através da assimilação de uma religião e todas as suas convenções, o que só se confirma também na escolha de educar seus filhos na língua inglesa; a perspectiva do avô, que representa a constituição de um caráter cultural distinto do primeiro, marcado pela recusa de convenções que nasceram com a colonização e pela auto-afirmação através do resgate de uma forma antiga de viver, predominantemente nativa; além da perspectiva da nova geração (formada pelos filhos de tia Ifeoma), que é constituída pela reinterpretação de valores.
Se fosse uma história comum, seria inevitável fazer juízos de valor reducionistas e associar essas perspectivas a conceitos de atraso e progresso. Mas a autora é tão sutil na condução das imagens, que no fundo identificamos um hibridismo na composição de seus personagens: Eugene, por exemplo, é dono de um jornal crítico e questionador e vive arriscando a vida devido às denúncias de corrupção que são publicadas em seu jornal. Todo o cuidado de Adichie com a apresentação de personagens se deve, creio eu, ao fato de que ela esteja lidando com a própria face da Nigéria à qual fiz referência, pois os personagens carregam a responsabilidade de nos apresentar o olhar das identidades que compõem o contexto social da realidade da Nigéria hoje, bem como as tentativas de encontrar uma identidade nacional depois da colonização.
Não posso deixar de comentar minha surpresa com o desfecho dado à história da Kambili — ou seria à história da Nigéria? Seria essa a visão de Adichie a respeito das tentativas de construção de uma identidade nacional em seu país? Mas essa é uma outra discussão.
::: Hibisco roxo ::: Chimamanda Adichie (trad. Julia Romeu) :::
::: Companhia das Letras, 2011, 328 páginas :::
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