9–07–2008

Uma grande descoberta


por Daniel Lopes – Estou positivamente surpreso com Ivan Klíma, escritor tcheco nascido em 1931. Confesso que comprei seu Amor e lixo meio que só para inaugurar minha coleção de livros de bolso da Record. Mas o romance é melhor do que eu esperava. Escrito em 1986, é em muito autobiográfico. O narrador, vivendo sob uma ditadura comunista que proíbe textos como os seus de serem comercializados, está partido entre duas mulheres – sua esposa e uma amante. Ou seja, os dramas pessoais andam lado a lado com os dramas políticos de uma nação e de uma época.

A amante é uma artista plástica de comportamento inconstante (com propensão à loucura, mesmo), e com ela o protagonista vai viver momentos intensos de sexo, em ateliês escuros e frios. Já sua esposa – com a qual tem dois filhos adolescentes à beira da independência e, portanto, de saírem de casa – é uma psiquiatra de temperamento calmo. Enquanto se dilacera entre esses dois seres, sem querer ter que escolher entre um ou outro, Ivan cumpre suas jornadas de lixeiro nas gélidas ruas de Praga, emprego que se forçou a assumir.

Amor e lixo está cheio de cenas oníricas que se passam mesmo, e paradoxalmente, em lugares feios e sujos, e é pontuado com reflexões sobre a vida e a obra de Franz Kafka, o mais célebre dos tchecos e grande inspiração literária de Ivan Klíma. Quase sem perceber o movimento, somos levados a todo instante da infância do narrador-autor judeu em um campo de concentração nazista (onde ficou com a família) para a época em que iniciou seu caso extra-conjugal e, finalmente, para seu dia-a-dia como lixeiro. Esse vai-e-vem no tempo ocorre num mesmo capítulo (são apenas cinco para mais de duzentas e setenta páginas), sem qualquer passagem em branco de uma linha a outra; aliás, às vezes as mudanças temporais ocorrem num mesmo parágrafo. Isso nas mãos de um escritor pouco habilidoso dá uma confusão… Mas também na eficiência da forma Amor e lixo me surpreendeu.

A tradução, feita a partir da versão em inglês, é de Eduardo Francisco Alves.

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