A arte periférica de Wado aos poucos chega ao centro
por Renato Medeiros – Já ouviram falar no cantor e compositor Wado? Ou melhor, já ouviram Wado? É o nome artístico de Oswaldo Shlickmann, catarinense de coração alagoano que tem prometido e cumprido no cenário da música produzida em Alagoas. Um dos poucos representantes da música em Alagoas que consegue manter uma produção regular de discos, shows lotados com públicos distintos e reconhecimento da crítica dentro e fora do Estado. No próximo sábado, primeiro de agosto, Wado lança em Maceió seu quinto trabalho solo, Atlântico negro, e provavelmente não demorará a se apresentar em outros palcos do Brasil.
A carreira solo de Wado começou oficialmente em 2000, quando deixou a banda Santo Samba. Em 2001, lançou Manifesto da arte periférica, disco que surpreendeu a crítica e ultrapassou as fronteiras alagoanas. Chegou a ter destaque em matéria da Folha de S. Paulo e foi indicado pela então recém-lançada Revista MTV. Aliás, na MTV, Wado chegou a apresentar suas músicas nos extintos programas Banda Antes e Lado B, e teve alguns de seus clipes veiculados.
Manifesto da arte periférica tem uma faceta que poderia ser considerada de cunho social ou político, mas sem ser panfletário ou de denúncia gratuita. Antes de tudo é um disco que valoriza qualidades estéticas, que investe em múltiplas sonoridades e que instiga a vontade de dançar. Já em 2002, Wado lançou um trabalho mais melódico, intitulado Cinema auditivo. Naquele ano, teve ainda a oportunidade de cantar no mesmo palco dos Los Hermanos, durante o Tim Festival, no Rio de Janeiro.

Em 2004, Wado lançou A farsa do samba nublado e transferiu-se para o sudeste do país, onde ampliou seu raio de atuação musical e conquistou outros palcos e outros públicos, em companhia de sua banda: agora ele assinava Wado e O Realismo Fantástico. No Rio de Janeiro, ajudou a fundar o grupo Fino Coletivo, que atualmente conta com uma música da autoria de Wado, Alvinho Cabral e George Bourdoukan na trilha sonora da novela Caminho das Índias (“Uma raiz, uma flor”).
Em 2007, foi selecionado pelo programa Rumos Música do Itaú Cultural, com show transmitido pela TV Cultura. No mesmo ano, Wado volta para Alagoas e lança Terceiro Mundo festivo (2008), considerado por muitos fãs um de seus melhores trabalhos. Nesse disco há a investigação das sonoridades que as periferias do mundo produzem mesmo sem quase nada de matéria prima. A obra está cheia de ritmos como o funk carioca, o reggaeton e os afoxés baianos, mas sem deixar de lado o rock e o samba. Pela proposta, assemelha-se ao bem conceituado primeiro disco.
O novo Atlântico negro integra o Projeto Pixinguinha, da Fundação Nacional de Artes (Funarte). Já está disponível para download no site oficial do cantor, assim como os anteriores. O disco está repleto de nomes e referências da cultura afro. Destaque para a música “Frágil” e para os arranjos de “Jejum/Cavaleiro de Aruanda”, “Boa tarde, povo” e “Rap Guerra no Iraque”. Wado apresenta o seu disco mais bem produzido, que evidencia o processo de profissionalização pelo qual o artista está passando. Processo que infelizmente poucas mentes brilhantes de Alagoas conseguem desfrutar.
Atlântico negro torna mais próximo os dois grandes pedaços de terra que apenas estão separados pelo oceano Atlântico. A música de Wado faz esse Atlântico parecer mais estreito, mais íntimo.
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Apesar de estar cada vez mais em ascensão, vejo de outra forma esse percurso que Wado vem traçando. Vejo que sua melhor fase se restringe ainda aos anos com o Fino Coletivo ( o antigo Realismo Fantástico) e seus três primeiros trabalhos. Após essa “separação” a arte periférica de Wado vem se tornando literalmente periférica, perdeu-se muito em poesia, uma de suas características mais fortes em suas letras.
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corrigindo meu colega de comentário acima: o Fino coletivo não é o antigo realismo fantástico. somente o Alvinho Cabral integrou os dois projetos. Aliás, a formação do Fino é bem diferente da banda que tocava com o Wado. Na verdade, o realismo fantástico só atuou como banda no terceiro cd, apesar de Alvinho ter tocado com o Wado nos três primeiros trabalhos. apesar de também preferir os primeiros trabalhos, não acho que a poesia dele se perdeu: se tem uma coisa que admiro (MUITO) nos trabalhos do Wado é que, diferentemente da grande maioria dos artistas que alcança um certo reconhecimento, ele não repete fórmulas. e é dessa noção ampla da unidade de cada disco que nasce a sua poesia.