Sobre a obsessão

por Daniel Lopes – Logo no início, o pintor Juan Pablo Castel persegue uma mulher pelas ruas de Buenos Aires. É que ela, numa exposição de seus quadros, olhou fixamente para o detalhe no canto de uma pintura, ato pelo qual o artista ficou fascinado, porque até então ninguém havia dado a esse detalhe a devida atenção. Essa cena pode ser vista como a metáfora do artista desesperadamente em busca de compreensão.

O personagem que Ernesto Sabato pôs para narrar El túnel é um tímido com humor sarcástico e mente doentia; ele investe, entre outras coisas, contra os críticos de arte (inclusive contra aqueles que elogiam seus quadros), que segundo ele não têm gabarito algum para criticar o que seja, pois nunca criaram eles próprios nada de relevante. Persegue María Iribarne, e quando enfim entabulam conversação, passa a existir entre ambos uma relação tortuosa, com ele cobrando explicações e comportamentos impossíveis. Juan Pablo quer fanatizar a moça, digamos assim. Ele quer que ela seja nada menos que uma obsessiva por ele e por sua obra. O sucesso de suas investidas é nenhum, a mulher já é perturbada por natureza, e a abordagem do pintor não ajuda em nada. Aliás, o romance já abre com Juan informando que matou María.

Sabato é o melhor escritor argentino que conheço. O fato de ele só ter escrito até agora três romances – El túnel (1945), Sobre heroes y tumbas (1961) e Abaddón el exterminador (1974) –, embora lamentável, não quer dizer muita coisa. J. K. Rowling, por exemplo, escreveu mais ficção do que Sabato. (A propósito, dia desses um programa na BBC se permitiu decidir, com a ajuda dos telespectadores, quem foi/é mais visionário(a), Rowling ou Charles Dickens, e Dickens perdeu. Então tá.)

A história do meu exemplar de El túnel é a seguinte: o adquiri no início de 2005, li, me fascinei, depois passei para uma amiga, que não leu, que passou para um amigo nosso em comum, que não leu. A essa altura, eu já estava me coçando para reler o livrinho, mas só ocorreu de eu tê-lo em mãos novamente na semana passada! Antes tarde.

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3 comentários | Dê sua opinião

  1. Daniel Lopes (o outro) 26/07/2008 em 7:20 pm

    Vou te falar. O velhinho Sábato sempre escreveu muito, mas queimava muito do que escrevia também. Esse livro é genial. É daqueles de tirar o sono e te deixar, se vc pensa ser escritor, sem saber pra onde ir, pq o ponto onde vc queria chegar, um outro cara já chegou antes.
    Daniel Lopes ( o outro)

    Responder
  2. Marcia Barbieri 30/07/2008 em 9:34 pm

    Achei extremamente pertinente a sua análise sobre a incompreensão do artista.

    Abraço
    Marcia Barbieri

    Responder
  3. Pingback: Um timaço argentino : Amálgama

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