A Sapienza e o papa
por Daniel Lopes – Acordo derrubado da cama por notícias de que a Sapienza não gostou do papa, o papa não gostou da Sapienza – mas onde está a notícia? A novidade?
Tá, eu tenho que parar com essas brincadeiras. É a prévia e má influência de Voltaire, estou esperando chegar meu exemplar do Dicionário filosófico.
Segundo a Reuters, “desde sua eleição em 2005, o pontífice conservador luta contra o que ele considera uma tentativa de restringir a voz da Igreja na esfera pública, particularmente na Europa. Mas seu posicionamento em questões como aborto, casamento gay e eutanásia levaram os críticos na Itália a acusá-lo de interferir na política.” A visita à universidade La Sapienza, fundada em 1303 por um papa, faria parte dessa cruzada.
Não importa, a Reuters é instrumento do Satanás. Eu, por mim, acho que os universitários deveriam sim ouvir o que o Ratzinger tinha para dizer. Só ganhariam com isso. Deve ser uma experiência inigualável ouvir o papa in concreto. Se eu morasse lá, teria entrado nos protestos que se seguiram, a favor da visita do homem.
Quando foi hoje, como diria o cabôco, a Igreja organizou um ato público em defesa do Ratzinger. Mais de 100.000 pessoas reunidas! (Flamengo e Sport deu quase isso ano passado, e é porque o time não tava lutando ainda diretamente pela Libertadores, e o atacante principal, Souza, ainda não havia evoluído de inútil para ruim, o que aconteceria apenas na rodadas finais, mas enfim.)
No ato, o papa pediu que os estudantes “respeitem a opinião alheia”.
O fato é que Ratzinger não foi proibido de ir à universidade proferir seu discurso. Ele que declinou do convite. E por quê? Segundo o cardeal Tacisio Bertone, secretário de Estado do Vaticano, porque “um grupo claramente minoritário de professores e alunos acabou com os preparativos necessários para uma acolhida digna e tranqüila”, o que, infelizmente, acabou por privar professores e estudantes “de escutar uma palavra culturalmente significativa”.
Por que 67 professores, dentre os mais de 4 mil da instituição, encaminharam uma petição ao reitor pedindo a revogação da visita do papa? Porque eles acham que o homem não é lá isso tudo no quesito respeito à ciência e à pesquisa, objetivos de qualquer instituição de ensino. Citam um discurso de 2000, do então cardeal Ratzinger, na mesma Sapienza, em que ele afirmou, dentre outras “palavras culturalmente significativas”, que “na época de Galileu, a Igreja permaneceu muito mais fiel à razão que ao próprio Galileu. O processo contra Galileu foi racional e justo”.
No site de notícias Zenit – O mundo visto de Roma, leio que “os professores, contudo, não explicavam em sua carta que essa frase não era do cardeal Ratzinger, mas do filósofo da ciência Paul Feyerabend”. Nossa, isso é sério! Mas na frase seguinte: “O purpurado alemão a citou unicamente para ilustrar a posição da Igreja sobre Galileu”. Ah sim…
Qualquer um tem o direito de achar que o julgamento contra Galileu foi racional e justo, que aquela conversa de que a Terra não é o centro do universo não tá com nada, mas será que esse punhado de professores da Sapienza não tem o direito de propor o cancelamento da visita de uma figura que eles consideram nociva ao ambiente de ensino?
Até onde li, o reitor não atendeu ao pedido dos professores, medida compreensível, visto que a grande maioria não se manifestou contra a presença do pontífice. Ainda assim, Ratzinger preferiu não dar o ar de sua graça. Porque não aceita o dissenso? Porque só quer fazer discurso onde ninguém se erga para discordar? Porque se 67 de um grupo de 4 mil discordam veementemente de suas idéias, aí já há um inaceitável “desrespeito à opinião alheia”? E se, ao invés de 67, tivessem sido 30 ou 20 ou 10, ainda assim o atentado à livre expressão estaria consagrado? Só vale se 4 mil dos 4 mil concordarem com sua visita?
E teríamos que ressuscitar Galileu, claro, para saber o que ele acha dessa conversa de “respeitar a opinião alheia”. Poderia ser que ele tivesse algo a acrescentar.
E uma palestra de Richard Dawkins em uma dessas universidades italianas católicas e conservadoras que servem de cabo eleitoral para o partido de Silvio Berlusconi? Será que rola?
[publicado 20/01/2008 no blog do autor]
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