Lavoura arcaica, o livro
por Daniel Lopes – (Pelo prazer de comparar) A queda de Camus não é tenebrosa, até onde percebi o narrador fala pelos cotovelos com prazer e ironia (ou será que não passo de um péssimo leitor?). A queda de Raduan Nassar, essa sim, é obscura. Ao comentar brevemente em algum lugar o filme Lavoura arcaica (2001), baseado no romance homônimo que Nassar lançou em 1975, notei quão curioso é o fato de que há muito verde, e gado pastando, mas que isso serve como pano de fundo para o narrador nos revelar a desintegração de sua família. Agora conferi que essa característica vem do livro – e, ora, ela é fantástica!
Vejam bem, esse livro é composto com palavras de lâmina complexa– a voz do sangue, diria Nietzsche. Pedro, filho mais velho de uma grande família rural e patriarcal, vai encontrar seu irmão André num quarto barato de pensão onde ele estava desde que abandonara a casa. Pedro acredita que o outro não passa de uma criança perturbada e birrenta, que, como era muito querido pela mãe, acabara, com sua fuga, iniciando a desunião da família. No entanto, possuído de um rancor que cresce e arrefece a cada página, André começa a contar ao irmão mais velho (figura rude como o pai) como “a nossa desunião começou muito mais cedo do que você pensa”. (Aqui há uma notável diferença do filme para o livro. Neste, várias das opiniões de André não são vociferadas, e o texto é pontuado por termos como “eu poderia era dizer” ou “eu quase deixei escapar” – ver a primeira das passagens abaixo –, aos quais se seguem discursos interiores que o personagem gostaria de fazer o irmão ouvir, e no entanto não o faz. Já no filme, o André interpretado por Selton Mello de fato põe pra fora muitos desses discursos.)
Caso alguém entre vocês não tenha nem visto o filme nem lido o livro, eu sugiro de todo o coração que primeiro leia o romance. Por um fato só: a estória nas telas é tão excelente, cativante, magnetizante, que talvez aquelas imagens nunca mais saiam de sua cabeça. É bem verdade que eu peguei a obra de Nassar apenas algumas semanas após ver sua versão cinematográfica, mas afirmo sem o menor medo de errar que daqui a quarenta ou trezentos anos eu ainda terei o filme todinho aqui na cabeça, como se o tivesse visto na noite anterior.
E isso, meus caros, é um empecilho tremendo à leitura. É impossível não ter essa leitura invadida pela memória do filme (e, claro, quanto mais nos esforçamos para não lembrá-lo, mais o lembramos), o que pode até facilitá-la, é verdade, mas por outro lado perdemos a oportunidade de fruir melhor esse tremendo livro (que, entre seus objetivos, não tem o de ser facilmente digerido). Enfim, lamento desgraçadamente ter visto a estória antes de ler, mas agora já era (e depois, o DVD duplo do Lavoura… passou tão tentador pela minha frente, que quem resistiria?).
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Gosto muito do Lavoura Arcaica, entretanto, ainda acho mais genial Um copo de cólera. Estou falando dos livros.
Abraços,
Daniel Lopes (o outro)