No final de 2010 finda o mundo para os Maia

por Lelê Teles – Os maias foram aquela civilização maravilhosa que floresceu na América Central. Embora vivessem em magníficas edificações, trabalhassem o ouro de forma artística e tivessem um extraordinário conhecimento matemático, inclusive com o número zero, são tratados pela historiografia canônica e eurocêntrica como indígenas. Claro que o epíteto indígena aqui tem uma conotação pejorativa.

No entanto, Pizarro, o bizarro personagem ibérico que veio conquistar aquela região, era um imundo soldado raso e analfabeto, e trouxe uma malta de doentes com ele. Ao contrário do que se imagina, não foi Saddam Hussein o primeiro a usar arma biológica em uma batalha, foi Pizarro. Ao chegar ao continente novo com a sua virótica gente, abateu os povos de cá com inúmeras moléstias, tendo feito o povo sucumbir pelas suas imundícies, mais que por sua astúcia.

Pois veja você, um povo que vivia em cidades fortificadas, com uma população maior que a de qualquer cidade europeia, com prédios públicos, templos, com conhecimento de astrologia e astronomia, com um maravilhoso e preciso calendário que os ajudava a metrificar o tempo, prever as estações, plantar e colher sem obressaltos, é chamado de selvagem ou indígena. E um povo jovem, que herdou quase tudo o que sabia dos exploradores árabes e romanos, é chamado civilizado. A Espanha de hoje, embora seja um país, ainda nem é uma nação, e talvez nunca venha a ser.

Mas voltemos aos maias. Por falar em maia e índio, lembrei-me agora, ventilam por essas paragens que o povo maia previu o fim do mundo para 2012. Para César Maia e Rodrigo Maia, da tribo do cacique da Costa, o mundo desaba no final de 2010.

Deficientes Cívicos
O presidente Lula sancionou no dia 20 a Lei do Estado da Igualdade Racial. Um enorme avanço para esta nação racista. No entanto, o sistema de cotas para negros nas universidades e nas inscrições de candidatos nas eleições foi retirado do texto final. Um grande atraso.

O DEM foi à justiça contra as cotas para negros. Ali Kamel usou as Organizações Globo para pregar o seu discurso racista de que não existem raças e nem racismo no Brasil. No Brasil, para os racistas, as raças só existem quando querem justificar que o Brasil é uma país miscigenado, que nasceu da mistura de 3 raças. Mas na hora de assegurar direitos, a raça desaparece.

Com um cientificismo raso dizem que a biologia não determina a existência de raças. Mas no afã de se fazerem assertivos selecionam malandramente o apelo científico que lhes ratifica o discurso. À luz das ciências sociais o conceito de raça está mais do que claro. Raça é uma categoria social. Porque é socialmente que ela se afigura como uma realidade. O negro não é simplesmente uma cor, negro como raça é mais do que cor. Preto é cor, negro é raça. Pode-se se dizer que todo preto é negro, mas nem todo negro é preto. Os negros são os não-brancos, são os pretos, os pardos, os mulatos, os que sofrem discriminação no trabalho, nos shopping centers e que são alvo preferencial de policiais e seguranças. Na sociedade não faltam agentes qualificados para identificar um negro. Embora todos eles digam que o negro não existe. Talvez queiram dizer que o negro não deveria existir.

Na Copa do Mundo realizada na África do Sul, o tratamento dado àquele país pelo aparato midiático tupiniquim destoou de tudo o que já se viu na cobertura de uma Copa. O que soubemos sobre a África do Sul? O que nos contaram sobre a literatura, a música, as edificações, a poesia, os teatros, cabarés, bares, boates, shoppings, praças… o que soubemos sobre a África do Sul além do clichê que já conhecíamos?

Pela primeira vez na minha vida eu ouvi narradores e comentaristas esportivos reclamando do barulho de uma torcida. Falavam das infernais vuvuzelas. As vuvuzelas são velhas cornetas conhecidas dos estádios brasileiros, nem são uma novidade. A novidade foi vê-las sopradas pela boca de negros alegres. Incomodou. Lembro que os nossos narradores falam com entusiasmo sobre os estádios argentinos onde os torcedores não param de gritar e cantar, mesmo que o seu time esteja perdendo. Mas os negros são barulhentos.

Embora as televisões mostrassem estadunidenses, suecos, holandeses, japoneses e alemães tocando vuvuzelas, os narradores insistiam que o barulho incomodava. Se incomodasse porque os não-africanos estavam tocando? O que incomodava é que o som lembrava os negros a tocar, felizes e sorridentes.

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  • http://zatonio.blogspot.com Zatonio Lahud

    Os maias, aquela civilização maravilhosa, também escravizava os povos conquistados por eles. Em África, etnias escravizavam outras. Não existe um povo negro africano. São etnias diferentes; com línguas diferentes; religiões diferentes; e não raro, faziam guerras entre si; como na Europa; como na Ásia; como na América. Como em qualquer lugar onde habitem seres humanos. Hutus e Tutsis estão aí, exemplo recente e triste. A escravidão não é exclusividade de brancos contra negros.Vencedores escravizavam perdedores.

    Claro está que as diversas etnias vindas como escravos da África ( um crime abjeto!) necessitam de maior atenção do Estado, até porque, depois da “libertação” foram abandonados à própria sorte. Mas também o necessitam os nordestinos e milhões de outros brasileiros pobres e vítimas da mais vil exploração. Grande parte deles não negros.

    Que tal unirmos força para exigir do Estado ensino público de qualidade, para todos, como diz nossa constituição, que não é cumprida. Um Estado que arruma bilhões para fazer Copa do Mundo, Olimpíadas e outras baboseiras, deveria ser capaz de dar educação de qualidade a seu povo, a todos! Que tal começarmos a cobrar. Precisamos de mais ação e menos leis. Estas, já as temos em profusão.

    • lele teles

      o primeiro parágrafo do seu texto não sei a quem ele se direciona. Claro está e sempre esteve que a escravidão não foi inventada contra os negors. Claro está que em África há diversas etnias, embora sejam todas elas negras. Não há dúvida que todos os povos imperialistas, e por isso mesmo assim são conhecidos, invadiram, saquearam e escravizaram, em todos os continentes e em todas as épocas. Até aí até o Índio da Costa concorda.

      Mas pelas barbas de Bin Laden. Há um sistema de cotas para pessoas oriundas de escola pública e outra para negros. Há cotas para deficientes físicos em concursos públicos, cotas para mulheres em partidos políticos, há cotas pra burro por aí. O que estranha é que só se contesta as cotas para negros, é a única que é injusta.
      Por que será, meu caro Zatonio?

      • http://zatonio.blogspot.com/2010/07/estatuto-dos-cornos.html Zatonio Lahud

        Lelê, não sou contra as cotas, ao contrário. Só que nós, brasileiros, temos mania de usar medidas paliativas e deixarmos por isso mesmo. Não vejo uma cobrança forte e incisiva dos movimentos sociais por uma profunda e radical mudança no ensino público, que anda uma vergonha. Um governo de esquerda tem de mexer com um estado de coisas deplorável e essencial como esse. Sou até radical na questão: Federalizar o ensino primário e médio e acabar com o ensino privado. Botem os filhos das elites em escolas públicas. Verbas não faltarão mais.

        Quanto ao primeiro parágrafo, muita gente não sabe, e quantos as cotas pra burro, desconhecia…

      • http://caducando.wordpress.com Otávio

        Entre outras coisas, porque no Brasil há uma mistura muito grande de pessoas. Qual a cara do brasileiro? Loiro, de olhos claros? Olhos puxados? Ruivo? É uma relação muito diferente de se determinar mudez, cegueira, entre outras coisas. A quantidade de deficientes físicos pode ser diretamente mensurada; qual o critério pra se determinar se alguém é negro? Será que eu posso me candidatar a uma vaga pra negros?

        A herança de uma polícia que não funciona tem relação com mau treinamento e uma criação pobre, sem cultura, cheia de preconceitos. O negro também arroxa o negro.

        “As vuvuzelas são velhas cornetas conhecidas dos estádios brasileiros, nem são uma novidade. A novidade foi vê-las sopradas pela boca de negros alegres. Incomodou. ”

        Que distorção. Pra isso, só o que posso dizer é: “um elefante incomoda muita gente, dois elefantes incomodam muito mais.”
        Tem uma diferença na quantidade de cornetas e não de cores.

  • Eduardo Júlio

    Embora concorde com quase tudo o que foi afirmado pelo autor. É necessário alertar para o bem da história que Francisco Pizarro não dizimou os Maias e sim os Incas. Quando os conquistadores espanhóis chegaram às Américas, a notável civilização Maia, da América Central, já se encontrava em decadência, sendo superada pelos Aztecas. Pizarro comandou o extermínio dos Incas, na América do Sul, e Fernando Cortez tratou de eliminar os Aztecas, na Central.

    Outra questão é que Sadam Hussein não foi o primeiro a utilizar armas químicas. Muito antes, os Estados Unidos no Vietnã, como todos sabem, despejaram toneladas de napalm na população camponesa e indefesa vietnamita, consolidando um dos maiores crimes de guerra cometido e jamais punido.

  • lele teles

    Eduardo, vc tem razão. Pizarro investiu contra os incas. Acho que fumei o cachimbo de índio da costa.

    • lele teles

      mas veja você, Eduardo. Parece que não fui só eu quem fumou o cachimbo estragado do cacique da Costa. Napalm é arma química e não arma biológica!

  • rafael

    Concordei com o texto. Mas vuvuzela é mesmo um pé no saco.

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  • charly

    saramago morreu de desgosto

  • Bosco

    Também acho vulvuzela uma tortura idiota e desnecessaria num estádio. Além de provocar a surdez.

    Ela abafa aqueles sons naturais e maravilhosos da torcida como o Vixeeeeee no nordeste e o uuuuuuuu lá no sul.

    “As vuvuzelas são velhas cornetas conhecidas dos estádios brasileiros, nem são uma novidade. A novidade foi vê-las sopradas pela boca de negros alegres. Incomodou. ”

    Independentemente da côr da pele do torturador e de quem as toca é uma idiotice, e afastará torcedores dos estádios. Tomara que seja banida pela FIFA.

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