Declínio e queda dos mestres de fantoche

Milhares de pessoas se reuniram em Srebrenica na última terça para marcar o 16º aniversário do massacre, perpetrado pelos esquadrões da morte de Ratko Mladic, de 8.000 muçulmanos bósnios, o pior crime de guerra que a Europa viu desde 1945. Genocídio sempre gera debates furiosos, e o assassinato em massa de 1995 foi contestado não apenas pelos homicidas sérvios ansiosos por escaparem da justiça, mas também pelo que a maioria das pessoas chama intelectuais de “esquerda” – embora “ocidentalistas” ou “odiadores do ocidente” sejam termos mais precisos.
Noam Chomsky, Tariq Ali, o falecido Harold Pinter e Arundhati Roy defenderam uma excêntrica escritora chamada Diana Johnstone. Ela chegara à conclusão de que “engano e ilusão em massa levados a cabo pela mídia e políticos” tinham levado o público a acreditar que o ocidente intervira nos Bálcãs para salvar vidas bósnias ao invés de para expandir as fronteiras do império americano. Srebrenica não justificava a decisão da OTAN de aumentar o ritmo de seus ataques aéreos contra alvos sérvios. “Na medida em que muçulmanos foram verdadeiramente executados” – e Johnstone achava que os sérvios haviam matado apenas 199 – “tais crimes têm todas as características de espontâneos atos de vingança, não de um projeto de ‘genocídio’.”
Após o editor de uma revista de esquerda sueca dar palanque a Johnstone, seus funcionários e o comitê editorial confirmaram as melhores tradições da esquerda ao se revoltarem. Em resposta, em uma carta aberta à publicação, Chomsky et al repreenderam os jornalistas suecos por sua impertinência. Os signatários não se limitaram a declarar que Johnstone tinha direito a expressar suas opiniões, mas aclamaram seus textos como um “um extraordinário trabalho, discordando da opinião em voga, mas através de um apelo aos fatos e à razão.”
Eu evoco as memórias desse evento miserável porque Chomsky é co-autor do jornalismo “modelo propaganda”, teoria endossada por um grupo surpreendentemente amplo e díspar. Chomsky acreditava que jornalistas corruptos seguem os projetos de seus ricos patrões e anunciantes corporativos, e fazem lavagem cerebral para que a população acredite nas mentiras das elites políticas e comerciais. A sordidez das valas comuns de Srebrenica deveria tê-lo descreditado de uma vez por todas.
Porque sua idée fixe o obrigava a acreditar que os lacaios do imperialismo americano estavam inventando histórias sobre atrocidades sérvias para justificar a expansão do poder ocidental, ele se aliou aos apologistas até onde conseguiu. Não diretamente, mas pela tática furtiva e pouco viril de inflar o ego de uma autora que colocou “genocídio” em espantosas aspas e anunciou que nenhuma matança organizada havia ocorrido.
A crença em que a mídia manipula as massas tem apelo para a extrema esquerda porque seus partidários precisam explicar por que nunca ganham ou passam perto de ganhar uma eleição democrática. Ao invés de aceitarem que o eleitorado os rejeita devido a suas ideias serem falsas ou tolas, eles decidem que os mestres de fantoche corporativos movimentam as cordinhas dos cidadãos e os induzem a votar contra seus “reais” interesses.
Trotskistas não são os únicos incautos adeptos da fantasia. Conservadores estão igualmente convencidos de que manipuladores midiáticos os estão contrariando. Os ataques do Mail e do Telegraph à tendência da BBC são uma tentativa igualmente conveniente de evitar encarar suas próprias imperfeições. Não fosse a propaganda de locutores liberais, os britânicos respeitariam a santidade do casamento, iriam à igreja, renunciariam ao estado de bem-estar social e exigiriam a privatização de escolas e hospitais. Mas os liberais não são imunes aos delírios chomskyanos. Quantas e quantas vezes eles defenderam que são os “tabloides” que forçam os governos a serem duros com o crime e a imigração ilegal, e falham em reconhecer que a maioria do eleitorado jamais apoiou o tratamento leniente a transgressores ou à imigração em massa?
Por todo canto, desapontados e indignados insistem que uma conspiração midiática fez a cabeça de eleitores estúpidos. Ao invés de tentarem vencer argumentos em disputas abertas, eles choramingam que a partida já tem resultado definido.
Não quero dizer que não existe tendenciosidade na mídia. Estou dizendo simplesmente que a evidência de que jornais e redes de rádio e tevê fazem mais do que pregar para os já convertidos é fraca, para dizer o mínimo. Levando-se em conta a circulação, 74,8% da imprensa apoiou os conservadores na última eleição britânica, mas apenas 36,1% votou em David Cameron. Apenas 13,3% da imprensa apoiou Brown, mas 29% do eleitorado votou no candidato trabalhista. Exceto em estados ditatoriais, e talvez na Itália de Berlusconi, o cidadão conectado à internet tem demasiadas fontes de informação para que os propagandistas consigam controlar tudo. A única escapatória para os crentes do modelo de propaganda é dizer que não importa se trabalhistas ou conservadores vençam as eleições, porque suas políticas são idênticas. Depois da experiência de Cameron e Clegg no poder, nenhuma pessoa séria pode acreditar nisso.
Os seguidores mais dedicados de Chomsky são, no entanto, nossos políticos e oficiais de polícia. Convencidos de que Murdoch tinha a habilidade para escolher o governo deste país, eles permitiram que sua News Corporation subvertesse as leis públicas que regulam a competição e a propriedade midiáticas, e desafiasse o primeiro princípio da lei penal, que diz que a polícia deve tratar todos os suspeitos de forma igual. Suas próprias ações tornaram a supremacia de Murdoch uma profecia auto-realizável. Quanto mais ele usava sua influência sobre políticos para expandir seu conglomerado, mais poderoso parecia. Para dizer de outra forma, a classe política criou um deus e em seguida caiu de joelhos para adorá-lo. A imoralidade da News Corp, bem como seu controle de quatro jornais e da BSkyB, explica por que tantos acreditavam que ela podia fazer lavagem cerebral nos britânicos. Um inescrupuloso proprietário de jornal tem uma vantagem que nenhum CEO possui. O News of the World e o Sun de Murdoch, e de certa forma seu Sunday Times, podiam implicitamente ameaçar usar de chantagem contra qualquer político, servidor público ou jornalista que cruzasse o caminho de seu mestre. Se ministros estiveram com uma prostituta ou reguladores tiveram casos extra-conjugais, deviam pensar duas vezes antes de encarar uma organização que pode ter nos arquivos detalhes de suas indiscrições.
Murdoch parecia intocável. Mas democracias são mais fortes do que parecem. Após o massacre de Srebrenica, a OTAN finalmente encontrou vontade política para pôr um fim à agressão sérvia. Contrário às previsões de pessimistas, a intervenção transformou Mladic, de um triunfante líder militar, na figura fatigada que agora vemos respondendo por seus crimes em um tribunal de Haia. Após o escândalo de hacking, Murdoch não é mais o mestre de fantoche que decide o destino de nações, mas um homem velho e cansado – que não é sequer um inglês velho e cansado. Como Mladic, ele está à disposição de qualquer um.

É mais do que evidente que o que Cohen chama de “esquerda” é muito diferente do que é a esquerda em, por exemplo, países em desenvolvimento ou em países subdesenvolvidos. É evidente que há frases no texto que, vistas sob a realidade, seriam puro delírio. Textinho tendencioso e sofrível.
Pô, filhote, se alguma coisa o texto faz, é a seguinte: criticar direita e esquerda. E, sei lá, por que a esquerda daqui seria melhor do que a de lá? Qual é o intelectual de esquerda, brasileiro, que não tenha respeito pelo Chomsky? Além de tudo, o texto justifica o que aconteceu no Brasil em um passado recente: com uma mídia oposicionista em sua maioria — não uma maioria absurda como alguns colocam, mas enfim –, o PT venceu as eleições presidenciais.
Na real, esse episódio que o Chomsky protagonizou nos anos 90 que é sofrível.