Mulher de um homem só, de Alex Castro

14–07–2009 – Enviar para e-mail

por Luiz Biajoni – Alex Castro é o autor de alguns dos melhores, mais instigantes e polêmicos textos da blogosfera brasileira. Alguns desses textos pularam da internet para as páginas impressas, viraram os livros de crônicas Liberal Libertário Libertino e Radical, Rebelde, Revolucionário – Crônicas Cubanas. Alguns de seus contos também já haviam escapado pelo blog, quando ele decidiu reunir todos no volume Onde perdemos tudo. Esses três livros são deliciosos, mostram capacidade arguta de observação; o ponto de vista sempre inesperado; a redação límpida, direta ou estilosa, conforme pede cada tema, deste ex-carioca, ex-rico, ex-casado e podólatra obsessivo.

Mas antes de todos esses, houve Mulher de um homem só, seu primeiro livro, um romance, que ele colocou para download grátis e ofereceu para algumas das mais importantes editoras brasileiras – recebendo o não de todas elas. Frustrado, mas nunca abatido, Alex insistiu que aquele era seu melhor texto entre todos os que já tinha escrito – e insistiu em oferecê-lo para as editoras durante oito anos. Isso mesmo: oito anos!

Nesses oito anos, mudou o cenário editorial brasileiro – e mundial, pois não? Amigos lançaram livros por grandes selos e não obtiveram retorno financeiro ou de qualquer outro tipo. Sendo assim, Alex decidiu colocar também esse texto no papel de maneira independente. Mas não tinha dinheiro para bancar a edição sozinho. Fez da edição de Mulher de um homem só um caso único da história editorial brasileira: lançou uma campanha em seu blog para viabilizar o lançamento. E mais: pediu que os leitores possibilitados pagassem mais do que o preço mínimo instituído por ele (R$ 24,40). Pediu ajuda para escolha da capa, interagiu com os comentaristas, inovou totalmente na relação autor-leitor dentro do processo de lançamento de um livro. O que Alex conseguiu com Mulher… será copiado por vários outros autores e servirá de case do mercado editorial em breve.

Pois eu li esse livro em 2002, quando escrevi uma resenha sobre o então e-book para o extinto site Tiro&Queda. Continuo achando a mesma coisa que achava há sete anos, coisa que eu já falei várias vezes para Alex, um cara que eu considero amigo-irmão: a história é ótima, nova, fresca, atual, contemporânea mesmo, mesmo explorando o batido tema do triângulo amoroso (na verdade, é um triângulo-sem-ser, tem algo de Platão ali, mas também de Molly Bloom e as coisas não são claras – propositalmente – no sentido de esclarecer tudo). O problema, para mim, é que a narração é de um dos personagens, Carla, uma dentista. Ela ama seu marido, Murilo, mas se vê ameaçada por uma antiga amiga dele, uma artista plástica, Júlia, talvez mais inteligente, sensível e moderna que ela.

Essa narração de Carla tem um aspecto ótimo e interessante: muitas vezes conta coisas que jamais podia saber, já que não estava no local no momento da ação. Ela imagina? Não sabemos, e isso é bacana. Por outro lado, a narração de Carla tem algo de incrivelmente experimental, especialmente para uma… dentista. Para exemplificar o que quero dizer, vai o trecho inicial do livro:

Não tinha nem me libertado da escola ainda quando casei. Mas, boa fedelhacente que era, não encampava mais vida na minha casa: foi só Murilo puxar o pedido e aceitei, num estrambelho.

Que tipo de dentista que não tivesse pretensões literárias podia contar uma história nesse tom, com essas palavras?

Essa levada de Alex Castro/Carla se prolonga por todo livro, exigindo do leitor mais que o interesse pela boa história – ou seja, tira o foco da atenção das relações que se estabelecem entre os personagens para chamar a atenção para a narração, para o texto, como se o autor/personagem não estivesse preocupado com sua trama/confissão, mas sim com o modus, com a redação do enredo, com a experimentação literária.

Mas não é chato, longe disso: Mulher de um homem só tem grandes momentos de humor e reflexão sobre a transição da adolescência para a vida adulta. Tem neuras femininas e desencanações masculinas em conflito. Tem humanidade e experimentação literária. Tem equilíbrio.

Fosse o Alex, botava tudo na terceira pessoa, deixava a narração mais chão-de-fábrica, incrementava com personagens secundários (ou terciários), encorpava o volume. Mas aí seria apenas mais um dos meus livrecos despretensiosos.

Sim, o livro tem pretensão, como todos os textos de Alex Castro. E não há nisso nenhum mal, ao contrário: pretendendo escrever e viver de sua escrita, querendo ser um autor lido e considerado, exigindo de si e dos leitores os meios para obter seus objetivos, Alex se torna um caso único na literatura brasileira. Um caso único em que a pretensão está casada com a qualidade. E não há terceiro elemento para separá-los.

::: Mulher de um homem só ::: Alex Castro :::
::: Os Vira-Lata, 2009 (lançamento em agosto, mas já em pré-venda) :::

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2 comentários:

  1. Mauro Castro (23–09–2009 8:44 pm)

    Depois dessa crítica, só me resta comprar.
    Há braços!!

    [Responder]

  2. De como Graciliano se agigantou diante de seus pares (26–02–2010 1:54 am)

    [...] a questão da fidelidade à fala na literatura recentemente rendeu comentários antagônicos entre Luiz Biajoni e Alex Castro.) Menino de engenho, a obra-prima de José Lins, “tem antes a pretensão de [...]