A última vez
por Camila Pavanelli – Não, este texto não é uma tentativa consciente de auto-ironia frente ao fato de ser a primeira vez que escrevo aqui. A verdade, como geralmente é o caso, é muito mais simples do que isso: é que agora tudo soa último para mim. Me mudo do país em poucas semanas, e palavras que de início eram sorrateiras já ocupam boa parte do foco de minha consciência dispersa: é a última, é o último, acabou.
Só tem um detalhe, traiçoeiro e intrigante: as coisas últimas em que vou pensando, no fundo não são bem assim (uma das desvantagens da angústia em excesso é que ela nos torna burrinhos). Hoje a síndrome do último atacou duas vezes: um brinco que comprei, uma salada de berinjela que comi. Os últimos! E dá-lhe comoção.
Em primeiro lugar, obviamente pretendo comprar mais brincos e comer outras berinjelas na vida. Este brinco e esta berinjela, naturalmente, estão ligados a situações afetivas específicas.
Mas, passando para o segundo lugar, também é óbvio que não é verdade serem estes dois eventos os últimos de uma vida tão repleta de bijuterias e legumes. Pois salvo aquele hipotético raio que sempre pode cair sobre nossas cabeças a qualquer instante, em menos de um ano estarei comprando um brinco exatamente na mesma barraquinha e almoçando exatamente com a mesma pessoa. Ou seja, nunca se viu uma última vez mais fajuta.
Para além desse raciocínio todo, porém, minha comoção segue perfeitamente inalterada: os sobressaltos de é-o-último! são cada vez mais freqüentes.
Porque de fato é a última vez (uma das vantagens de ficarmos burrinhos para as coisas práticas é que ficamos espertos para outras bem mais relevantes).
Pela última vez, sou adolescente. Não tenho ilusões de que o carimbo da imigração estado-unidense me conferirá a maioridade psíquica; mas tenho sérias suspeitas de que morar sozinha em um país bizarro e estrangeiro me proporcionará experiências que conduzem à maturidade. Doutorado em Nova Orleans: eis o meu PAC pessoal.
Minha definição de maturidade é “relativa independência emocional e financeira”. Relativa porque é impossível ser feliz sozinho; independência porque mais impossível ainda é uma felicidade que dependa integralmente de alguém cujo desejo nunca se conformará exatamente ao seu; emocional porque você pode até preencher um cheque, mas quero ver cuidar de si, dos seus e da sua casa; financeira porque você pode até tomar banho diariamente e ligar para os amigos nos aniversários, mas quero ver trabalhar e ter fundos para preencher um cheque.
Como a maioria dos meus amigos de classe média de vinte e poucos anos, ainda sou bem adolescente no que diz respeito a tudo isso. E isto não é uma crítica ou uma recriminação superegóica, mas apenas a constatação de um fato absolutamente compatível com um mundo onde a dependência vende – cocaína e TVs de plasma, shakes dietéticos e literatura de auto-ajuda.
Um mundo onde encontrar a própria Nova Orleans fica progressivamente mais difícil.
A última vez está aqui. Ela é forte. E é limitada. Ela é apenas uma das muitas faces de novidades que nem sei como irão surgir.
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Camila, que bom ler voce além das fronteiras do seu blog… E gostei dessa parte “da última vez…que daqui a um ano será a mesma coisa…”, que me remeteu a nada será como antes, mas igual e diferente, ao mesmo tempo. Me avise sempre que mandar prá cá… Beijos…
E, para nós que aqui ficamos, aguardando novidades e aventuras vindas de campos estrangeiros, a última palavra em que pensamos é justamente “último”.
Para nós, tudo há de ser “primeiro” – o primeiro post no Recordar, Repetir, Elaborar direto de Nova Orleans, contando a chegada; os primeiros telefonemas; o primeiro dia de pós; e a já aguardada primeira volta a este nosso país ensolarado…
Como sempre, um excelente texto!
Um beijão
Cá,
Como disse a Patrícia, realmente um excelente texto. Adorei! Beijos e bom demais ver você se “espalhando”…
Então,uma excelente viagem e que ela te torne ainda maior que vc é hj.
Abraço,
Daniel Lopes (o outro).
Bom, Camila,
Muito boa a maneira como você sistematizou, pôs em ordem esses sentimentos confusos que caracterizam a passagem da adolescência para a idade adulta. Isso é expressão. Os seus quiasmos, bonita palavra, dão definições ao mesmo tempo lapidares e pessoais, ou seja, ao mesmo tempo que é universal permite que a gente se identifique com o que é dito. Fico por aqui, porque, como dizem, não nome não é “thank you”, e também porque já sou ex-adolescente maduro uro uro que tem que sair logo pro almoço e aproveitar enquanto não chega a hora de voltar pro TRABALHO, palavrinha pesada que desafia o melhor da madurez…
abrçs
Desculpa, mas esqueci de informar meu site. Aí vai: http://www.sergioluizayres.multiply.com
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