Imagens religiosas em órgãos públicos

por Daniel Lopes – Fuzuê no Piauí desde a última terça, 30. A pedido de diversos grupos civis e religiosos, o Ministério Público fez audiência para debater a legalidade das imagens religiosas (ou seja, católicas) em órgãos públicos. Os proponentes da audiência sustentam sua defesa na Constituição Federal: “É vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios estabelecer cultos religiosos ou igrejas, subvencioná-los, embaraçar-lhes o funcionamento ou manter com eles ou seus representantes relações de dependência ou aliança, ressalvada, na forma da lei, a colaboração de interesse público.”

E então o mainstream católico reagiu. Pessoalmente, conheço uns poucos católicos que reagiram a favor da retirada das imagens, e um dos grupos que propôs a audiência pública foi o Católicas pelo Direito de Decidir, mas a maioria encarou com animosidade a discussão no MP. Por que essa maioria é contra a retirada das imagens sagradas (para ela) das instituições públicas?

A vereadora Teresa Brito (PV) lembrou na Câmara de Teresina que o Brasil é o maior país católico do mundo. Mais: o Piauí é um dos mais católicos estados da católica federação, e Teresina é uma das mais católicas capitais dentre todas as católicas capitais do país. Ou seja, a tradição católica é muito forte, o catolicismo brasileiro e o piauiense em particular ultrapassam o mero aspecto religioso, estando profundamente enraizado em nossa cultura e por aí vai.

Na audiência do dia 30, o capelão da Assembleia Legislativa (você consegue imaginar um negócio mais… esquisito?) também invocou a profunda tradição católica para se posicionar contra a ação.

Fazem melhor a vereadora e o capelão em procurar argumentos mais convincentes. Ambos lembraram que a maioria esmagadora de piauienses é católica, mas um dos principais objetivos da democracia é evitar a ditadura da maioria. E a Constituição não diz nada parecido com “Estes artigos ficam revogados em caso de direto confronto com tradicionais manifestações do povo brasileiro.” Aliás, não poucas vezes constituições nacionais são criadas para romper com certas tradições que se provaram inadequadas aos novos tempos.

O capelão disse que a medida é uma “provocação” dos evangélicos, e relatou um caso recente em que certo grupo evangélico teria chutado velas acesas por senhoras católicas. Sim, é possível que alguns deles estejam se aproveitando da situação para provocar. E agridem mesmo, não só católicos, mas principalmente adeptos de religiões afro — há vários relatos e estudos abordando esse problema. Além do que, sabemos que poucos desses líderes evangélicos defenderiam um “Estado laico” se fosse a sua religião a majoritária. Mas nesse caso temos que reconhecer: não estão invocando uma guerra santa nem evocando o papel de “anticristo” do Papa a fim de que as imagens sejam retiradas de órgão públicos – estão invocando o artigo 19 da Constituição, e até aí merecem consideração. (E depois, também pesando a favor da retirada das imagens, há o direito daquele pequeno mas existente grupo A que ninguém lembra, ninguém sabe, ninguém viu.)

O pior é que o não-argumento da “tradição/maioria católica” é o mais forte que escutei ou li nos últimos dias por estas bandas brasileiras.

Carlos Augusto, um ex-deputado estadual e hoje comentarista político da TV Meio Norte, falando em seu quadro do jornal do início da tarde sobre a questão das imagens, perguntou se vão proibir agora as joalherias de venderem bijuterias com crucifixos e arrancar os crucifixos dos pescoços das pessoas. Outro não-argumento, como se vê, pois o MP discute a retirada de imagens de órgãos públicos. Por que confundir o telespectador?

Essa última linha de raciocínio não faz parte apenas do repertório do, por assim dizer, baixo clero. Antes da ação no Ministério Público, mas também explicando os traços da sua igreja na estrutura do Estado, o arcebispo de Teresina, dom Sérgio da Rocha, disse em entrevista à TV Antares, pública, que as pessoas precisam entender que “o Estado é laico, mas a sociedade não é”. Exácto, meu bom homem. Mas o que se debate já há algum tempo não é a retirada de imagens da sua casa ou da casa do leitor deste texto, apenas, ora veja, dos espaços públicos. A parcela da sociedade que não é laica continua sendo não-laica e você, como um importante representante dessa parcela, continuará concedendo entrevistas à tevê pública. Por que confundir os fiéis?

Se os católicos brasileiros não estão satisfeitos com a Constituição do país, que lhe critiquem abertamente e digam que os símbolos de sua igreja são superiores a qualquer de seus artigos, ou façam lobby no Congresso para alterá-la. Ficar confundindo a cabeça do rebanho é a saída menos honrosa.

Para fechar com o pior de todos os argumentos que me aplicaram. Ontem à noite, na tradicional rádio Pioneira (que faz parte da Rede Católica de Rádio), o repórter-comentarista Gil Gomes, repercutindo o discurso da vereadora Teresa Brito, disse que as imagens deveriam permanecer em locais públicos, desde que, claro, os evangélicos também sejam representados nesses espaços. Foi a primeira vez que escutei essa proposta, que acredito ser inédita, então tomem nota: a solução para a questão da presença dos símbolos católicos nos espaços do Estado não é sua remoção e a obediência à Constituição, mas o aprofundamento do Estado não-laico, com símbolos de todas religiões. Pergunta inevitável: à capela da Assembleia vão se juntar templos de todas as denominações protestantes? E cabe outra dúvida: haverá vaga para símbolos de religiões não-cristãs?


leia mais
Policial e passista no discurso do Alemão
José Alencar (1931-2011)
Falácias que ocuparam o debate

10 comentários | Dê sua opinião

  1. Pingback: José R. Corrêa Such

  2. edson cassimiro da silva 15/07/2009 em 12:19 am

    É um assunto que se torna polêmico desde quando esqueçemos de orar e pedir para que sejamos apenas Um em Cristo. Paz e Bem

    Responder
    • Magno Brasil 07/07/2010 em 5:11 pm

      Prefiro o comentário anterior. Muito bem, Eneraldo Carneiro! E viva o Estado Laico.
      Paz e prosperidade.

      Responder
  3. Eneraldo Carneiro 15/07/2009 em 10:45 am

    É um assunto que se torna polêmico quando os religiosos esquecem que outras pessoas tem outras religiões ou nenhuma religião, e que o espáço público é de todos, dos religiosos e dos sem-religião.
    Paz e prosperidade.

    Responder
  4. Luis Antonio Pereira Nunes 15/09/2009 em 10:28 am

    Como alguém pode falar em paz e bem impondo suas crenças aos outros? Imposição é violência.

    Responder
  5. Cleber 20/11/2009 em 4:08 pm

    É impressionante como satanás é mesmo astuto ao extremo. Com sua tática de não se manifestar ele nos faz crer que ele não existe, podendo assim agir livremente em nossas vidas, em nossas mentes e emoções, buscando, é claro, destruir a criação de Deus. Com seus grandiosíssimos conhecimentos sobre toda a história, desde o princípio de tudo, pois satanás foi criado por Deus, que lhe conferiu grandes poderes e virtudes, o adversário de Deus vem confundindo-nos cada vez mais e nos distanciando de Deus. Ele tem buscado exatamente o que está acontecendo aqui: usar o nosso próprio racionalismo e inteligência contra nós mesmos, ou seja, ele sussurra aos nossos ouvidos sem discernimento e, achando que estamos agindo em nome de Deus, agimos no sentido de tirar, expulsar, banir Deus de nossas vidas.
    Satanás sabe que um reino dividido não subsiste, então planta em nós o joio que faz a Igreja ser seccionada, dividida… Parece que a história se repete: Deus baniu satanás, que era um de seus melhores anjos (Lucifer = anjo de luz) – A Igreja excomunga Lutero (um de seus grandes… um dos melhores).
    Poderíamos adorar mais a Deus, focar mais em Deus e viver melhor com Deus ao invéz de errar o alvo (pecado = errar o alvo), disfocando de Deus para discutir diferenças de interpretação da palavra de Deus.
    Poderíamos enxergar que estamos sendo instrumentos de satanás ao elaborar e aprovar leis contra a vida (legalização do aborto e da eutanásia, proibição de imagens que nos remetem ao nosso Deus, etc…), quando fazemos uso de anti-concepcionais, pílula do dia seguinte, DIU, mutilações de órgãos sãos por egoísmo (vasectomia, laqueadura, etc…), quando julgamos que nosso próximo é idólatra, “adorador de imagens” quando este, na simplicidade de seu coração, venera a imagem de alguém que tem maiores méritos que ele perante Deus.
    Que Jesus Cristo, na sua infinita misericórdia, nos perdoe pelo que fazemos, pensamos e falamos “em nome dEle” contra nossos irmãos e até contra Ele mesmo.
    Que Deus nos abençoe e tenha misericórdia de nós.

    Responder
  6. Dan Jung 07/02/2010 em 4:12 am

    No subtexto, o artigo da constituição ressalta um certo dever em manter a laicização do Estado . Entretanto, um país cujo congresso abrigava uma Frente Parlamentar Evangélica (que era composta por 60 deputados, hoje reduzida à metade pelo esquema de compras de ambulâncias superfaturadas e CPI dos Sanguessugas) não é que podemos chamar de um país laico. O Brasil é um país contemplado com uma heterogeneidade transversal que denota em seu povo uma diversidade cultural que é constitutiva e ultrapassa todos os limites comuns da homogeneidade, ao contrário da religião judaico-cristã que postula uma identidade única e universal comum a todos aqueles que querem ser salvos em nome da redenção. Falar em política é falar de ética. Ética que conduz o cidadão para o seu devir existencial, e promove a sua subjetividade através do agenciamento de suas responsabilidades em direção à liberdade de orientação e de expressão.

    Responder
  7. Sally 26/03/2010 em 7:34 am

    Não deveriam pôr imagens nenhuma de meros santinhos ou coisa parecida! Igreja jamais poderá se juntar com estado, pois isso já aconteceu da ICAR na idade média tomar função de estado e isso não foi bom…Tantas coisinhas chatas e anti-cristâs aconteceram em nome de ideais egocêntricos, e que hoje culpam a Deus, infelismente, por todas as maldades cometidas. Agradeço a Deus que vivo no momento especial da tolerãncia religiosa, mas é preciso melhorar muito. Na verdade tanto a ICAR, quanto igrejas evangélicas estão cheias de “joios”, joios da ignorância, legalismo, imoralidade…e a lista não pàra por ai. Sinceramente, espero que a laicisação do nosso estado aumente, pois nem catolicismo ou qualquer outra coisa evangélica deveriam impor suas crenças a ninguém…( E lembrando, não quero ofender ninguém, mas defender meu ponto de vista e nada mais). :)

    Responder
  8. herry 25/05/2011 em 9:11 pm

    acho que ja esta mais do que na hora dessas imagens serem retiradas a sociedade precisa acorda
    um dos 10 mandamentos he ( não adora imagem nem escutura de barro )
    por que elas não leva para luga algum
    não cervem para nada

    Responder
  9. José Pereira 05/12/2011 em 7:26 pm

    Tenho uma imagem da crisificação do século XIII. Consigo identificar a Virgem Maria e São João Evangelista, contudo não consigo identificar os dois anjos no canto superior direito, um deles com incenso.
    Se alguém puder ajudar agradecia que respondessem para amalveiro@iol.pt
    Os meus agradecimentos
    José Pereira

    Responder

Deixe um Comentário

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

*

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>

----- Consulte os arquivos do Amálgama ||| Publique ||| Contato ||| Para reproduzir nossos textos -----