Dois anos de Amálgama, dois meses de São Paulo
em Pessoalidade
por Camila Pavanelli – Há cinquenta e tantos anos, Tom Jobim, então um desconhecido, recebia uma proposta de trabalho irrecusável: compor uma série de sambas-canções com Vinícius de Moraes. Para o escândalo de Lúcio Rangel, o cupido da parceria, sua primeira reação foi: “tem um dinheirinho nisso aí?” – a prova definitiva de que “irrecusável” nada mais é do que o joelho subindo quando o martelo bate na palavra “proposta”.
Gosto de me comparar aos grandes: satisfaço minhas tendências automasoquistas e auto-humoristas ao mesmo tempo. Eis como fica a narrativa acima, se transposta para a minha realidade:
Há exatos dois anos, um maluco com quem eu havia trocado cinco minutos de conversa pelo MSN me convidou para participar de um blog coletivo que ele estava organizando. Minha primeira reação foi: “tem que pagar um dinheirinho pra entrar nisso aí?”.
Não tinha, e cá estamos dois anos e dezenove posts depois. O maluco adquiriu contornos familiares – é daquelas pessoas que, apesar de ainda não terem se materializado para mim, acabam sendo mais próximas e queridas do que a proverbial Tia Ermingarda que só encontramos em velórios e casamentos; e eu continuei tão fã de Tom Jobim como sempre fui.
Essa era pra ser a parte do texto em que eu deveria dizer: “de dois anos pra cá, muita coisa aconteceu” e começar a retrospectiva do Fantástico, até porque entre o primeiro post e o atual me mudei para a Bahia (na verdade, foi New Orleans, mas dá na mesma) e voltei. Felizmente, estou com preguiça e decidi pular esta parte, falando exclusivamente da minha vida de agora. Pois é, a minha vida – o primeiro texto que escrevi para o Amálgama poderia ter sido publicado no meu blog pessoal, e decidi que este aqui poderia também. Então, se você é uma pessoa séria que não assiste ao Big Brother e acha a vida alheia uma superflualidade cafona, este é o momento de abandonar este post e passar para aquela super reportagem sobre o polvo profeta ou a paraguaia pelada.
Para os que continuam por aqui, permitam-me contar-lhes que faço natação três vezes por semana em um horário em que a academia é frequentada exclusivamente por senhorinhas, gordinhas e gravidinhas. Achei por bem voltar a nadar antes de pertencer a esses três grupos sociais ao mesmo tempo.
Lá na Bahia, sempre que alguém aqui de São Paulo me perguntava quantos livros eu lia por mês, a resposta padrão era que eu lia coisas demais para ficar contando, e sempre menos do que era necessário. Se a pessoa insistia e claramente desejava uma resposta que a permitisse fazer cara de ooooh, eu não lhe negava este prazer: dizia que de doze a quinze por mês.
Faz dois meses que voltei para São Paulo e o único livro que li na íntegra até agora foi o manual de instruções da minha recém-adquirida máquina de lavar.
Isso é bom: minha casa estava muito engraçada, sem teto e sem nada, e está sendo necessário, desesperador e delicioso reconstruí-la aos poucos.
Isso é ruim: tenho medo de que minhas futuras questões intelectuais sejam pautadas pelos temas entreouvidos no vestiário da academia. Alguns exemplos recentes:
- Minina, se você tá procurando salão pra casar, tem que ver um que o meu cunhado aluga! É tão chique que o Amaury Júnior foi lá outro dia gravar! – disse a gravidinha.
- Bonito mesmo é o Kaká, não? Ai que se ele fosse político eu votava nele! – suspirou a senhorinha.
- Cê viu o sopão que seca doze quilos? Tô doida pra experimentar! – seguiu à risca seu papel a gordinha.
Isso, enfim, é bom: me ajuda a lembrar que minha experiência na academia (de letras) não me faz nem um pouco mais profunda ou inteligente do que minhas colegas de academia (de ginástica). Não há nada mais medíocre do que se sentir, a princípio e por definição, superior aos outros; nem nada mais fácil do que constatar que muitos de meus problemas e aspirações encontram ressonância nos das colegas: eu também quero casar – só não pretendo que um microfone dourado tenha qualquer coisa a ver com isso; também estou em busca de candidatos para votar – só não pretendo que sejam evangélicos militantes; também quero emagrecer – só não pretendo para isso ingerir coisa que me remeta a refeição de moradores de rua.
Estou no Brasil há dois meses e há dois meses não leio um livro. Vou à academia todos os dias, dou aulinhas para amigos e trato com hómis da óba o tempo todo. Faço sucos e saladas deliciosos, passeio com minha avó e me aflijo por não ter conseguido entrar no doutorado. Depois eu lembro que nem me inscrevi ainda e me acalmo um pouco.
Amo e cuido do meu amor.
É muito, e também é muito pouco. Essa era pra ser a parte do texto em que eu deveria fazer promessas de empenho e produtividade para os próximos dois anos, mas felizmente estou com preguiça e decidi parar por aqui mesmo. Até lá, espero continuar escrevendo aqui no Amálgama – não vou compor nenhum samba-canção como Tom Jobim, mas também nem precisa. Por sorte, meu editor prefere punk rock.
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![- No domingo, manifestantes tomaram a Paulista em protesto contra a ação da PM em Pinheirinho [foto: Pádua Fernandes] -](http://www.amalgama.blog.br/wp-content/uploads/2012/01/protesto-pinheirinho.jpg)








Ai, que lindo… Tanta água passou debaixo da ponte… Conheci o Daniel sabe-se lá como, ele criou o Amálgama, ele precisava de alguém pra escrever sobre cinema, me prontifiquei, aqui estou até hoje (mesmo que mais resenhando livros do que filmes), aqui conheci você virtualmente (ou foi Recordar, Repetir, Elaborar? Não lembro) e em Urussanga (veja, você, aqui do lado!!!) conheci vc pessoalmente. Quando eu poderia imaginar?!!! A menina de New Orleans! A garota cheia de títulos e talentos que me prendeu desde o primeiro post que li e me fez ficar sempre esperando por mais…. E agora tá aí: a mulher do homi da trena!!!!
É por isso que eu amo a Internet!
Ontem mesmo ela me deu um susto; disse que a trena estava quebrada. Por sorte está tudo bem com a trena.
Ufa!!! O que fariam sem a trena?! Tá amarrado 3 vezes!! hehe
Ju, tão lindo o que você escreveu! Foi no RRE que você me conheceu, eu lembro bem: você inundou o blog com uma enxurrada de comentários empolgadíssimos, me diverti tanto! E antes que eu pudesse avisar o hómi da trena de mais um comentário super gracinha seu, ele veio aqui dar notícias do objeto de adoração. Foi um prazer ter te conhecido e me junto a você nos vivas à internet – esse papo de que os relacionamentos virtuais são líquidos & rasos claramente é coisa de quem nunca teve blog.
Não vamos chorar, hem? :-p
Pingback: Juliana Dacoregio
Pingback: Biajoni
Parabéns Amálgama, Parabéns Camila!
Lindo. Adorei isso tudo. Beijo.
Eba, tudo em família issaqui. Beijo, brother.
Você conseguiu transformar o trivial em um ótimo texto. Para fazer isso é preciso ter muito mais talento do que para escrever uma tese acadêmica de 250 páginas supostamente inteligente e certamente enfadonha.