Universo Eterno

por Otávio Dias – Ouvi, não poucas vezes, e, confesso, reproduzi também, que a ciência não tem por objetivo fundamentar ou refutar quaisquer correntes filosófico-religiosas. Esse discurso, embora não irreal, raramente é exposto ao público leigo como sendo ideal – afinal, quem faz a ciência continua sendo humano, demasiado humano. Esse tópico é discutido no novo livro do físico brasileiro Mário Novello, Do Big Bang ao Universo Eterno.

Neste tomo, editado pela editora Zahar, um apanhado muito interessante de modelos cosmológicos é apresentado de forma bastante acessível ao leitor leigo. Novello não se preocupa em detalhá-los demais – já abordou-os em outros trabalhos, devidamente citados – mas faz apontamentos a respeito do modelo cosmológico de maior sucesso existente, popularmente conhecido como o modelo do Big Bang, porque é exatamente esta a teoria científica que deseja refutar, em nome de outra proposta, a do Universo Eterno.

Toda a argumentação é interessante, porque feita com argumentos muito práticos, em termos cosmológicos e científicos; mas um dos principais argumentos tem origem puramente filosófica: acaso o modelo do Big Bang é um modelo científico? De acordo com o autor a resposta é negativa, afinal a ciência como a conhecemos não pode ser aplicada aos momentos iniciais da existência do Universo, momentos estes presentes na proposta Big Bang; se não podemos sondar tais momentos, pensar em testes e verificar o que ocorreu, como admitimos que a proposta é científica?

Por isso o apanhado de modelos cosmológicos é exibido, enquanto são desenvolvidos conceitos sobre as teorias de relatividade de Einstein (restrita e geral), que são não somente o arcabouço matemático mas também o palco em que são elaborados os modelos cosmológicos modernos – em contraponto aos modelos filosóficos e dogmáticos, que tinham por trás de si eventos que jamais poderiam ser testados e tinham como fundação a fé, somente e tão somente.

É fácil constatar que muitas das informações referentes ao Big Bang são produzidas sem que se obedeça ao compromisso fundamental que qualquer divulgador da ciência – seja ele cientista ou não – deve cumprir. Como a divulgação científica se destina, na maior parte das vezes, a não especialistas – que não possuem as ferramentas formais para avaliar criticamente o que lhes é apresentado –, toda afirmação que se faz e que não teve ainda sua veracidade confirmada pelos métodos convencionais, absolutos e universais da ciência deve exibir para o ouvinte e/ou o leitor sua condição limitada ou provisória.

Novello não pretende, em Do Big Bang ao Universo Eterno, discutir com profundidade as implicações filosóficas do modelo que propõe ou mesmo seus pontos científicos fortes e fracos – e senti falta disso. Mas fiquei feliz, muito, com a clareza de suas ideias e a defesa intensa do método científico e de como devemos abrir nossas cabeças sem deixar que nosso cérebro caia, se estatele no chão.

::: Do Big Bang ao Universo Eterno ::: Mário Novello ::: Jorge Zahar, 2010, 132 páginas :::
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1 comentário | Dê sua opinião

  1. Assis Utsch 27/08/2010 em 5:24 pm

    Entre anteontem e ontem eu li o livro “Do Big Bang ao Universo Eterno”. Eu já havia lido outra obra de Mário Novello – O Que É Cosmologia. Antes da leitura eu havia telefonado para sua secretária no Rio de Janeiro, perguntando sobre um outro livro – Teoria do Universo Eterno – que não foi editado no Brasil, mas que teria sido editado na França. Se eu estivesse no Rio de Janeiro na ocasião, teria feito todo o empenho para comparecer ao lançamento desse seu último livro. Porque, conforme já comentei em outro lugar, a Teoria do Big Bang, que teve a chancela do teólogo-matemátigo George Lemaître, e que recebeu depois o beneplácito do Papa de então (1927 ?), essa Teoria – do Big Bang – parecia não divergir muito do Gênese. A diferença é que neste foram necessários sete dias, enquanto no outro a tarefa foi mais rápida, apenas em milionésimos de segundo Tudo se fez. Sempre achei que o Big Bang, dentre outras estranhezas que a hipótese apresenta, conflita com a própria Teoria dos Buracos Negros. Se esses, que são estrelas que se reduziram a apenas um ponto, de onde nada escapa, como poderia então toda a matéria supostamente contida no ‘átomo primordial’ escapar numa explosão? Poder-se-á dizer que assim como existe a força gravitacional dos Buracos Negros, poderá haver também uma força antigravitacional ainda maior que a primeira. Se ao menos tivessem dito que o Universo seria cíclico, com suas contrações e suas expansões, eu concordaria. Mas dizer que tudo começou no Big Bang ! Desse jeito, prefiriria voltar para o Gênese.

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