Um livro que mata de rir

por Daniel Lopes – Vi em algum lugar que um ou outro leitor se matou após ler The catcher in the rye (1951), de J. D. Salinger. Eu realmente não entendo por quê. Primeiro, só concebo uma maneira de um livro fazer alguém tirar a própria vida, que é naqueles casos em que você compra um romance por 50 reais e não consgue nem acabar o primeiro capítulo – diante de tamanho prejuízo, é justificável, e até esperado, o suicídio do leitor. E depois, o livro de Salinger só pode matar alguém se for de rir. É um livro terrivelmente cômico.

É uma pena que The catcher tenha tido sua fama internacional catapultada graças a Mark Chapmam, o assassino de John Lennon, que disse estar em suas páginas a justificativa para seu ato criminoso (quer prova maior de que cada cabeça é um sentença?). Ora, se Holden Caulfield, o personagem central do romance, por um acaso tivesse conhecido Chapmam, é certo que, em vez de se solidarizar com ele ou tentar compreender seu comportamento, iria lhe fazer troças às escondidas (ou seja, diante do leitor) até não poder mais. É bem verdade que o sujeito não precisava de muitos maus atributos para ser vitimado pela verborragia de Caulfield, mas Chapmam, então, seria o tipo ideal – um esquizofrênico que queria limpar o mundo dos hipócritas, a começar por Lennon.

Não vamos perder tempo com a lendária misantropia de Salinger. Certamente alguns aspectos de sua estranha vida influenciaram a composição de sua escassa obra, como não poderia deixar de ser. Mas não há nenhum aspecto biográfico altamente relevante que poderia colocar em cheque sua ficção ou nos forçar a olhá-la sob um ângulo radicalmente diferente. Salinger era um excêntrico, mas não um cretino, como Pablo Neruda. Ou, se era, era um cretino recatado, e não um fanfarrão, como Pablo Neruda. Mas enfim.

Dêem uma olhada na situação constrangedora de Holden Caulfield: jovem problemático de dezesseis anos, filho da classe média alta, não se enquadra em nenhum colégio, e, para desespero dos pais, quando a estória abre, ele já está caindo fora de outra instituição, o Pencey Prep, na Pensilvânia. Ele então arruma as malas e pega o trem para Nova York, onde mora a família. Parte logo em uma noite de sábado, depois de brigar com o companheiro de quarto (literalmente, com direito a sangue no nariz), e espera vagar pela cidade, indo para casa apenas na quarta-feira, quando seus pais já tiverem recebido a notícia de sua saída do Pencey… e tido tempo para digerir a notícia.

Mas onde está a graça na situação desesperadora desse rapaz?, você perguntará. Pra começo de conversa, o Caulfield que relata suas aventuras, o faz apenas um ano após as mesmas – ou seja, temos aqui um narrador de dezessete anos. É verdade que em alguns casos excepcionais pode ocorrer de um moleque de dezessete anos ser um exímio narrador, mas de qualquer forma Caulfield não é um exemplo.

Dada a pouca idade do narrador, sua condição de analfabeto que lê um bocado (“I’m quite illiterate, but I read a lot”) e, para coroar, a pouca distância que o separa dos eventos narrados, fica explicada a absoluta predominância da linguagem informal, com uma profusão de termos como “sort of”, “kind of”, “damn”, “goddam”… e mais as contrações – “wuddaya”, “tryna do”, “hellja”, “sonuvabitch” e por aí vai. Isso se deve tanto à reprodução dos diálogos de Caulfield – a maior parte dos quais, com outros adolescentes – quanto à deliciosa indisposição do narrador Caulfield em fazer qualquer esforço para tornar seu relato mais “palpável” (ou “legível”).

Além da linguagem franca, há ainda o caráter peculiar de Caulfield. Ele é um enfezado – por exemplo, detesta filmes e detesta quem gosta de filmes. E tem uma incrível inclinação para a mentira. Mente muito e descaradamente e sem qualquer culpa. Logo na abertura do terceiro capítulo, nos adverte:

I’m the most terrific liar you ever saw in your life. It’s awful. If I’m on my way to the store to buy a magazine, even, and somebody asks me where I’m going, I’m liable to say I’m going to the opera. It’s terrible.

Ora, se o nosso herói é um mentiroso confesso, quem garante que sequer uma fração do que está contando seja verdade? A não ser que ele esteja mentindo ao dizer ser um mentiroso – improvável. Ou que diga a verdade tanto quando se diz mentiroso quanto durante todo o resto do relato – altamente improvável (eu que estou dizendo; cada um tire suas conclusões).

O Caulfield aos dezesseis, contando lorotas para a mãe de um colega que por acaso encontra no trem que o leva da Pensilvânia a Nova York (e sentindo um prazer desgraçado em contá-las), é um personagem impagável. Confira essa cena na edição mais recente da Penguin: está nas páginas 48, 49 e 50. Não ligue para esse pessoal que fecha o livro do senhor Salinger e sai por aí matando e morrendo. Eles não sabem o que lêem.

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12 comentários | Dê sua opinião

  1. Ju Dacoregio 24/07/2008 em 9:00 pm

    É um ótimo livro e acabo de ficar com vontade de reler a obra de Salinger. Foi o primeiro livro que meu namorado me deu.

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  2. Daniel Lopes (o outro) 25/07/2008 em 6:59 pm

    Cara, é incrível sua habilidade de destrinchar uma obra. E vc levantou questões muito pertinentes, tanto da velha pendenga das relações entre literatura e sociedade, quanto de questões estruturais da obra em si mesma. Quem não se lembra da velha problemática do narrador em primeira pessoa de D. casmurro? Num outro sentido, muito mais relax, tal problemática tb pode ser aplicada ao nosso Houlden Caulfield. E repare, os narradores eram diferentes. D. Casmurro conta sua história depois de velho, Houlden não, mas ambas as narrativas tb tratam da adolescência, pelo menos a parte de “construção” do ciúme de D. Casmurro é nessa fase, nénão? Capitu traiu ou não, o neurótico bentinho? Houlden Caulfield, o mentiroso, estava falando a verdade quando disse que mentia, ou mentia mesmo quando disse que mentia? Tostines vende mais porque é fresquinho? Ou é fresquinho pq vende mais? Vai saber, né
    Bom, meus parabéns.
    E um grande Abraço Sabatiano,

    Daniel Lopes (o outro) R.G. 24.519.535-X

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  3. Arthur Peres 25/07/2008 em 9:56 pm

    Com tantos autores brasileiros a serem lidos e/ou descobertos, se a industria editorial deixar, não consigo compartilhar a idéia de que a obra de Salinger tenha qualquer importância literária. Não será mais interessante descobrir novos escritores brasileiros? Fiquei um tanto chocado (para não dizer muito decepcionado) pelas comparações com Pablo Neruda. Não imaginei que viveria para ver alguém chamá-lo de cretino. Ainda mais comparando-o com esse Salinger. É o mesmo Daniel Lopes que escreveu isso?
    abraço
    arthur

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  4. Daniel (o autor do texto) 25/07/2008 em 10:26 pm

    Arthur, taí o meu xará mostrando que um autor estrangeiro não tem que excluir um nacional, ou vice-versa. Quanto ao Neruda, prometo não falar dele novamente. Abs.

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  5. Daniel Lopes (o outro) 26/07/2008 em 9:04 am

    Ei Arthur, acredito que essa sua visão excludente é um tanto retrógrada. Não leve a mal. As coisas são assim mesmo… misturadas. O seu discurso parece aquele do pessoal que vaiava os tropicalistas e eram contra o uso da guitarra na música brasileira. O que é bom é bom, seja nacional ou importado. Não dá pra ficar com essa idéia de só ler autores nacionais. Até porque, Arte não tem essa fronteira territorial e, além do mais, não existe qualquer artista que seja NACIONAL. Mesmo os violeiros, lá do Norte de Minas Gerais, sofreram influência dos trovadores medievais e aqui, como todos sabemos, havia índios na idade média, cuja cultura, aliás, infelizmente foi quase que destruída na íntegra. Graças a Deus que as coisas se misturam e há pelo menos resquícios indígenas nas nossas Artes.
    Não há diferença entre o artista e o liquidificador, ambos misturam elementos diferentes e dão origem a um produto novo e homogêneo.
    Quanto ao Neruda. Bem… pelo menos ele fazia farra.
    Abraços,
    Daniel Lopes ( o outro)

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  6. Alex 26/07/2008 em 4:53 pm

    O livro é divertidíssimo! Também não entendo como alguém consegue ficar com ânimos assassinos depois da leitura.
    Eu não li a versão em português, então não sei como traduziram as peculiaridades do linguajar do Caulfield. Mas não acredito que tenha dado certo. Que tenha captado o despojamento (e até preguiça) dele. Inclusive na simplicidade na construção das frases.
    Leitura bastante recomendável, preferencialmente na versão original.
    Abraço

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  7. Daniel (autor do texto) 26/07/2008 em 7:29 pm

    Alex, li anos atrás a versão brasileira, e achei um saco. Não adianta – por melhor que seja o tradutor, certos livros se negam a ser traduzidos.

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  8. André Gazola 17/08/2008 em 3:29 pm

    Bah, eu li só a versão em português. Gostei bastante; me dou mal com esses idiomatismos do inglês informal e acabo me perdendo, tsc.

    Pra quem quer uma obra brasileira parecida, tem o “Caminhando na Chuva” do gaúcho Charles Kiefer, segue exatamente a mesma temática.

    Responder
  9. renaat batista 15/02/2009 em 11:30 pm

    aplausos_ esse cara escreve mto, t o impressionada nao com o dito Salinger, mas com sua habilidade com as palavras. O mundo precisa de vc meu rapaz! rs

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