3–07–2009

Flip, Mesa 2: A verdade mais ficcional que se pode contar (2 de julho)


por Vanessa Souza, em Paraty – Sérgio Rodrigues, jornalista, crítico literário e autor do blog de literatura Todo Prosa, Arnaldo Bloch, jornalista e escritor, e Tatiana Salem Levy, escritora, formaram a mesa literária chamada Verdades Inventadas, uma das mais bacanas do segundo dia da FLIP. Sérgio, Arnaldo e Tatiana estavam lá por um motivo em comum: a última obra de cada um deles mistura ficção e realidade. Sérgio Rodrigues lançou esse ano Elza, a garota, um misto de ficção e jornalismo sobre o assassinato de Elvira Cupello Calônio, militante comunista acusada de traição e morta a mando do partido que militava. Arnaldo Bloch publicou em 2007 Os irmãos Karamabloch (termo cunhado por Otto Lara Resende, quando trabalhava para o grupo Manchete), uma narrativa que se mistura à sua própria história, já que é um dos herdeiros Bloch. Já Tatiana Levy produziu uma obra onde a protagonista é neta de judeus da Turquia – tal como a autora.

Arnaldo conta que escreveu, de certa forma, o referido livro desde a infância, quando tinha sobre ele os olhos do clã Bloch. “Ter nascido ali fez com que eu interpretasse o mundo sob essa ótica”, diz o jornalista. Ele relembra que aos sete anos de idade seu pai proporcionou o primeiro porre de sua vida, regado a batida de pitanga e lambretas. O que para uns pode parecer uma irresponsabilidade, para ele é uma das lembranças mais doces de sua infância. Bloch acredita que escrever o livro foi sua última tentativa de catarse, no que tange sua relação familiar. “Só depois do livro pronto eu me dei conta do que tinha feito com minha memória”.

Tatiana diz que seu livro começou cedo, nas histórias dos judeus que tiveram que ir para a Turquia, e levavam consigo as chaves de suas casas, achando que um dia poderiam voltar. Ela conta que chegou a entrevistar uma tia-avó, e viu que não era nada daquilo que ela queria contar. “Quando eu me aproximava dos fatos, me distanciava da verdade que eu queria contar”, relembra.

Para Sérgio, há um distanciamento maior em relação ao seu livro e ele, no quesito autobiografia. Contou ao público que recebeu a encomenda do livro, pesquisou e escreveu em menos de um ano, o que ele considera uma velocidade absurda. “Ninguém tinha dado a Elza a história que ela merecia. A urgência do prazo se transmitiu para o texto”, conta. A obra tem traços de ensaio histórico e jornalístico, e trechos de ficção. “A ficção pode ser muito mais verdadeira. A realidade não existe, ela só existe no momento em que a gente a organiza”.

Quando questionados sobre a coragem de escrever, e como o público reagiu ao livro, Bloch afirma que não existe a biografia definitiva, e que tem certeza absoluta que escolheu o caminho certo para contar a história dos Bloch, já que ela está mais próxima da verdade do que qualquer redução purista sobre o tema. Tatiana enfatizou que seu livro não é sua vida, mostrando-se incomodada quando os leitores acreditam nisso. Já Sérgio acredita que seu maior risco foi lidar com categorias políticas marcadas, já que a esquerda não quis contar a história de Elza por razões óbvias, e a direita não o fez por ignorância. “Meu grande desafio é que esse livro apresentasse a verdade mais humana que se poderia contar”, refletiu.

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  1. Fabi (6–07–2009 11:56 am)

    Seja conscientemente ou camufladamente a ficção sempre tem um fundo de verdade, obrigada pelo texto e a dica : )

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