A vida só é suportável porque acaba

por Ana Sesarino

As coisas mais excitantes da vida são justamente aquelas que não se sabe quanto tempo vão durar, ou que estão programadas para durar pouco. É isso que faz uma viagem de férias ser tão divertida, mas uma mudança definitiva de cidade ser tão difícil. É isso que faz as “ficadas” serem tão empolgantes, e muitos casamentos tão entediantes.

Sim, promessas de eternidade tendem a ser brochantes. Já nos anuncia o ditado que “tudo o que é bom dura pouco”. E assim se torna. Você pode fazer cara feia pra o que estou dizendo, até porque uma boa parte das pessoas diz querer amor eterno, mas sejamos práticos. Pense numa comida que você gosta. Agora imagina que você irá comê-la em todas as refeições, para sempre. Não dá. Não há quem agüente nada, eternamente. (Nem que seja Nutella!)

Talvez por isso muita gente que se ama precise, de vez em quando, ficar longe um do outro, para lembrar o quanto se gostam. Daí os casais ioiôs, que terminam e voltam compulsivamente.

E talvez, ainda, por isso, o casamento seja algo que gera tanta controvérsia entre os sexos. Diz o clichê que as mulheres querem casar, e os homens, não. Chamam, inclusive, o casamento de morte. E não deixa de ser, de certa forma. Casar significa que você encontrou a pessoa com quem quer passar toda a sua vida. (Estão fadados à separação os casamentos onde a pessoa pretende se separar no mês seguinte, certo?) Assumir que você conseguiu algo, de certa forma, é lidar com uma morte simbólica. A morte da busca.

As pessoas reclamam compulsivamente da faculdade, no entanto, muitos sentem a falta dela (ambiente universitário, colegas, professores) ao se formarem. Aliás, as pessoas choram muito em formaturas, como em casamentos. São choros de alegria (na maior parte das vezes), de alívio, mas ainda assim, são choros.

Os franceses usam a expressão “La petit mort” (a pequena morte) para se referirem ao orgasmo. Daí, talvez, o fato de algumas pessoas (mulheres, normalmente) chorarem após as relações sexuais.

Então estou dizendo que as coisas boas da vida acabam, e que ainda bem que é assim. Porque pior do que aquilo que acaba é aquilo que não termina.

20 comentários | Dê sua opinião

  1. Brunna N. 08/07/2011 em 4:26 pm

    ‘Sim, promessas de eternidade tendem a ser brochantes.’
    Texto excelente! Pra variar né?
    ;)

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  2. Marlos Drumond 08/07/2011 em 4:55 pm

    Como já diria o nosso querido poetinha: “Tristeza nao tem fim… felicidade sim” Música que estava cantarolando hoje. Uma das coincidencias do dia… Sempre com ótimos textos Ana. Parabéns!

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  3. Luh 09/07/2011 em 3:15 am

    e o pra sempre sempre acaba…

    “Sempre” tem tanto peso sobre nós…

    Maravilha de texto!
    E, Ana, bom ver seu rostinho no final :)

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  4. Ayanne Sobral 09/07/2011 em 4:20 pm

    ‘ Habituar-se à felicidade seria um perigo social, porque as pessoas felizes o eram, menos sensíveis a dor humana… E isto representaria uma fuga imperdoável ao destino humano, que era feito de luta e sofrimento e perplexidade e alegrias.’ [Clarice Lispector]

    Não tem jeito, Ana: eu leio você e lembro de Clarice, seja onde for.
    O texto está lindo, de uma suavidade tão comovente que nos faz dançar em suas linhas. Eu fico pensando o que dizer sobre tudo isso que se reflete na sua escrita e, por não saber, me reservo o lugar comum que, a despeito de sua condição quase-clichê, tudo diz: lindo. Lindo.

    Parabéns, Ana.

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  5. Lívia Azzi 10/07/2011 em 5:33 pm

    Breve, forte e tocante, Ana!

    Felizes daqueles que aprendem a conferir um toque de impossível e efêmero naquilo que parece possível e eterno.

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  6. cassiana 10/07/2011 em 5:57 pm

    é, você te razão ana, o grande prazer mesmo está no desejar no querer, uma vez conquistado o desejo surgem novas expectativas e um vazio e parece que vivemos em busca de novos quereres.
    ai qe confusão rs
    mas uma coisa que me chamou a atenção foi seu título, porque pra mim por vezes é quase insuportável pensar que a vida, ou as coisas boas enfim, vão acabar. não sei o quão consciente disso devemos estar pra que vivamos de fato em paz.
    beijo

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  7. Vanessa 10/07/2011 em 6:33 pm

    A morte da busca.

    Perfeito.

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  8. Priscila Rôde 10/07/2011 em 9:19 pm

    O pra sempre, sempre traz muita falta.

    Texto maravilhoso Ana.

    Um beijo.

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  9. Allyne 10/07/2011 em 9:29 pm

    Lembrei de uma reflexão de Hidger que ao afirmar que o homem é um ser para morte , nos coloca diante d euma condição invitável: somos mortais, e se não o fossemos certamente o homem, o ser humano não seria o que é , como é , nem da forma que é.

    Adorei a refelxão…

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  10. Alex. Chacon 12/07/2011 em 1:02 am

    Gostei bastante do texto e me surpreendi por ter sido escrito justamente por uma mulher..jovem, bonita e ainda lúcida! Bem, não que estas coisas sejam incompatíveis mas são atributos quase que inconciliáveis se levarmos em conta que grande parte dos sonhos e ilusões são nutridos por mulheres e ainda jovens.

    Agora, deparo-me com um texto que muito vem a calhar com o que penso. Grande parte das mulheres, não descartando alguns poucos homens também, acreditam naquilo que desejam e por este motivo, são despejadas cobranças de suas ilusões despedaçadas pela fatítica realidade.
    «Se a nossa existência não tem por fim imediato a dor, pode dizer-se que não tem razão alguma de ser no mundo. Porque é absurdo admitir que a dor sem fim que nasce da miséria inerente à vida e enche o mundo, seja apenas um puro acidente, e não o próprio fim. Cada desgraça particular parece, é certo, uma exceção, mas a desgraça geral é a regra.»
    SHOPPENHAUER, Artur

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  11. Paulo 12/07/2011 em 3:59 pm

    Sim , é verdade que muitos de nós anseiam por uma vida cheia de mudanças. Isto é tão antigo como a humanidade, e se tornou obcessão no mundo moderno. O tema não é novo. Mestre Freud o abordou em ¨mal¨-estar na cultura¨. Goethe ja falava que não há nada tão terrível quanto uma sucessão de dias belos. Schoppenhauer foi craque no assunto. A sua abordagem hedonista aqui a meu ver no entanto com todo respeito , é logicamente equivocada, pois parte do pressuposto que o que torna a vida sustentável é a mudança com perspectiva de recomeço. A morte minha cara é outra coisa; é o fim absoluto do eu. Como diria Shakespeare : é um sono eterno sem sonhos. Tomando a mudança ( fim com recomeço) como condição de sustentabilidade , a morte seria o pior dos infernos pois esta sim , é o fim absoluto . Seguindo sua linha lógica , correto então seria dizer: A vida só é suportável porque ela permite a mudança e é portanto muito melhor do que a morte . Eu proporia uma abordagem diferente , concordando com você quanto ao título. A vida só é suportável porque tem fim. Se assim não fosse cada um de nós estaria condenado a viver eternamente literalmente tudo ( cada um de nós um dia ganharia a megasena infinitas vezes e viveria na miséria infinitas vezes ,amaria infinitas vezes e esqueceria todos os amores já vividos interminavelmente, seria funcionãrio de banco infinitas vezes e também astronomo outras infinitas e… e… e… infinitas vezes e esqueceria tudo ao longo da linha do tempo pois a memória do que vivemos é o que determina o que somos e é pequenina demais para o eterno .

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  12. ana 12/07/2011 em 9:55 pm

    Olá, Paulo!

    Agradeço pela sua leitura e também pelo seu comentário. Mas não ficou claro para mim em que é que você discorda.

    Penso que a morte é inevitável, pois parir é condenar à morte. Porém, a morte como simbólica, parece-me de grande importância.

    Disse Clarice Lispector, em “A hora da estrela”, algo como….todo mundo precisa de uma mortezinha de vez em quando…

    Abraços!

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    • Paulo 13/07/2011 em 10:50 am

      Olá Ana,

      Seu texto é centrado no eu, o sujeito que deseja. Pensemos na nutella. Podemos suportar nutella eternamente sim , desde que tenhamos a escolha -e temos, de parar de comê-la quando desejarmos, e se o fizermos hoje , um dia no futuro desejaremos comê-la mais uma vez. O que importa aqui é a possibilidade de escolha e o futuro intrinsicamente permite . A vida requer mortes simbólicas, concordo, Melhor dizendo ,a vida impõe mortes simbólicas. Duvido que haja alguem que nunca tenha enfrentado pelo menos uma . Não é que isto torne o viver sustentável, é que simplesmente isto é o viver . A morte real porém é outra coisa – o fim do futuro. ¨A vida só é sustentável porque acaba¨ equivale a dizer na ótica do eu: existir só é sustentável porque um dia não mais existirei e ninguem em sã consciencia , gostaria de substituir a possibilidade ser, eternamente vivendo infinitas mortes simbólicas- fins e recomeços – por um não-ser ( talvez Hamlet ) .

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  13. Carina 13/07/2011 em 10:38 am

    Esses dias tenho pensado que o queremos não é o eterno, é a repetição. Teu texto falou perfeitamente disso.
    Adorei, Ana!

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  14. Gabriel 13/07/2011 em 12:21 pm

    Ola.
    Primeiro: creio que o comentário do Paulo foi equivocado, pois fez-se uma lambança entre as “mortes”. Voce no seu texto fala claramente sobre uma morte simbolica, e não da morte real, como ele pensou.
    A morte real sim, é o fim, mas nessa não pensamos, recalcamos.
    Ja a morte simbolica temos que conviver todos os dias, todos os momentos, não há como fugir dela. Desde uma comida, uma musica, o sexo, e um relacionamento. Todos são fadados e iniciados pela morte, caso não se invista um desejo.
    É mais facil começar algo sem saber como termina, mas o diferencial é saber que pode terminar.

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    • Paulo 13/07/2011 em 2:44 pm

      Olá Gabriel,

      Sim, é verdade . O texto é totalmente focado na morte simbolica, isto está clarissimo e não faço objeções ao que foi dito no mesmo. Talvez eu não tenha sido claro. Minha cisma é com o título: a vida só é suportável porque acaba. O mesmo se refere claramenta à morte real. Há a meu ver então um desencontro entre título e texto pois os dois falam de coisas diferentes. O primeiro se refere à morte do sujeito. O segundo à morte do objeto.

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  15. SamantaSammy 16/07/2011 em 9:25 pm

    Olá !!

    Adorei a forma como abordou o assunto, confesso que nunca tinha pensando desta forma, mas concordo, pois ao ler, me identifiquei bastante com o fato de certos momentos serem tão especiais porque tem uma hora para terminar, então sorvemos cada segundo com voracidade.
    Sobre a morte busca, apesar de parecer cético demais, concordo também, o ser humano precisa de novidades e estímulos, por isso, para manter uma boa relação estável, por exemplo, é sempre necessário mudar a rotina, trazer novos elementos para dar uma ar de renovação e empolgação, se cairmos no conformismo de que já temos alguém “na mão” pra sempre, sem dúvidas, fica entediante, então acho que devíamos também ter consciência de que mesmo após firmado um compromisso, tudo pode findar… e por isso, também pode ser muito bom !

    Um super beijo e bom fim de semana !

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  16. Bíh D'lima 04/08/2011 em 4:31 pm

    Clap,clap,clap!
    Que texto maravilhoso!

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  17. Sirena 21/10/2011 em 5:48 pm

    Será que é por isso que o A.A. aconselha a pessoa a pensar “hoje e somente hoje não beberei” porque desistir pra sempre do vício ou prazer é cruel demais?
    Mas casais que voltam compulsivamente estão com preguiça de achar outro ou não toleram o período refratário entre uma relação e outra?
    As coisas acabam ou não. A vida ,quando acaba, não deixa a menor escolha, todas as outras coisas dependem de se ter encontrado algo mais suportável, nem que seja a solidão.

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  18. Ary 06/12/2011 em 10:19 am

    Prezada Sirena: Você foi feliz ao utilizar essa parte filosófica do A.A. Na realidade, esse propósito serve para inúmeras situações em nossa vida (não só para as dependências). Pensar no dia de hoje como se o ontem já não mais existisse e o amanhã ainda fosse uma possibilidade, sem dúvida, é uma excelente estratégia de vida. Obviamente, não dando um sentido irresponsável à proposta, mas sim, nos comportando, hoje, “como se o mundo fosse acabar”, ou seja, procurando fazer tudo da forma mais perfeita possível. Afinal, quem gostaria de, no momento da morte, estar fazendo uma grande bobagem? Sobre isso, já escreveu assim, um colombiano: “Algum dia, indefectivelmente, em algum lugar, hás de encontrar-te contigo mesmo, e só dependerá de ti se será o dia mais infeliz de tua vida ou o pior dos momentos”. Voltando ao A.A, concordando com você, e acrescentando: o dependente, ao longo do tempo, perde a capacidade de planejar qualquer coisa para além, de uns poucos dias. Viver o presente ainda está no seu campo de domínio. Só por hoje.

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