Anatomia de um jingle político

por Camila Pavanelli – O que estou para relatar é uma experiência de trabalho que nada tem de ilegal, imoral ou anti-ética. Pelo contrário, trata-se da descrição do processo criativo de dois trabalhadores competentes, fazendo o melhor que podiam para atender às reivindicações de seu cliente. Tudo isso é claro e sabido desde o primeiro momento; nada do que descreverei é novidade para ninguém; e todas estas considerações, que preparam o terreno para um inevitável “mas”, não puderam suprimir o desconforto sentido ao final do processo pelos trabalhadores e também por mim, ali presente como uma espécie de observadora participante.

Aconteceu semana passada: foi a primeira vez que um encontro com dois dos meus amigos mais queridos – os quais chamarei de Morgado e Genésio – resultou em desânimo, em vez de provocar a empolgação de sempre – e a ironia é que isso se deveu à imposição de uma empolgação fingida.

Meus amigos são músicos, e um deles, Morgado, trabalha com publicidade. Havia acabado de compor e produzir um jingle para um candidato a prefeito que chamarei Elesbão, de uma cidade que chamarei Estrela da Ribanceira. Chegamos em sua casa, Genésio e eu, quase junto com o e-mail que pedia para ele compor um novo jingle para o candidato: a agência queria duas opções para mostrar ao cliente. Sem outros recursos para garantir o leitinho das crianças, Morgado, que não é bobo, arregaçou as mangas e pediu a ajuda de Genésio.

Como Morgado quisesse uma marchinha, o primeiro passo foi produzir uma base rítmica condizente. Confesso que minha participação neste ponto do processo resumiu-se a ter o sono embalado pelos sons da bateria sampleada, sonífero de eficácia equivalente ao sacolejar do metrô. Acordei durante os primeiros esboços de melodia e harmonia, e agora questiono se não teria sido melhor continuar dormindo.

Primeiro gravou-se a base harmônica, composta basicamente por progressões 2-5 – ou seja, tínhamos em mãos praticamente uma Giant Steps. Coltrane would be proud.

Foi comovente presenciar a aflição de meu amigo Genésio, um apreciador de acordes absolutamente alheio ao mundo corporativo. Morgado custou a impingir-lhe o cabresto das tríades, com relativo sucesso. Diálogos como o que segue foram repetidos até Genésio se convencer da importância da feiúra na publicidade:

Morgado: – Ouve só uma coisa: você quer fazer tudo bonitinho. Não é pra ficar bonito, tem que ser feio. Quanto mais feio, melhor.

Genésio: – Mas eu tô fazendo feio, olha aqui!

M: – Você não entendeu – tipo essa nota, que nota é essa que você tocou agora?

G: – É a sexta.

M: – E quem mandou enfiar uma sexta aí?

Aos poucos, Morgado e Genésio entraram num acordo: quando era para gravar, Genésio obedecia e tocava o mais feio que podia. Assim que a gravação era interrompida, Genésio brincava à vontade com os acordes, e passávamos de um mero jingle ao novo hit dos Yellowjackets. Russell Ferrante would also be proud.

Resolvido o problema dos acordes feios, passou-se à melodia. Esta ficou por conta de Morgado, que em poucos minutos criou um desgraçado de um refrão que martela na minha cabeça até agora. A letra oficial – para a qual contribuí um verso – dizia que Elesbão havia de governar com garra e convicção, e que Estrela da Ribanceira morava em seu coração. Também aqui, rapidamente uma letra não-oficial deu as caras, fazendo par com os acordes bonitos: Elesbão é um safado ladrão que vai foder com a população.

Mas a dura realidade é que nenhum de nós sabia, afinal, quem era Elesbão – e fazíamos apenas uma idéia distante da mais distante ainda cidade de Estrela. Ao escrever alguns versos que acabaram não sendo utilizados, perguntei a Morgado se nosso candidato era governo ou oposição. Eu torcia para que a resposta fosse esta última, para poder rimar “confiança” e “esperança” com “mudança”. Mas como o negócio de Morgado é música e não política, fiquei sem resposta – e achei mais fácil mudar a rima para “liderança” do que pesquisar o passado político de Elesbão na Wikipedia.

Chegou enfim a hora de gravarmos a guia. Cantar, ali, era o de menos: o mais difícil, além de não errar a letra – mais de uma vez Elesbão virou Alemão -, era imprimir à voz a energia necessária – a energia de quem acredita que Elesbão é o homem que irá melhorar a vida dos habitantes de Estrela da Ribanceira. Gesticular empolgadamente, manter a postura ereta e até dançar um pouquinho foram recursos importantes para o alcance desta energia positiva – os únicos, aliás, de que dispúnhamos tendo em vista nossa ignorância sobre o ilustre candidato.

A esta altura, Morgado já havia desistido de dar continuidade à composição – em primeiro lugar, porque seria trabalho jogado fora caso o que já havia sido feito não agradasse o cliente; em segundo, porque um bloqueio criativo inaudito se apoderou dos dois bravos compositores. Uma vez findo o refrão, tudo o que lhes ocorria como desenvolvimento da música era o grande sucesso “A Pipa do Vovô Não Sobe Mais”. Vez ou outra um dos dois tinha um súbito lampejo de idéia: “ei, e se fosse isso aqui [toca / cantarola qualquer coisa]“, apenas para ser desiludido pelo outro: “isso aí nada mais é que ‘o vovô foi passado pra trás’”. Ficamos, assim, apenas com o refrão chicletudo, prontamente mixado e encaminhado à agência.

A descoberta de que os responsáveis pela campanha publicitária de um candidado nada sabem a respeito de suas propostas políticas geralmente acontece na mesma época em que nos é revelado que Papai Noel não existe. A diferença é que, felizmente, nunca me foi dado ver o senhor que interpreta Papai Noel estirado no sofá de sua casa, de bermuda e chinelo, coçando o saco e dando esporro no filho. Afinal, algumas coisas a gente pode até saber, mas prefere não ver.

Semana passada, os papais noéis foram os meus amigos. Tenho certeza de que eles prefeririam ser apenas músicos. Mas de alguma coisa se há de viver.

4 comentários | Dê sua opinião

  1. Lidia Barros 28/07/2008 em 10:51 am

    Camila,

    Achei sua publicação a cópia fiel da realidade. Despretenciosa e engraçada.
    Em uma novela da globo tem cenas que mostram uma empresa de marketing político preocupada em ganhar dinheiro e eleger um político corrupto e sem escrúpulos. Se não fosse trágico seria cômico, mas nós brasileiros estamos acostumados a rir das nossas desgraças.
    Pena que não posso parabenizá-la por sua participação nesse jingle. O que posso dizer é que seu texto está muito legal.
    Beijos.

    Responder
  2. Olivio 08/08/2008 em 2:47 pm

    Ahahah! Morri de rir com o Genésio querendo fazer acordes com a sexta e o Morgado ralhando, exigindo menos técnica. O eleitor merece isso mesmo: a musiquinha mais chinfrim possível, prá ficar martelando na cabeça dele até o dia da eleição e, após o voto, miraculosamente se esquecer e se ver livre daquilo por mais 2 anos. Eu imagino a angústia de tentar criar uma letra para um jingle político de um tal Elesbão desses qualquer…Como diria Stanislaw Ponte Preta: É o jingle do crioulo doido! Beijos, Camila!

    Responder
  3. Osmar 11/08/2008 em 9:02 am

    Onde voce arrumou o nome Elesbão ? – é ótimo ! e a letra não oficial foi de arrasar !
    Parabéns Camila, adorei !

    Responder
  4. 11/08/2008 em 9:30 am

    Fala sério!
    Fiquei imaginado a cena…hahahahah.
    Bárbaro sua louca.
    Beijos

    Responder

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