Choro da despedida

por Tiago Pereira * – “Se dependesse de alguns jornais, se dependesse de algumas televisões, e se dependesse de algumas rádios, eu tô falando algumas para não generalizar, eu teria zero na pesquisa.” Essas foram as primeiras palavras do presidente Lula em entrevista transmitida na última semana à Record. A “grande mídia” fala mal do Lula, e ele fala mal dela. Não é de hoje, sempre foi assim. Faz parte do jogo democrático, mas convém não exagerar. De um lado e do outro, vira golpismo.

Ainda em quase off, Lula pede que a jornalista faça as perguntas que lhe vierem à cabeça, sem restrições. A jornalista provoca e pede que o presidente comente matéria da Veja que fazia uma caricatura da sua figura, com uma coroa na cabeça, como um mau exemplo de desrespeito às leis. A matéria tratava das multas do TSE durante o processo de campanha. Lula responde: “Primeiro que eu não vejo essa revista, portanto, a mim não quer dizer nada isso. Como eu não preciso deles, pra nada, pra nada, sabe, eles têm liberdade de dizer o que eles quiserem a meu respeito. E eu, quero ter a liberdade de dizer o que eu penso deles, do jeito que eu quiser. Não posso dizer tudo porque eu sou presidente da república.”

A Veja, em semanas anteriores, trazia a lendária capa do “monstro do radicalismo”, representado por uma besta de cinco cabeças, com uma estrela vermelha ao fundo. A Editora Abril, dona da Veja, tem contrato de fornecimento de outra revista, a Nova Escola, com a secretaria estadual de educação do PSDB de São Paulo, assinado durante a gestão Serra. Serra é amigo dos jornalistas. Ou melhor, dos donos. Na semana seguinte, a Veja tratou de chamar o vice do Serra, o Índio, de bom de briga. A briga é acusar o PT de associação com as FARC e com o narcotráfico. Esqueceram de convidar a Regina Duarte. Ela deve estar, de novo, com muito medo. Temas relevantes não são discutidos. Será que não estamos pagando demais em pedágios? A Veja não acha, ou não se manifesta. Ou talvez o problema é mais grave em São Paulo?

Voltando à entrevista. O ápice da matéria foi quando, ao falar dos mais pobres, Lula chora.

“Eu fiz conferência com tudo que você possa imaginar nesse país. Orgulho, Adriana, no dia em que eu, embaixo daquela ponte lá no Glicério, eu vi o BNDES (banco público de estímulo) assinar o empréstimo de 200 milhões de reais para a Cooperativa de Catadores de Papel, aí eu falei “agora sim, esse país…”. E vieram as lágrimas. Esse país tem jeito. E o choro pareceu absolutamente sincero.

“É o clima de despedida, presidente?’’, pergunta a repórter. “Não, eu acho que é o… é o clima do reconhecimento de que as pessoas passaram a perceber que o Brasil é delas.” E mais uma vez, o presidente lembra das palavras de um dos catadores: “A maior conquista nossa é o fato da gente estar dentro do palácio”, coisa que jamais eles pensaram em entrar.

Elas também freqüentam muito pouco o palácio, e nunca sentaram na cadeira. A Veja, além da Folha, O Globo, dentre outros, tratam de vender a imagem da Dilma durona, radical, mas ela também chora. É só pesquisar no Youtube por choro de lula ou choro de Dilma.

Sobre a entrevista do presidente, a grande mídia não foi capaz de abordar, de repercutir. Ninguém além da própria Record tratou do tema. No resto do mundo, foi notícia em todos os grandes jornais. A oposição também não deu declarações. O Serra vai dizer que é um trololó da Record. No falso jogo da imparcialidade, a Record não está com o tucano.

* Tiago Pereira, Mairiporã-SP. Blog: tiagopereira.wordpress.com.


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