O Google está nos tornando estúpidos?
9–07–2008 --- Envie para um amigo --- Tuitar
por Daniel Lopes – Tal é o título de um ensaio de Nicholas Carr na edição de julho/agosto da Atlantic. Eu queria escrever sobre isso já há algum tempo. Os efeitos negativos da internet é tema raramente abordado por blogueiros. Uma pena.
Os pontos centrais da matéria são:
– Da tonelada de informações que lemos diariamente na web, seguindo de link em link, e daí para mais links, resulta que perdemos a capacidade de se concentrar na leitura de um romance de fôlego médio ou mesmo de um post mais extenso. “Não raciocino mais da maneira como costumava fazer”, confessa Nicholas Carr, ele mesmo imerso até o pescoço no mundo virtual. “Sinto isso mais claramente quando estou lendo. Mergulhar num livro ou num artigo longo era fácil. (…) Esse não é mais o caso. Agora minha atenção freqüentemente começa a flutuar depois de duas ou três páginas. (…) A leitura profunda que antes vinha com naturalidade tornou-se uma batalha.” “O que a internet parece estar fazendo é destruir minha capacidade de concentração e contemplação. Meu cérebro agora espera conseguir informação da maneira com que a internet a distribui: em uma torrente de unidades que se movimentam rapidamente”.
– Nicholas cita um recente estudo da University College London, que concluiu: “Está claro que os usuários não estão lendo online da maneira tradicional. (…) É quase como se eles se conectassem apenas para evitar ler da maneira tradicional”.
– À medida que a internet vai ganhando pontos na disputa com os meios tradicionais, estes se vêem obrigados a mudar o formato da notícia para poderem ter alguma chance na competição pelos corações e mentes das novas gerações, fissuradas em textos nanicos, pop-ups e pop-ads, rápida navegação demandando o mínimo de esforço mental possível.
– Esse novo comportamento vem ao encontro dos interesses de gigantes como o Google, que dependem grandemente da nossa visita diária a zilhares de páginas, para rastrear nossos passos, identificar nossas preferências e garantir publicidade de alto retorno aos anunciantes – “A última coisa que essas companhias querem é encorajar a leitura por prazer ou o pensamento lento, concentrado. É de seu interesse nos levar à distração”.
– Nicholas cita Larry Page, um dos fundadores do Google, segundo quem “para nós, trabalhar com busca online é uma maneira de trabalhar com inteligência artificial”; “Com certeza, se você tivesse toda a informação do mundo anexada diretamente a seu cérebro, ou um cérebro artificial que fosse mais esperto que o seu próprio, você viveria melhor”. Com isso, Nicholas conclui que “do ponto de vista do Google, a informação é um tipo de commodity (…). Quanto mais pedaços de informação pudermos ‘acessar’ e mais rápido pudermos extrair sua essência, mais produtivos seremos como pensadores”.
Agora, minha opinião.
Internet é bom (viva o Wikipedia, Blogger, Google, MSN, Blog do Daniel), mas tudo em excesso faz mal. Até água.
Se eu assistisse tevê ou dormisse na quantidade em que as pessoas normais o fazem, me restaria tempo nenhum para ler o que mais interessa – ou seja, literatura. Como eu gosto mesmo de passar uma boa porrada de minutos por dia conectado à internet (dos quais, verdade seja dita, grande parte deve ser debitada ao servidor Lentox), é graças a não gostar de quase nada na tevê ou de achar o sono um luxo desnecessário que eu consigo ler o que tenho que ler – por prazer ou obrigação.
É bem verdade que com essa rotina de pouco sono as chances são altas de um infarto antes dos 30 anos, mas atualmente não tenho tempo de parar pra pensar nisso.
Creio que não sofro ainda de forma tão grave dos efeitos do “power browse” quando sento para ler um livro porque 1) a tela de um monitor ainda enche meu saco muito mais rápido que um bom paperback, 2) tenho um blog e uma coluna que, para manter atualizados com freqüência razoável, tenho que ler livros (o que entra na conta do prazer, e não das obrigações), e 3) fujo como o papa de show de rock dos sites de notícia; vez ou outra clico em um link na página do serviço de e-mail, mas tento restringir minhas leituras online a blogs amigos, de conteúdo sério, além dos e-mails. Sites de tecnologia, notícias por segundo, só de ouvir falar, já dá vontade de baixar o disjuntor.
Para não ser atropelado pelos current events, tenho minha revista semanal, a mensal e os textos de veículos de confiança, que pego na internet e faço questão de imprimir, pois, como um bom dinossauro de 24 anos, me concentro mais e pego mais a essência se leio no papel.
Convido o leitor a fazer uma reflexão sobre como anda sua concentração quando vai ler romances ou textos maiores na internet. Se mesmo quando senta com uma estória de Lima Barreto nas mãos você não pára de pensar nas mensagens que podem estar chovendo no seu Orkut, comece a se preocupar.
Como teste, tente ler na íntegra o ensaio de Nicholas Carr. Vale imprimir. É um texto excelente. Vejamos se antes de concluí-lo você não lamenta ter deixado de acessar o site daquela outra revista, ou daquela outra, ou daquela outra…
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9 comentários:



Bom, pra começar, ainda bem que estou em algum mailing que me mandou o link do blog. Adorei!
Quanto ao post, é daqueles que a gente tem que parar pra pensar né?
Lembrei de uma citação que o Paulo Francis mencionava muito (procurei e não achei) se não me engano do Bernard Shaw, sobre o fato de a alfabetização universal na Inglaterra ter criado a imprensa marrom. Isso porque, se de um lado, há o medo não só das novas tecnologias (desde Platão, como no texto mencionado, como Thomas Jefferson ao dizer que “o cavalo já foi um erro”) mas como as novas tecnologias afetam o ser humano. E o google (ou a internet) pode até modificar a forma como eu vc e principalmente as gerações futuras vão ler um texto, mas não vai conseguir alterar ou substituir (acho eu) a capacidade de separarmos o joio do trigo, de “rankearmos” (para provocar um pouco) a qualidade de informação a que temos acesso. Assim, o diferencial para as novas gerações continuará sendo a educação – mas assim entendida não como o conjunto de dados e informações (que estarão a um botão de distância) mas a capacidade de unir (linkar?) as informações complementares, separar a boa informação da ruim, e principalmente a capacidade de avaliação e o poder de síntese. E para isso há necessidade de se re-estruturar o ensino (nossa, que viajada que eu dei né?).
Ou seja: a capacidade de concentração será mais valorizada do que é hoje, pois menos pessoas terão essa habilidade, do mesmo modo que há 20 anos falar inglês era um diferencial, e hoje não é mais em determinados círculo sócio-culturais.
Quanto a mim: sou sou uma leitora compulsiva, e por conta disso, não tenho a menor idéia do que acontece na TV. Como tambem sou meio “cyber compulsiva”, parei pra pensar se eu mudei quanto à minha leitura e…não sei dizer. No computador certamente fica mais difícil se concentrar (não imprimi o texto como vc recomendou, mas deveria ter feito isso, porque é daqueles pra gente ler deitado, sussa, e não na frente de uma tela, e depois de um tempo cansou mesmo – só não parei porque é realmente muito bom). Eu leio muito, mas leio muito rápido. O que significa que algumas passagens (normalmente aquelas descrições infindáveis) eu meio que leio por alto. Meu hábito de leitura é fazer uma primeira leitura mais rápida, e depois ler os “melhores momentos com mais atenção”. Mas acho que isso já vem de anos (e estou quase com 40, então não sei se é por causa da internet).
Mais uma vez, parabéns pelo blog, vou virar “freguesa”.
beijos
Flavia
Esse post me fez pensar… acho que vou ler algum livro!
Infelizmente se aplica a mim tbm! EStava lendo um estudo de caso pra faculdade e a falta de alternativa para distrair o cérebro (e o que é pior, a NECESSIDADE de ter algo apra distrair o cérebro depois de algumas páginas) me faz concordar com Nicholas Carr… Mas vc entitular o post de “O Google está…” é um pouco de sensacionalismo. É a internet como um todo, não o Google.
Wallace, obrigado pelo comentário. eu intitulei o post assim apenas porque é o título da matéria da Atlantic.
abraço e esteja sempre por aqui.
O post é bastante relevante. Eu já havia percebido que modifiquei a minha forma de leitura e comungo das dificuldades que o autor do ensaio relata sobre si mesmo. A leitura de jornais, por exemplo, mudou. Ler uma matéria inteira, por menor que seja, é muito raro. Talvez tenha desenvolvido o senso crítico e selecione melhor o que realmente me interessa. As revistas se acumulam; Compro-as quando a matéria de capa desperta o meu interesse… Livros se empilham na minha cabeceira. Ou seja, o meu interesse por leitura continua o mesmo e agora mais difuso, no entanto, a minha disposição para ler já não é a mesma.
De todo modo, acredito que a consciência do fato já nos traz discernimento suficiente para criticar e combater em nós o vício, se podemos assim dizer, da superficialidade.
Concordo com a Flávia Penido em sua análise. A educação faz o diferencial e pais e educadores devem estar atentos à realidade.
Parabéns pelo post.
Marcos.
[...] estudiosos que afirmam haver perda da capacidade de concentração na leitura de romances complexos – digamos, um Guerra [...]
Caro Daniel,
Parabéns pelo texto. Muito interessante e instigante.
Abraços e tudo de bom,
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Antonio Ozaí da Silva
blog http://antonio-ozai.blogspot.com
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Professor na Universidade Estadual de Maringá (DCS/UEM), editor da Revista Espaço Acadêmico, Revista Urutágua e Acta Scientiarum. Human and Social Sciences e autor de Maurício Tragtenberg: Militância e Pedagogia Libertária (Ijuí: Editora Unijuí, 2008).
Definitivamente os hábitos mudam. No meu caso, por exemplo, tenho lá no quarto uns 5 ou seis livros, todos marcados +ou- ao meio. Não consigo mais pegar um e ir do início ao fim. Vou lendo um pouco de cada livro a cada dia e assim a vida segue… A cada 2 ou três semanas, concluo um ou outro e outros entram no meio. Ficamos ansiosos, impacientes, perdemos a noção de processo, mas aos poucos vamos nos adaptando.
Você citou bem a solução pra isso tudo. Critério e restrição. Há informações que definitivamente não vão nos ajudar em nada. Também tenho aos poucos deixado de ler os jornais online cujas notícias são inúteis e descartáveis e fixando a atenção em (bons) blogs. Acabei de descobrir mais um
[...] time ago, I was quite shocked when I read this post about this article by Nicholas Carr that claimed Google is making us stupid. Carr (and also my [...]