A Rússia está fazendo os democratas ocidentais de tolos

Esforços para encontrar uma solução na Síria estão afundando graças a deferência descabida.

-- Manifestantes sírios pró-Assad --

O fracasso do ocidente em proferir uma ameaça que possa limitar a chacina na Síria é materializado na triste figura de Michael McFaul, o embaixador americano em Moscou. Triste, mas também ridícula, porque McFaul é um Malvolio diplomático: tão desesperado em agradar, que nunca imagina que todos estão rindo dele.

Suas ações são as de um liberal, ainda que do tipo tomado de culpa. Suas conquistas não são nada liberais. Partindo das melhores intenções, ele está terminando com o pior dos resultados. Nisso, ele é um verdadeiro representante do governo Obama.

Você há de lembrar que na eleição presidencial de 2008 os democratas argumentaram que George Bush era com certeza um cowboy e provável criminoso de guerra – um “estúpido homem branco”, para usar as palavras que Michael Moore melhor teria feito em dirigir a si mesmo. Quando Obama chegasse ao poder, ele se “engajaria” com a Rússia de Putin, “estenderia a mão” para o Irã dos aiatolás e “reinicializaria” a política externa americana. A América (e Europa) liberal achava que “o dever de arrepender-se proíbe o bloco ocidental, que é eternamente culpado, de julgar ou combater outros sistemas, outros estados, outras religiões”, como disse o filósofo francês Pascal Bruckner em A tirania da penitência, sua dissecação do masoquismo ocidental. Esperava-se que, assim que o ocidente se arrependesse e substituísse um estúpido homem branco por um inteligente homem negro, ele eliminaria a “causa raiz” da hostilidade antiocidental. Não haveria necessidade de julgar ou combater nossos inimigos. De fato, nossos inimigos se revelariam como não inimigos, um “outro” injustamente demonizado, as vítimas dos nossos medos paranoicos e estereótipos racistas.

O fracasso da diplomacia ocidental na Síria tem sido um destruidor sangrento de ilusões. EUA, Grã-Bretanha, França, Turquia e Liga Árabe aceitaram um veto russo. Enquanto eles se torturam sobre a moralidade e a praticidade de uma “intervenção liberal”, as ditaduras praticam uma “intervenção iliberal” que é um eco moderno da Guerra Civil espanhola.

Os crimes de Assad não fizeram com que Putin parasse de fornecer armas a seu cliente. Após forças baathistas massacrarem pelo menos 108 pessoas perto de Hula, o ministro das Relações Exteriores de Putin insistiu em que “ambos os lados, obviamente, tiveram participação na morte de pessoas inocentes”. Após o massacre em Mazraat al-Qubair, a Rússia disse que queria o Irã envolvido em qualquer processo de paz. Isso foi demais até para Hillary Clinton, uma estadista cuja tolerância parecia ser infinita. Mesmo que ela já soubesse que os guardas revolucionários iranianos estão envolvidos em uma intervenção iliberal ao lado dos aliados dos aiatolás entre a minoria alauita. Como disse Michael Weiss, especialista em Síria da Henry Jackson Society: “Pedir a Rússia e Irã ajuda para se chegar à paz é como pedir a um estuprador que lidere uma marcha Reclaim the Night.”

Os “progressistas” da última década não entenderam que as ditaduras são raramente apenas uma reação racional para crimes ocidentais. Elas têm suas próprias razões, que não deixam de motivá-las assim que um liberal ocupa a Casa Branca. Autocratas não se veem como ladrões e megalomaníacos. Criminosos admitindo sua condição é algo que vai contra a natureza humana. Eles dignificam sua sede de poder vendo-se como as únicas pessoas capazes de manter a ordem e manter seus países unidos.

A seus olhos, portanto, os adversários devem ser traidores não só da família ou da panelinha governante, mas da nação. Democracia e direitos humanos não são ideologias rivais ou demandas legítimas de oponentes dignos, mas doutrinas subversivas do ocidente imperialista, contras as quais as ditaduras devem unir-se para repelir. Uma das características menos notadas do mundo moderno é como o interesse comum de ditadores derrubou as diferenças entre ideologias. Olhe com atenção e você encontrará um sindicalismo autoritário; um ecumenismo tirânico. No papel, a Rússia do capitalismo de compadrio, a Cuba comunista, a Síria do Partido Baath o Irã islâmico não têm nada em comum. Mas eles vão sempre formar uma frente unida contra o liberalismo.

Michael McFaul não é um idiota, pelo menos não tão obviamente. Um distinto acadêmico, ele ajudou a organizar a redefinição de Obama nas relações com a Rússia. Compartilhou do pressuposto do governo americano de que, quando o Kremlin percebesse que homens e mulheres sensatas estivessem no comando em Washington, ele iria cooperar.

Apesar de toda sua erudição, McFaul não entendeu a mente ditatorial. Ele chegou na Rússia em janeiro, quando o movimento de oposição contra a cleptocracia estava crescendo. Putin, como Assad, teve que pôr a culpa pela dissidência nos estrangeiros e convencer seus apoiadores de que estavam defendendo a pátria dos planos de inimigos alienígenas, ao invés de ver as queixas como legítimas manifestações de russos subjugados. McFaul era o alvo mais próximo, de modo que os meios de comunicação atingiram sua pessoa. Jornalistas lacaios acusaram-no de ser o mestre de marionetes por trás dos protestos. Quando ele ia se encontrar com dissidentes, as emissoras estatais, em pleno conhecimento de sua agenda, o seguiam. Partidários de Putin postaram vídeos comparando-o a um pedófilo.

McFaul, que se preocupava tanto, que estava dando tão duro, lamentou em fevereiro a Julia Ioffe, da Foreign Affairs: “O que eu não esperava, sinceramente, foi o grau, o volume, a implacabilidade do antiamericanismo. O que é estranho para nós. Porque passamos três anos tentando construir uma relação diferente com este país. Quer dizer, eu estou realmente confuso com isso.” De acordo com Ioffe, uma “nota de mágoa real” tocou sua voz normalmente equilibrada. Mas ele superou a dor. Na semana passada, McFaul era tanto um Uriah Heap quanto um Malvolio, quando humildemente aceitou o abuso que o Kremlin lhe dirigiu.

Em uma violação de todos os protocolos que regem a relação com embaixadores, o ministério russo das Relações Exteriores criticou-o no Twitter por propagar “mentiras deslavadas” em uma palestra para acadêmicos em Moscou. O que fez o incidente diplomático patético foi que, embora McFaul tivesse feito críticas leves e verdadeiras em seu discurso, ele o preencheu pela maior parte com louvores. Como disse em sua resposta ao Kremlin no Twitter, ele havia “destacado cerca de 20 resultados positivos da política de reinicialização.”

McFaul não entendeu que a “reinicialização” tinha ocorrido apenas no lado ocidental. Para Putin, nada mudou. McFaul concluiu tuitando que a Rússia havia lançado uma guerra no Twitter contra ele. Mas não importa, palavras duras foram melhores do que um conflito armado. “Esse é o novo mundo – seguidores em vez de armas nucleares”, disse ele. “Melhor”.

Não está “melhor” na Síria, cuja população amplamente desprotegida está sofrendo mais do que com tweets desagradáveis. Russos e iranianos já entendem que a batalha na Síria é uma que eles devem ganhar tanto por Assad quanto para si mesmos. As democracias estão cegas demais pelos fracassos dos anos Bush para verem esse quadro. Até que pressionem o botão de reinicialização, a matança não terá fim.

* original no Observer

  • lucido

    você não sabe o que está escrevendo. Nem sabe o que está por traz de tudo isso. Pare de fazer propaganda pró estados unidos e vá estudar a fundo a questão antes de publicar palavras insustentaveis.

  • http://www.vozdotrovao.wordpress.com Gabriel Cavalcante

    O texto é bom, sólido e traz um ponto de vista diferente. Mas é uma linha de argumentação perigosa, porque valida totalmente a linha intervencionista que, até agora, não tem trazido bons frutos (e dificilmente passará a trazer).

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