Martelou a mãe e escreveu um livro
por Juliana Dacoregio – Tudo que você não soube (2007) foi o sétimo romance de Fernanda Young, escritora, apresentadora de TV e polêmica em tudo que faz ou fala. Diz-se de Fernanda que ou você a ama ou a odeia. Discordo. A importância dessa mulher-polêmica é justamente o fato de não caber em simplificações do tipo “ame ou odeie”. Eu, por exemplo, às vezes a considero chatíssima, mas mesmo assim não deixo de admirá-la, de concordar com muitas de suas posturas e me identificar com o que ela escreve. Enfim, na minha opinião, esse negócio de “ame ou odeie” é para os fracos. Emocionalmente e intelectualmente falando.
Narrado em primeira pessoa, Tudo que você não soube traz logo de início o aviso de que todos os fatos e personagens apresentados são um exercício de ficção (um doloroso exercício, enfatiza a autora).
Não é um romance convencional, com tramas em ordem cronológica e conflitos a serem solucionados. Os mistérios desvendados ao longo da história são as reflexões da personagem e seu relato sincero a respeito da infância, da vida familiar e das circunstâncias que podem fazer com que “pessoas normais” cometam atos altamente reprováveis pela sociedade.
A narradora é uma mulher beirando os 40, classe-média alta, mãe de dois filhos, com um casamento estável, que resolve escrever uma carta ao pai moribundo. Claro que, em se tratando de uma escritora que gosta de revirar tabus, como Fernanda Young, não esperemos que essa narradora tenha doces palavras para dizer ao pai no leito de morte. Ela não escreve para pedir perdão ou perdoá-lo. O desejo é revelar-se, contar sua história e elaborar os motivos que a levaram a cometer um ato de extrema brutalidade: martelar a cabeça da própria mãe! É, exatamente isso. A narradora-personagem, esposa dedicada, mulher que vai ao dentista regularmente, freqüenta academia, leva os filhos ao colégio e comparece às reuniões de pais, fez – na vida real – o que só se faria figurativamente (e não sem culpa) no divã do analista: tacou um martelo na cabeça da mãe até vê-la caída em uma poça de sangue.
Não existe maior tabu no mundo do que mãe. Confirmo isso mais ainda, agora, sendo uma. Pois eu posso chegar numa festa de criança e falar de tudo: cu, caralho, boceta. Mas se eu disser alguma coisinha mais cabeluda a respeito da maternidade, todos olham chocados. (pag. 46)
Não é de se admirar que a personagem não espere perdão. Por outro lado, não demonstra arrependimento. Sabe que seu pecado é intolerável, que o impulso a que deu vazão foi de uma violência insana, mas não se esconde atrás da insanidade como justificativa. Quer apenas relatar e compartilhar suas vivências. Quer contar ao pai “tudo que ele não soube”.
Permeando os relatos sobre a infância tediosa, o fascínio adolescente pelas drogas, as conseqüências do crime que cometeu e sua capacidade de transformar-se numa pessoa aparentemente equilibrada, a narradora reflete sobre a condição feminina, a chegada da meia-idade, o relacionamento mãe e filha e divaga sobre o cotidiano.

-- A autora --
Assim como muitos de nós, a personagem criada por Fernanda Young vive uma existência dentro dos limites da normalidade e ao mesmo tempo possui consciência do despropósito da vida. Sabe que não está realizando nada de grandioso, mas resigna-se. Conhece o turbilhão de contradições que habitam-na, mas recusa-se a surtar e crer que rebelar-se contra a ordem vigente a faria, de algum modo, especial. Sua face, simultaneamente satisfeita e amargurada, ou a declarada dissimulação em que vive, só é mesmo revelada nessa carta ao pai, que é o próprio livro.
Pois ajo, o tempo todo, contrária às minhas tendências naturais, forçando-me ao oposto do que me ocorre fazer. Se eu agisse de acordo com o que me seria lógico, ou instintivo, eu acordaria, tomaria uma Coca Light, fumaria um Marlboro e me deitaria de novo. (pag. 66)
Pode ser encontrada certa semelhança entre protagonista e autora nesse sentido. Fernanda Young também é um poço de sarcasmo, rebelião contra o estereótipo feminino. Porém não deixa de ter uma família e uma vida produtiva, como uma “boa mulher centrada”. O inconformismo de Young também é mostrado em seus livros, em sua pessoa pública, e ela é bem sucedida em equilibrar dois pólos opostos: a mãe e mulher que cuida dos filhos e da carreira e a escritora que está à léguas de distância de escrever literatura “mulherzinha”.
Tudo que você não soube é uma pancada na cabeça do leitor. Mas, estranhamente, não é um livro perturbador a ponto de ser não recomendado para ler na cama, antes de dormir. Talvez tire o sono sim, mas pelo fato de ser uma história que pede para ser lida de uma tacada só.
É um romance despretensioso na superfície e extremamente reflexivo em sua essência. Fernanda Young escreve para quem quer pensar, mesmo que ela própria diga qualquer coisa ao contrário.
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fiquei com raiva da critica. serio.
pq me deu uma puta (PUTA) vontade de ler o livro.
beijo.
Ai que delícia deixar um leitor puta com a crítica pq ficou a fim de ler o livro! Adorei!
Fiquei curioso.Vou descobrir em qual mãe ela deu a martelada.
hehe… O mais importante nem é a mãe martelada, mas vai lá, descobre tudo!
Pingback: Juliana Dacoregio
Gostei muito do texto e …me deu também vontade de ler o livro! E tenho para com a autora sentimentos às vezes contraditórios; tal como você coloca, em alguns momentos repudio a sua chatice,mas acabo querendo saber mais sobre esse ser, personagem, mulher e escritora! Vou ler o livro, com certeza!
Acho que isso é o mais interessante em Fernanda Young. Ela não é um personagem, não segue um padrão para ser amada ou odiada. E acho que por se mostrar como ela é, acabamos tendo esses sentimentos contraditórios. Afinal, é impossível amar ou odiar o tempo todo uma pessoa real, que não faz pose, nem tenta agradar a todo custo.
eu tô há tempos tentando achar um livro da fernanda young que eu queira ler. acho que achei
Vale a pena! Também recomendo Aritmética.
Gostei da crítica mas não deu vontade de ler o livro.
Bom, por mim menos mal! Pior se você tivesse gostado do livro e odiado a crítica. hehehe