O mundo de Maria Antonieta e o nosso

por Alfredo Cesar – Há tempos queria falar de Maria Antonieta (EUA, 2006), o filme de Sofia Coppola, que foi fragorosamente vaiado em Cannes. Coppola tem se mostrado uma diretora de personalidade. Há os que gostam e os que odeiam seus filmes. Muitos reclamam da lentidão excessiva de sua narrativa. O que, a meu ver, não é um defeito, pois ela extrai a força imagética das cenas de maneira sutil. É difícil perceber essa pujança quando estamos entretidos com sub-enredos e diálogos cruciais.

Às vezes, tão acostumados que estamos com dramas filmados, esquecemos que fazer um filme é contar uma história por meio de imagens. É preciso paciência para admirar o silêncio das cenas. No mais, a lentidão do filme tem uma função ainda mais eficiente que em Lost in Translation: em Maria Antonieta a vagareza das cenas transmite uma sensação de tédio que é inerente ao mundo narrado. Há uma sensação de letargia e inutilidade em todo aquele cerimonial de Versalhes, repitido ad infinitum.

Feitas essas considerações “estílísticas”, imagino como o filme mexeu com os franceses, sobretudo por se tratar de um filme: a)falado em inglês sobre a história da França, b)cheios de liberdades “artísticas”,como as inserções musicais de rock, que certamente fizeram torcer o nariz de muitos adeptos de uma maior fidelidade aos eventos históricos, e por fim, c)uma visão empática sobre Maria Antonieta, aquela anti-heroína da nação francesa.

Uma nação tem seus heróis e seus anti-heróis. Aqueles que precisamos admirar e os que precisamos odiar pra cultivar o nosso civismo. Não há dúvida alguma que Maria Antonieta faz parte do segundo grupo. Ela representa tudo que a França moderna não gostaria de representar: o privilégio social, a alienação, a desfaçatez dos poderosos. Tudo que foi “destruído” com a revolução francesa (claro que estamos falando no plano da ideologia, do discurso que as nações produzem e com os quais pretendem se auto-identificar. Há uma distância enorme entre discurso e prática, ideologia e realidade).

Muitos criticaram a falta de distanciamente e empatia do filme. Coppola se baseou numa biografia, e toda vez que ela se correspondia com a autora de tal biografia, elas terminavam os e-mails fazendo um “Salve a rainha”, monstrando a admiração e fascinação que as duas tinham pela personagem. Independente das intenções apologéticas de Coppola, eu acredito que a força crítica do filme, se assim posso falar, está exatamente no ângulo empático que ela constrói pra narrar a vida de Maria Antonieta.

Convenhamos: criticar Maria Antonieta é bater em cavalo morto. Muito mais ousado é elogiá-la. Ou ainda: muito mais interessante é aproximá-la de nós (as inserções de rock nada mais são do que estratégias de atualização daquele mundo, e servem para criar ainda mais empatia entre nós e Maria Antonieta). Assistindo ao filme, não pude deixar de lembrar de minhas alunas californianas (e outras pernambucanas) que resolvem qualquer “problema existencial” comendo chocolate e comprando mais sapatos. Maria Antonieta faz tudo isso para animar sua vida um tanto tediosa de Versailles. Mas como não se recordar de nossos tempos, quando o consumismo desenfreado virou a grande terapia existencial?

Alguém poderia dizer que a Revolução Francesa e a tão propalada modernidade serviram pra isso: pra “universalizar” marias-antonietas. O que antes era privilégio de uma diminuta classe social, agora virou padrão da cultura de massa. Todos agora somos burgueses e vivemos melhor que os Bourbons. Outro alguém poderia talvez lembrar que a relação atual entre alienação e consumismo assume padrões muito semelhantes àqueles que no filme são associados ao Antigo Regime. Ao aproximar a câmera de Maria Antonieta, ao adotar o seu ponto de vista e torná-lo mais “humano” e palatável, Coppola mostra que o Antigo Regime talvez não esteja tão distante da gente quando gostaríamos.

Temo, no entanto, que do jeito que as coisas andam a identificação entre nós e Maria Antonieta leve mais a uma atitude indulgente em relação à figura da rainha da França do que a uma auto-crítica de nossas posturas consumistas e alienantes.

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7 comentários | Dê sua opinião

  1. Vanessa Souza 23/07/2008 em 12:35 am

    Adorei esse filme!
    Sobretudo as imagens de lindos sapatos, vestidos suntuosos e banquetes opulentos!

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  2. Jampa 23/07/2008 em 12:39 pm

    Gosto muito de sua leitura de Maria Antonieta. Vi o filme e acho que sua visão agradaria o ego de Sofia Coppola que, em sua análise contra-intuitiva, se veria finalmente contemplada pela Crítica que tanto a atacou. Acho que essa idéia que vincula a ´crítica´ (“se assim podemos chamar”) do filme à aproximação que pode ser feita entre o “estilo de vida de Versaille” no Antigo Regime e o nosso “padrão de vida futil e consumista” de um virgor de leitura considerável. A idéia de perceber “continuidades” (do Antigo Regime) onde de hábito se vê apenas “ruputuras” (A Revolução Francesa) é de fato rica em consequencias se pensamos nos mitos comprados por todos nós nas boutiques mais próximas da felicidade achocolatada e bem calçada.
    Abraços.

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  3. Jorge Santos 23/07/2008 em 1:28 pm

    Concordo plenamente que uso de uma narrativa lenta cabe a um filme de “época”, como esse, o ritmo da narrativa tanto literária quanto e principalmente no cinema serve para criar no espectador uma determinada sensação “geral”, agora, não há uma contradição entre a escolha ESTILÍSTICA de narrrar com lentidão para criar a “sensação de tédio inerente ao esse mundo” mas utilizar o rock para “atualizar aquele mundo” ? Vejo ai dois pesos e duas medidas.
    Enfim, estou me baseando na sua crítica, não vi o filme para avaliar mais precisamente.
    Abç

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  4. Alfredo Cesar 23/07/2008 em 5:38 pm

    Jorge, não vejo uma contradição aí. A lentidão excessiva da câmara nos passa uma sensação de tédio. O tédio existencial de Maria Antonieta. Embora esse tédio seja típico das cortes reais, quem disse que esses rituais mecânicos e vazios de sentido sejam exclusivos de tal época? Abração!

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  5. JLM 25/07/2008 em 2:06 pm

    O q mais me chamou a atenção, qdo vi o filme, foi a referência sutil dq a Revolução Francesa ocorreu graças aos Estados Unidos. Isso pq a França auxiliou os EUA através do aumento dos seus próprios impostos. E o povo francês, insatisfeito e nada bobo (diferente de um país ae na América do Sul), botou pra quebrar. A equação mostrada no filme é simples: se não fosse pelos EUA, não haveria Revolução. Os EUA questionavelmente reinvindicam mta coisa para si, desde a invenção do avião até serem os primeiros a pisarem na Lua, mas sobre a Revolução Francesa foi a primeira menção q ouvi. Resta saber se esta visão é da diretora ou da escritora.

    1 abraço.

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  6. adail 07/05/2010 em 8:56 am

    O filme revela a história da França no século XVIII o qual a sociedade vivia numa situação de injustiça social entre a burguesia e os operários.A desigualdade fortemente apresentada, economicamente e socialmente.
    Traz a Revolução Francesa como um marco na História moderna da civilização, onde foi demolido o sistema absolutista e o fim dos privilégios da nobreza.
    Seu principal propósito foi a morte da monarquia, conquistando os direitos de á Liberdade, Iguadade e Fraternidade.

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    • aLFb 15/07/2010 em 1:43 pm

      “operarios” no antigo regime, Talvez não seria essa situação. Havia um descontentamento da população, no qual os sujeitos históricos eram a burguesia e os camponeses como motor para a revolução, pois questionavam tais privilégios da aristocracia.
      O que é interssante que essas insatifaçoes sairam dos ligares de sociabilidade, locais em que deichava-se de lado as diferenças sociais para tratrem de um assunto em comum , a condição politica.
      Eu acho que a ideia de operario seria mais vivel se tratarmos com algo equivalenta a revolução industrial. Falou e abração.

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