Leo Gilson e os hispano-americanos

9–07–2008 – Enviar para e-mail

por Daniel Lopes – Que incalculável miséria as novas gerações de alunos, professores, escritores, críticos, jornalistas e que tais não poderem encontrar facilmente os dois magníficos livros de Leo Gilson Ribeiro! Por que será que nossas editoras pagam reverência a mediocridades internacionalmente conhecidas e negligenciam criminosamente o profundo e inteligível trabalho desse crítico brasileiro falecido ano passado?

As edições de Cronistas do absurdo e O continente submerso estão esgotadas e só podem ser encontradas em sebos (e olhe lá). Depois de ler o primeiro, que data de 1964 e aborda escritores de língua alemã, além do francês Eugène Ionesco, pude agora conferir o maravilhoso Continente submerso. São resenhas, entrevistas, reportagens e artigos sobre a literatura (e política) latino-americana. O livro é de 1988, publicado pela editora Best Seller.

Com a autoridade (mas não com a empáfia) de quem parlamentou com ícones como Borges e Vargas-Llosa, Leo Gilson dedica-se a revelar a profundidade das letras de um continente americano (americano mesmo, do Canadá à Terra do Fogo) que, nesse campo, não é superado nas últimas décadas nem pela produção européia – a Europa, segundo ele, é um continente que agoniza, ou pelo menos agonizava, com seu nouveau roman sem pé nem cabeça.

Escritores tão longe do reflexivo culto midiático, como o cubano Alejo Carpentier, o mexicano Juan Rulfo e o peruano Manuel Scorza, são energicamente analisados no livro. Sobre Carpentier, autor de Los pasos perdidos:

Alejo Carpentier acumula séculos, talvez milênios, mesmo, de Cultura, e essa palavra não fazia só o nazista Goebbels empunhar o revólver: os governantes e a burguesia lânguida da América Latina recusam um autor que só pode ser subversivo, pois não produz telenovelas nem segue as trilhas alienantes de Jorge Amado: deve então ser posto de lado imediatamente.

Sobre Rulfo:

Rulfo não dá entrevistas, ou rarissimamente. Oculta-se. Fala, talvez, por fiapos de frases de alguns de seus personagens. É sempre um clima lúgubre, trágico, sem esperanças nem ilusões que se transmite ao leitor, mas sem neuroses nem exagero. De sua região natal, Jalisco, célebre por seus homens viris e valentes, ele trouxe a herança onipresente da violência e uma certeza fatalista, quase oriental no seu quietismo, na sua descrença da ação e/ou da resistência ao destino: a morte atira ao vento ou joga no túmulo aquela serragem inconseqüente, homens e mulheres, velhos e crianças, que os vermes em breve vão desfrutar.

Sobre Scorza, o peruano que escreveu Bom dia para os defuntos:

Longe de se aproximar de Ciro Alegría e seu ódio transformado em literatura panfletária naturalista, Scorza introduziu a ironia, o senso de humor nas reivindicações sociais da esquerda, como que fazendo cócegas na barba vetusta de Marx e levando a múmia de Lênin no Kremlin a quase que imperceptivelmente sorrir.

Escrevendo durante aquela Guerra Fria de intolerância quente que opunha os defensores da barbárie estadunidense aos defensores da barbárie soviética, Leo Gilson se posicionava como um esquerdista não-ortodoxo, vigorosamente contra qualquer ditadura, inclusive a cubana de Fidel Castro. Daí o espaço que escritores cubanos dissidentes têm em O continente submerso – Armando Valladares, Carlos Franqui e Guillermo Cabrera Infante. Antecipando-se às críticas que o livro receberia por isso, críticas vindas de uma esquerda que pensa que a cabeça só existe para separar as orelhas, Leo Gilson escreve em seu prólogo:

Já dou por descontadas as críticas de fanáticos ao fato de eu ter incluído aqui os depoimentos de dissidentes cubanos ativos como Carlos Franqui e Armando Valladares, que devem pelo menos ser lidos e avaliados objetivamente por todo leitor honesto, nem que seja para negá-los.

O que acontece, também há décadas, no Brasil, é que dezenas de livros publicados na Europa Ocidental e nos Estados Unidos nunca puderam ser publicados entre nós. Trata-se de livros importantíssimos como History’s carnival, do matemático russo Leonid Plyushch, ou Sept ans à Cuba – 38 mois dans les prisons de Fidel Castro, de Pierre Golendorf (…) Por que tal muralha inexpugnável de censura à verdade documentada pelos dissidentes russos, cubanos e de outros países comunistas?

Esse posicionamento, entre a direita e a esquerda salvacionistas, alguns vêem como o mais cômodo durante as décadas passadas, o mais fácil de ser tomado. Nada mais falso. Basta ver que a ira dos stalinistas não poupou nem mesmo Camus ou o argentino Ernesto Sabato, tachados de “reacionários”, “contra-revolucionários” e outras baboseiras simplesmente por oporem-se às “progressistas” fábricas de assassinato progressivo das ditaduras comunistas. Enquanto Camus se opôs apenas ao nazismo e ao imperialismo francês, tudo bem… Que Sabato criticasse a ditadura militar argentina, vá lá… Mas falar mal da União Soviética e suas ditaduras-satélite?! O modelo ideal dessa esquerda era Sartre, o sempre amado, com sua “colaboração crítica” com o stalinismo.

Não é, O continente submerso, livro de um idólatra, definitivamente. Jorge Amado? Apenas umas duas de suas inúmeras obras são aproveitáveis. Cem anos de solidão? “Soporífero”. Neruda? Um poeta medíocre e um homem hipócrita, que, enquanto fingia-se de socialista e amigo dos pobres, humilhava de forma sádica sua empregada Jurema Finamour, a quem pagava míseros soldos*.

Com ironia, as capengas traduções brasileiras são impiedosamente criticadas, para desespero da Câmara Brasileira do Livro, que enviava cartas aos jornais onde Leo Gilson escrevia, para reclamar de seu suposto excesso de rigor.

Conforme a reação do leitor, a tradução [de um livro de Borges] causa risos ou pranto (…) De vez em quando percebe-se “um que outro som” quando deveria ser “um ou outro som”. Como charadas, há pérolas como esta: “Sempre um acaba por assemelhar-se aos inimigos”, quando uno aí indica “se”.

Aí às vezes o fantástico se estende – involuntariamente? – à tradução quando se diz “Do bosque, dizem que se estende até o mar que rodeia toda a terra pelo qual ANDAM casas de madeira igual à minha”. A tradutora não especifica se as casas andam a pé, de cadeira de rodas ou se se locomovem teleguiadas.

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2 comentários:

  1. Daniel Lopes (o outro) (26–07–2008 7:09 pm)

    Bom texto.

    [Responder]

  2. Palavras, esses troços que (com a ajuda de Deus) são coisa do capeta (20–11–2008 12:03 am)

    [...] prateleira de baixo e dirijam vistas a esse grande que foi Paulo Rónai (e nem vou falar – porque já falei – da ausência absoluta do crítico Leo Gilson Ribeiro de nossas [...]