28–07–2010

Minhas impossibilidades pessoais


por Anna Raíssa * – Apesar de não acreditar muito na existência de deus, de extraterrestres e nas informações nutricionais dos pacotes de biscoitos, eu tenho algumas certezas na vida.

Uma delas é que eu nunca vou conseguir ler todos os livros que eu tenho (e que vou comprar até o fim da vida), ouvir todos os discos que baixei (e que baixarei), nem todos os filmes da minha lista interminável. Nem vou conseguir usar todos os esmaltes que desesperadamente compro toda vez que vou à farmácia.

Eu poderia estar muito angustiada com isso tudo, entrar num looping desesperado, começar a classificar os livros, discos e filmes por ordem alfabética e não adquirir nenhum nem acrescentar nada às listas até terminar de ler, ouvir, ver (tenho um amigo que classificou sua biblioteca de mídia de 4 Gigas por autor, passou de Bach a Beatles, resistiu bravamente a toda a discografia do Chico Buarque e pretendia ouvir todos os mil discos da Maria Bethânia mas fraquejou perante “Viva a Brotolândia”, de Elis Regina). Não digo que eu não tentei, mas é um trabalho tão chato que eu precisaria ter TOC ou um estagiário pra conseguir levar o plano até o fim. E eu poderia estar desesperada com o fato de ter só dez dedos e boas dezenas-and-still-counting de esmaltes não usados, a maioria “vermelho e tudo igual” segundo meu irmão, meu chefe e a maioria das minhas amigas.

Mas NÃO.

Não porque a Colorama acabou de lançar uma coleção nova, porque o Dead Weather também lançou disco novo, porque eu estava conversando com um amigo e ele me indicou três filmes tailandeses que eu devo assistir. Não porque o Bob Dylan não para de lançar versões de suas próprias músicas, porque eu ainda não vi todos os filmes do Tarantino nem li todos os livros do Gabriel García Marquez.

Não porque enquanto eu escuto um disco de 2001 do System of a Down, eu espero ansiosamente pelo disco que o Serj Tankian ainda não lançou, porque toda vez que eu escuto uma música nova por aí eu quero ouvir o disco todo, porque eu gosto de vozes graves e vou ficar escutando Dylan, Nick Cave e Mark Knopler for ever and ever e por causa de Natural Born Killers agora eu vou escutar Leonard Cohen até cansar.

Não porque toda vez que eu leio Walter Benjamim eu quero ler Baudelaire, e toda vez que eu leio Baudelaire eu quero ler Rimbaud. E toda vez que eu vejo um filme do Christopher Nolan eu quero ver todos, e depois todos com o Christian Bale e depois todos do Batman. E toda vez que vejo um Batman eu quero comprar uma HQ nova.

E toda vez que eu vou comprar uma HQ nova eu não consigo sair da livraria só com a HQ.

O problema é que o mundo é muito e eu sou só uma.

* Anna Raíssa é formada em Letras pela Universidade de Brasília.

Leia também:

| 17 comentários | Dê sua opinião ↓ |
| feed dos comentários deste post |

  1. rayssa gon (28–07–2010 9:23 am)

    se o desespero bate quando se trata de livros, filmes, musica e esmaltes fica ainda pior quando colocamos a internet no meio.

    aí são blogs, twitters, vlogs, tumblrs, perfis.. e vai vai vai.

    dá pra perder (ganhar?) uma vida nisso. :D

    a linha de vermellhos pecado da colorama (ou será da risquè?) é absoluta!

    -Responder

    Anna Raíssa:

    colocando a internet no meio é onde mora o perigo!
    .
    uma vez ouvi um cara num bar, na mesa ao lado da minha, choroso: eu não posso casar! tanta mulher no mundo que eu ainda não beijei!

    cada um com as suas paranoias pessoais :D

    e, meldels, o que são aqueles vermelhos? <3

    -Responder

  2. Rafael Guerreiro (28–07–2010 12:23 pm)

    Muito Bacana Anna, parece que somos da mesma tribo rsrsrsrs .

    Abraço

    -Responder

    Anna Raíssa:

    a tribo dos “meldels, eu caso ou compro uma bicicleta?”? rs

    -Responder

  3. Jota Lopes (28–07–2010 3:01 pm)

    Desespero não tenho. Tenho, sim, uma frustação muito grande ..porque certamente não poderei ler todos os clássicos, desde os gregos e latinos, passando pelos neo-latinos e outros mais. Também não ouvirei todos os barrocos, para não falar dos clássicos e românticos alemaes e parecidos. Entretanto, sinto-me feliz porque sempre leio os livros que consigo comprar e ouvir a música que me apraz.
    Por fim, o texto de Anna Raissa ( espero ler outros) faz-me lembrar um casal de intelectuais muito badalado nos idos 50/60 e de quem hoje nem mais se fala nas universidades. A Anna sabe de quem falo.

    -Responder

    Anna Raíssa:

    já passei pela fase da frustração, e já passei pela angústia – mesmo que ela ainda seja recorrente.
    Levarei sua lembrança do meu texto como elogio =)

    Abraço.

    -Responder

    Jota Lopes:

    Anna, de fato minha lembrança dos idos de outrora é, sim, um elogio à beleza de seu texto. Primeiro, porque a época a que me referi é muito, muitissimo anterior à Universidade de Brasília. Segundo, porque a angustia existencial de outrora não tem nada a ver com estados depressivos de hoje. A crise existencial tinha sua origem nas teses de Jacques/Raissa Maritain e na dupla Sartre/Beauvoir que líamos ao lado de Kerkegaard e Marx, mesmo num simples curso de letras onde imperavam Fernando Pessoa e Baudelaire/Rimbaud. Por essas e outras razões é que me lembrei dos velhos tempos de outrora. No mais aguardo uma nova crônica de você.
    Abraço.

    -Responder

  4. Tonhão Brabeza (28–07–2010 4:57 pm)

    Oi mina se quiser uma ajuda pra le iço tudo, poder chama o Tonhão Brabeza aki. Nóis é predero mas sabemo juntá sílaba.

    -Responder

    Anna Raíssa:

    gente, eu jurando que Tonhão era nome de caminhoneiro O_o

    -Responder

  5. Yoko (28–07–2010 6:26 pm)

    O lado bacana do esmalte, da musica, do Dylan, dos homens, do novo, do velho, da roda, das manias e de um tudo é poder passar por novas sensações e se divertir com elas. Isso faz o meu mundo girar tão rápido que, de repente, já ouvi cinco discografias, mas não terminei o mesmo livro.

    Multiplicidade faz parte da construção do caráter moderno. Mas é bom continuar a ser um só.

    Beijo, annaráaa =)

    -Responder

    Anna Raíssa:

    às vezes é difícil trabalhar a angústia de ser um só.

    Beijo, Yoko quérida =D

    -Responder

  6. Ju Dacoregio (29–07–2010 6:48 am)

    Estou com esse problema de querer “tudo ao mesmo tempo agora” também, e quanto mais o tempo passa, mais essa ansiedade me toma! Tenho 3 blogs, escrevo pra dois veículos on-line, faço assessoria de mídia pra duas a três empresas dependendo da época, tenho uma lista de filmes sobre escritores que PRECISO assistir, mais outra lista que fui escrevendo enquanto lia 1001 filmes para ler antes de morrer, tenho listas de “livros que sempre quis ler” grudada no meu painel de recados e outra perdida em algum lugar da gaveta de bagunças.
    E, agora que você falou em Leonard Cohen e Baudelaire, lembrei que me interessei em ouvir mais músicas dele e acabei esquecendo e que não terminei de ler Paraísos Artificiais…
    Acho que preciso de um Rehab!

    -Responder

    Anna Raíssa:

    precisamos! precisamos! rs

    -Responder

  7. Nicolau (30–07–2010 7:50 am)

    Se fosse eu outro, diria para se controlar, put your sekf together, focar, coisa e tal. Sendo como sou, digo que, se você gosta de cantor de voz grave, procura uma banda chamada Morphine que é muito legal. E jogo a internet no meio recomendando esse vídeo (não achei com legendas…) dos Contos da Mera Existência que parece apropriado:
    http://www.youtube.com/watch?v=Y9NgXIkyiwk&feature=PlayList&p=6BDDCF5630A96FC9&playnext=1&index=1
    E termino dizendo: ainda bem que é do Tarantino que você quer ver todos. Aproveita enquanto são poucos. Se fosse o Woody Allen….

    Beijo de um disperso convicto

    -Responder

    Anna Raíssa:

    Ai, esse negócio de focar é muito chato. rs.
    O vídeo é muito bom! aliás, vários deles ;)
    Quanto ao Morphine… ah, Morphine! :D

    -Responder

  8. Marcus Vinícius (30–07–2010 7:09 pm)

    Falando no Bale, vc já viu “The Machinist”?

    Ótimo filme!!!

    -Responder

    Anna Raíssa:

    huumm, ainda não vi não! vou aproveitar que o fim de semana ta aí e…. (ai, lá vamos nós de novo!)

    -Responder