Não me leve a mal, me leve a sério

por Pedro Jansen – O tempo nos rói a carne aos poucos. Mas não pára. O roque-roque-roque está lá, constante e inerente à nossa condição de ser vivo. A lição dos tempos de escola não cessa de ecoar: nascer, crescer, desenvolver-se, amadurecer, reproduzir-se (ou não), envelhecer e morrer.

Artistas, que são gente que varia em outra freqüência, estão debaixo do mesmo guarda-chuva, mas, no entanto, têm sua obra para ser admirada depois que o processo se encerra. Quanto mais prolífico é o sujeito, mais há para ser visto, lido, ouvido, absorvido. Em outro artigo já foi desenvolvida uma teoria a respeito do caráter humilhante da extensa obra de Chico Buarque. Aqui, no entanto, estaremos focados na última obra recheada de inéditas do músico.

Carioca é um disco de 2006 que traz um Chico encarando o ciclo natural e a evolução do homem e do artista que é. Famoso, dentre outras coisas, por sua capacidade de expressar o “eu” feminino com a exatidão e profundidade que poucos alcançaram dentro da música popular brasileira, encontramos nesse Carioca um artista certo da sua idade e disposto a mostrá-la na sua essência, sem entremear suas letras com saudosismos ou dramas baratos, nem esconder de seus arranjos que os tempos são outros. Tal como foi escrito, arranjado e gravado, vemos no disco de Chico uma sinceridade pura (assumindo que cada um enxerga as coisas e as interpreta a seu modo).

Chico tem 64 anos e canta e escreve nesse disco como alguém que tem, vive, assume e, não há dúvidas, gosta de ter 64 anos. Versos e mais versos deixam isso claro durante toda a execução do álbum quando se assume essa linha de raciocínio, mas a idéia se firma em Bolero Blues, quando o sambista canta “quando eu ainda estava moço, algum pressentimento me trazia volta e meia por aqui/Talvez à espera da garota que naquele tempo andava longe, muito longe de existir”.

Essa impressão é reforçada e transmite a atualização de Chico perante os assuntos do mundo já na abertura do álbum, em “O Subúrbio”, em que Chico lista bairros do subúrbio carioca e assume que não apenas o samba, embora este não esteja esquecido, mas que outros ritmos e expressões já traduzem – concomitantemente – os anseios e prazeres daqueles que lá vivem. “Vai, faz ouvir os acordes do choro-canção/Traz as cabrochas e a roda de samba/Dança teu funk, o rock, forró, pagode, reggae/Teu hip-hop/Fala na língua do rap” é, antes de falar apenas do subúrbio, como limita a letra, uma declaração de que o “mesmo com todo o rock” não precisa mais ser tão xiita, se é que um dia foi…

Para além disso, do frescor das temáticas das letras (que falam em maconha, peitinho, bundinhas, parking, shopping center…), e de alguns arranjos trazendo pequenos e curiosos riffs de guitarra, temos um Chico mantendo a tradição do bom uso da língua e do seu vocabulário e utilizando ainda o violão amigo, o pandeiro, o cavaco e orquestrações (às vezes exageradas).

Carioca é um disco que faz pensar na seguinte situação: um homem, que viveu sob holofotes durante a vida inteira, que se dedicou à poesia, seja por fardo do destino, seja por exercício do ser humilhador, que dissecou os sentimentos e carnes da mulher com a aprovação dela, chega à maturidade com elegância e assumindo outra perspectiva, dando vazão à veia artística com muito mais sinceridade do que se firmasse seus pés num tradicionalismo desnecessário. É como ele mesmo fala em Leve: “Me leve a sério/Passou este verão/Outros passarão/Eu passo”.

Na mesma canção, dedilhada ao violão e com uma marimba ao fundo, ele pede “não se esqueça depressa de mim, sim?”, o que reforça o amor como bicho traiçoeiro, em que época e idade que seja.

Chico se renova em discurso e agrega temas às suas expressões mais clássicas, metendo um sample de sua voz, as já citadas guitarras, as palavras pouco usuais no seu discurso de rapaz inteligente e maroto, sem nunca deixar de falar do que ele bem sabe, que são os amores, as pessoas, as gentes, as relações. Chico encontra um jeito de costurar admiração, saudade, tesão e ironia num disco que não é de seus melhores (a produção lapidada não consegue esconder momentos em que sua voz fraqueja – não pela idade, mas sim pelas suas limitações como cantor), mas que não faz feio, e passa longe disso, a nada que ele já tenha feito.

Talvez o maior préstimo (provavelmente inconsciente e arbitrário) desse álbum é mostrar que envelhecer quase nunca é ruim, se se soube aproveitar todo o processo que o antecede. Chico demonstra que o fez e não deixa dúvidas sobre o quanto ainda quer aproveitar.

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8 comentários | Dê sua opinião

  1. Suelen Viana 16/07/2008 em 11:18 am

    É isso aí Pedro Jansen, o Chico é mesmo uma identidade complexa de discursos. Gosto muito dele, muito mesmo. Mas tenho que confessar que, como mulher que sou, me apaixonei primeiro pelo sorriso dele quando eu só tinha 12 anos rsrssr
    Faz dois anos eu pintei um quadro chamado Geni, para o desgosto de minha mãe que o achou muito pornográfico. E olha que eu o pintei em cores quentes onde pretendia esconder no calor das cores as formas sofridas do eu físico da Geni. E lá foi minha mãe jogar pedra na Geni. Coitada dela! O embarasso foi tão grande que meu pai, que gostou do quadro, o trouxe para casa (eu morava em Floripa, ele em Manaus). Eu fiquei com dó do Geni e dá Geni. Quando voltei para casa ano passado fui correndo procurar a Geni. A Geni sumiu. Fiquei pensando se minha mãe teria algo que ver com isso. Ai, ai..espero que não. Mas, vou pintar outro, vou sim.
    Só o Chico para causar tudo isso!
    Gostei do seu texto e estou adorando o Amálgama.
    Sucesso!
    Sue

    Responder
  2. gerusa 16/07/2008 em 11:02 pm

    Eu fico me lembrando de quando ouvi chico pela primeira vez. Eu era criança e a musica foi “meu caro amigo” (adoro ela até hoje), e ficava tentando acompanhar o ritmo que ficava cada vez mais rapido.Lembro que minha mãe cantava muito “quem é você” e “a banda”, me contando dos seus carnavais.
    Nenhuma mulher, de idade alguma fica indiferente a Chico. Podem até não ouvir, mas sempre se deixar “frechar” pelos seus olhos assustadoramente azuis. Mas falando do Carioca digo que é um dos seus discos que mais gosto, pois mostra o Chico com um que de saudade dos seus tempos de garoto assistindo filmes franceses na musica “atrizes”, ou um elogio a sedução feminina em “ela faz cinema”, minha musica favorita do disco.
    E o melhor de tudo é que ele ainda é modesto. Não tem como não gostar!

    Responder
  3. Alícia 18/07/2008 em 3:04 am

    e eu nem tinha comentado, né? =)
    hehehehe
    já disse minha parte preferida, vc sabe qual é.
    =*

    Responder
  4. Vanessa Souza 21/07/2008 em 10:08 pm

    O título “Não me leve a mal…” me remeteu à outra música, do Engenheiros do Hawaii, chamada Todo mundo é uma ilha:

    “Não me leve a sério, não me leve a mal me leve para casa
    Eu sou um bom rapaz, eu só bebi demais preciso ir pra casa
    Você me procurou, eu procurei dizer que não valia a pena
    Você não escutou, você me acusou de estar fazendo cena
    Não me leve a mal, mas eu não tô legal quero ficar sozinho
    Eu sou um bom rapaz, mas eu não sou capaz de seguir o teu caminho…”

    Belo texto ;)

    Responder
  5. Rosane Martins 31/07/2008 em 9:24 am

    Pedro, adorei ter noticias do seu trabalho. ótimo texto.
    Parabéns

    Responder
  6. Marcia Barbieri 05/08/2008 em 3:12 pm

    Adorei seu texto e através da sua explanação posso até escutar o Chico cantando, embora ache muito difícil desprender o antigo compositor de sua época e transportá-lo para cá, embolar Chico e bunda e peito e funk, é o mesmo que tomar a noite inteira cerveja e vinho, não cai bem.

    Beijo
    Marcia Barbieri

    Responder
  7. Renato 28/08/2008 em 10:18 am

    Se houvessem verdades em mentiras,
    E modestas vaidades, e sinceras liberadades,
    E humanas heresias, e honestas covardias.
    Então assim eu diria
    Que só chico as cantaria.

    Responder
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