Eu tive um sonho – ou, não fui eu, foi meu inconsciente
por Vanessa Souza
- Mãe, eu sonhei com vocês essa noite.
- Ah é, filha? – responde meio distraída.
- Sim, sonhei que eu estava internada em um hospital…
- Deus me livre! – interrompe.
- Eu não estava com nenhuma doença degenerativa, não estava morrendo… A sua netinha também estava internada no mesmo hospital…
- Credo, minha filha! Isso é sonho de se ter com sua sobrinha? – exasperada.
- E você e o papai passaram o dia todo no quarto dela, e não apareceram no meu. E eu fiquei brava, triste e decepcionada…
- Quanta bobagem…
- Pode ser. Mas não é o que eu penso, foi…
- Já sei: não foi você, foi seu inconsciente, né?
- É… Ele pode estar com ciúmes do bebê…
- Analise menos as coisas, minha filha…
- Você acha melhor apenas viver, sem juntar os significantes e significados, apenas viver sem compreender?
- Vai fazer alguma coisa divertida, filha.
É por isso que às vezes tenho preguiça de contar alguma coisa, com um viés psicanalítico, para minha mãe. Essa semana ocorreu a mesma coisa, com um amigo. Tive um sonho cheio de entrelinhas, meu inconsciente todo estruturado enquanto linguagem – princípio fundamental de Lacan – e ele… Não entendeu nadica de nada! O interessante é que sonhei com um amigo designer de móveis, super pragmático. No entanto, ele tem o mesmo nome de um amigo psicólogo, que ama a psicanálise. O designer veio com aquela respostinha pronta de que “os sonhos não têm o menor significado”. Ou que, tudo o que se sonha, ocorre o contrário. Por exemplo, se você sonha com sua mãe morta, ela vai viver muito. Besteira. Os sonhos são a satisfação de um desejo. Vendo a mãe morta, ainda que simbolicamente, é porque esse foi seu desejo inconsciente.
É claro que ninguém quer ver a mãe morta! Não aqueles que têm uma “mente sã”. Assim, um sonho aflitivo desses entra na categoria dos sonhos ansiosos ou de punição. De modo geral, os sonhos ansiosos demonstram uma falha nas atividades defensivas do ego – o ego não consegue nos proteger de uma idéia tão ruim, e reage com demasiada ansiedade.
Há outra categoria de sonhos visto com ruins, chamados de sonhos de punição. Aqui o ego antecipa a culpa, ou seja, a condenação do superego – nossa moral. Nesse tipo de sonho, em vez de expressar uma fantasia disfarçada de desejo reprimido, ela expressa uma fantasia de punição pelo desejo em questão.
Para cada um, a experiência do sonho é particular, íntima, estranha. Ela não é específica do homem, já que o animal também parece sonhar; mas o homem fala e a linguagem condiciona todas as suas experiências. Bem cedo reconheceu no sonho o papel da linguagem e fez dele uma mensagem dos deuses. Nossa civilização moderna o interpretou como uma manifestação do inconsciente, com o qual os psicanalistas dialogam. Todo sonhador, hoje, sabe que, no âmago dessas imagens da noite, seu desejo, silenciosamente, insiste. (Gisele Chaboudez, A equação dos sonhos, Companhia de Freud, 2000)
De forma resumida, Freud afirmou que todos os sonhos tinham um significado e uma causa. Desse sonho, as pessoas só conseguem se recordar do conteúdo manifesto, ou seja, tudo aquilo que acontece no sonho. Já o que está latente é a parte recalcada ou inconsciente, é a sua causa. Entre o sonho e sua causa, há uma complexa relação, que deve ser descoberta através da associação livre – juntar todas as idéias que vem à mente, até surgir algo. Um ponto fundamental no estudo dos sonhos é que eles têm importância no papel desempenhado pelas experiências e impressões na infância e no desenvolvimento humano.
A idéia aqui não é ensinar a ninguém como interpretar um sonho. Essa é uma tarefa complexa. Até porque muitas vezes nem lembramos deles. Trabalhamos demais, temos milhões de tarefas e, normalmente, quando o despertador toca, é preciso sair correndo. Muitas vezes acordamos de madrugada, após um sonho. Mas quem vai ter paciência para anotar cada detalhe lembrado? De qualquer forma, um bloquinho e uma caneta ao lado da cama podem transformar-se em um “livro dos sonhos”. Um importante registro da nossa história. É muito instigante desenrolar o novelo do nosso inconsciente, na eterna luta entre Eros (pulsão de vida) e Tanathos (pulsão de morte). Mas esse é assunto para um outro texto…
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Que bom lê-la por aqui, Vane. Espero que contribua com frequência!
Esse é um tema que, sem dúvida, sempre despertou curiosidade a todos nós, pois nosso inconsciente é mesmo uma caixinha de surpresas. Eu fico normalmente admirada com as situações dentro dos meus sonhos. Valeu pelas explicações aos que, como sua mãe, têm muitas perguntas sondando a mente depois de acordar…Beijo
Parabéns Vanessa….adorei o blog e vou me tornar leitora assídua….agora me diz uma coisa….de jornalista à psicanalista? Que isso??? que piração..heheh
Que interessante isso! Adoro sonhos, tomo nota dos meus de vez em quando. Lembro-me que um pouco depois de mudar-me para Manaus (aos 18 anos) – momento um tanto tulmutuoso de minha vida – eu tive um sonho que me fez pular da cama para anotar a última coisa que ouvira de alguém no sonho. Sonhei que eu andava sozinha numa noite fria e chuvosa pela pequena praça da igreja principal de minha cidade. Eu estava meio sem rumo, aflita com algo e minhas voltas na igreja estavam indo em círculo. De repente o cenário fica um pouco sombrio e me vi atravessando uma rua perpendicular à igreja, eu sentia medo. No momento em que finalmente decidi atravessar e correr no caminho de casa eu vejo alguém todo vestido de preto com uma capa de chuva que me impedia de ver seu rosto. Havia uma poça da lama no percurso de travessia e ambos paramos em frente à poço, eu e o estranho. Quando preparávamos para o pulo aquela pessoa olhou pra mim e muito rapidamente me disse “as alegrias de hoje só vão sorrir amanhã”. Eu pulei a poça e pulei da cama, assustada … Corri para alcançar um papel e anotar. Fiquei pensando onde eu teria escutado aquela frase e porque aquilo me veio naquele sonho…Não sei!
Gostei de seu texto”
Sue
Gostei bastante do texto. Tem profunda visão Psicanalítica. Mas, cuide para não pirar, colocando Freud e Lacan em tudo e em todos! (Hehee).
Lembranças
Krislei
Oi, Vanessa, gostei muito. Também tenho meu bloquinho na cabeceira da cama… Já deu boas crônicas. Porém tenho de anotar na madrugada, pois pela manhã já esqueci na maioria das vezes. É um tema muito bom: sonhos! Ou pesadelos.
Um beijo
Taís
Parabéns pelo blog, Vane!
Vou acompanhá-lo sempre!
Fascinante! Como jornalista você redige muito bem e como psicanalista você é um verdadeiro ser pensante!
é isso aí, Vanessa…
sonhar é “acordar pra dentro”.
A partir do momento em que o homem tomou consciencia de que poderia raciocinar; e até o momento nos paradigmas atuais da ciência é a única especie capaz de o fazê-lo, muitas indagações rondam o nosso universo, mas sempre iremos nos deparar com a tentativa de encontrar as respostas para duas perguntas fundamentais: por que estou aqui? por que um dia não estarei mais aqui?. Nossa espécie é a única que tem comprovadamente a consciencia da morte e desvendar estas questões vem ao longo de milhares de anos. Muitos foram os teóricos que tentaram desvendar os males do corpo e do espírito. Francis Bacon nos deu uma visão do conhecimento humano, a partir de seu texto “O progresso do conhecimento” publicado em 1605, de forma pragmática, sendo o homem o resultado tipológico, onde o conhecimento é repassado aos demais como uma herança do saber. No século XIX Chales Darwin introduz a variabilidade nas ciências, onde o homem apesar de sua carga genética é único na saúde e na doença, não se podendo generalizar as observações quanto a saúde fisica, mental e espiritual. Freud e seus seguidores e desafetos viveram um mix destas duas visões da Medicina em suas pesquisas. Hoje científicamente temos que ter muito cuidado com nossos pacientes; devemos ter nossas afirmações e decisões clínicas “baseadas em evidências”, com experimentos randomizados, controlados extritamente, evitando-se os viéses, tanto de pesquisadores, pacientes e seus cuidadores. Desta forma cara jornalista é prudente, sempre analisar o que falar, qual caminho seguir no trato do paciente, tentando a busca de evidências; o que em Psiquiatria, Psicanálise e Psicologia são muito dificieis de obtê-las, devido ao trato do efêmero, que é o pensamento e o comportamento.
Dr Aroldo Moraes Junior
Médico e Economista
PhD em Health Economics pela University of York – London
Existe uma lição que atravessa toda obra de Freud e que serve, ou deveria servir, também como referência para o trabalho de todos que se propõe a trabalhar com ciência, especialmente na área da saúde: a humildade. Freud nunca fechou sua teoria, pois sabia o quão complexo é o conhecimento na área que se dedicou a estudar, sempre esteve disposto a assumir a possibilidade de que poderia estar errado e sentia seu conhecimento sempre incompleto.
Psicanálise é, portanto, essa esfera de conhecimento tão incompleta, tão autêntica que assusta, que é Ciência, mas também é arte e da qual falas, muito bem.
E levemos conosco, para nossa prática, esse precioso ensinamento do Mestre.
Cara Jornalista Vanessa e demais leitores, pode transparecer a você ou a quem ler o meu comentário que não estou valorizando a atuaçào dos profissionais que se dedicam a esta área. Antes porem, meu desejo foi de alertar, como faço a vários anos que com o passar do tempo a “arte de curar”, deixo entre aspas, pois nenhum profissional da área de saúde consegue curar, podemos sim amenizar o sofrimento do assistido. A morte é inexóravel a todos. E nesta busca de evidencias judiciosas para apoiarmos nossas decisões, a cada dia vem avançando mais, na medida do avançar das descobertas e pesquisas, incluindo no mister ao qual tu te dedicas. Ratifico que todo ser é único na saúde e na doença, e que para nos utilizarmos das melhores evidências científicas é necessario primeiro conhecer bem o paciente – coisa que no Brasil está cada vez mais dificil – o médico não examina corretamente o seu paciente, o profissional de enfermagem torna-se a cada dia mais burocrata que assistente ao paciente, bem como os demais atores do cuidar. Sabemos do valor e préstimos que a Psicanálise tem a oferecer em minimizar os sofrimentos dos assistidos, mas minha intenção não foi por em “cheque” esta eficácia, contudo temos que estar vigilantes, pois a cada dia nossos assistidos expressão veementemente suas vontades e preferencias sobre daqueles à quem eles entregam suas vidas e seus mais recondidos desejos e anseios. Sei tambem por participar de inúmeros debates, que o assunto a princípio pode parecer polêmico, mas é da polêmica que se chega a alguma conclusão e é assim que a ciência é feita.
Sempre tive problemas em lidar com os meus sonhos, é mais fácil fingir para eu que os esqueço e assim deixa-los “inertes” no inconsciente, como se não fossem reflexos de muitos dos meus sentimentos, pensamentos e até vontades.
Mas com o todo que foi desbravado do seu sonho, concluo e começo a singir minhas armas com um novo propósito, não descansarei até conseguir disciplina suficiente para gerar o meu próprio “livro dos sonhos” ! rsrs
Além de parabeniza-la pelo perfeito uso da linguagem, não posso esquecer de comentar sobre o suficiente uso da teoria, que fechou as explicações com clareza e total discernimento que permitiu ótima compreensão a todos.
Parabéns ! e aguardo ancioso para ler seus novos escritos!
Forte abraço
A. Mendes
Olá VAN!
É realmente um prazer enorme e incomensurável ver-te desenhando temas por aqui. Aliás, tu já sabe que adoro todos os teus temas… os teus ensaios, as tuas crônicas e, ainda, a troca indefinida de palavras que fazemos em nossos poucos e bons momentos pela virtualidade. Adoro ler-te… e quero sempre. Como também quero que teu sucesso seja cada vez maior.
Um grande beijo.